segunda-feira, 1 de março de 2010

WILLIAM COLGATE E OS DIZIMISTAS BRASILEIROS

A história de William Colgate, fundador da empresa que leva seu nome, tem sido muito utilizada como fonte de inspiração no meio evangélico, especialmente no que diz respeito à sua fidelidade e liberalidade: Desde que a Colgate não passava de uma pequena fábrica de sabão, William já havia se comprometido a ser um dizimista fiel. Com o passar do tempo e o bom andamento dos negócios, Colgate aumentou o percentual de sua contribuição: 20%, 30%, 40%... até chegar a destinar 90% de seus lucros para a obra do Senhor, de forma que, agora como bilionário proprietário de uma das maiores empresas do mundo, ficava com apenas 10% para si.

Tal relato pode suscitar (e muitas vezes suscita) a seguinte interpretação: “Se Colgate conseguiu construir todo este império sendo um dizimista ... o mesmo pode dar certo com qualquer faça o mesmo que ele”!?

Ou seja, tenta-se fazer da fé de William Colgate uma fórmula ou receita mágica para o sucesso.

Desejo propor uma pergunta:

E quanto aos outros milhares de dizimistas fiéis que não se tornaram donos de multinacionais?

Por que não se fala deles?

Será que se considera que eles não tiveram nenhuma recompensa por sua fidelidade?

Na teoria ética existe uma discussão acerca da finalidade da virtude (por que devemos praticar o bem?) que creio que pode nos ajudar: Fazemos aquilo que é correto pelo valor que a ação possui em si mesma (ética do dever ou deontológica) ou pelos bons resultados que ela pode proporcionar (ética do objetivo ou teleológica)?

Quem é dizimista o faz por solidariedade ao Reino de Deus ou pensa em alguma vantagem posterior?

A ética deontológica ensina que o bem intrínseco das ações é sua própria recompensa - aí está a recompensa de todos os milhões de dizimistas fiéis, que recebem parcos salários, tomam ônibus todos os dias e são a coluna que sustenta a igreja evangélica brasileira: o privilégio de auxiliar na expansão do Reino de Deus com seus recursos financeiros.

Lamento por aqueles que dizimam, inspirados ou não pela história de William Colgate, tentando transformar a contribuição numa espécie de fundo de investimento celestial e fazendo de Deus o seu gerente. Teriam uma atitude de maior honestidade cristã se aplicassem seu dinheiro em um fundo de investimento ou se comprassem ações.

Podem até ser mesmo da Colgate-Palmolive.