domingo, 5 de julho de 2009

SÚPLICA CEARENSE



Oh! Deus, perdoe este pobre coitado


Que de joelhos rezou um bocado


Pedindo pra chuva cair sem parar





Oh! Deus, será que o Senhor se zangou


E só por isso o sol se arretirou


Fazendo cair toda chuva que há





Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho


Pedi pra chover, mas chover de mansinho


Pra ver se nascia uma planta no chão





Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,


Eu acho que a culpa foi


Desse pobre que nem sabe fazer oração





Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água


E ter-lhe pedido cheinho de mágoa


Pro sol inclemente se arretirar





Desculpe eu pedi a toda hora pra chegar o inverno


Desculpe eu pedir para acabar com o inferno


Que sempre queimou o meu Ceará

Esta canção, composta por “Gordurinha“ e Nelinho e interpretada por Luiz Gonzaga aborda o drama do nordestino flagelado pela seca. Mais que isso, porém, a música apresenta diversos conceitos sobre Deus (especialmente no que diz respeito á relação entre Deus e o sofrimento) que merecem nossa análise:

1. Deus é apresentado como um ser distante e que não se relaciona com os fatos desta vida, sendo para ele um incômodo ter de fazê-lo (por isso o autor diversas pede perdão por fazer-lhe uma petição) - ou, quando o faz, sempre age de maneira punitiva (Oh! Deus, será que o Senhor se zangou/E só por isso o sol se arretirou).

2. Não existe qualquer elemento de pessoalidade ou intimidade na maneira de buscar a Deus. O autor sequer manifesta a esperança de que seja atendido. A Súplica Cearense mais parece um pedido de aumento de salário a um patrão egoísta do que a apresentação de uma necessidade a um pai amoroso.

3. A causa da súplica não-atendida é sempre devido à inadequação do homem às exigências caprichosas de Deus, por não saber buscá-lo com a devida cerimônia ou por não dispor dos conhecimentos necessários para fazer da religiosidade um meio de extorsão para relacionar-se com Deus (Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe/Eu acho que a culpa foi/Desse pobre que nem sabe fazer oração).

O sofrimento histórico do povo nordestino com a seca não deve ser subestimado nem minimizado.

É mais difícil, porém, superar o sofrimento quando temos um conceito errado sobre Deus. Aliás, isto de torna um sofrimento adicional – pois somente a verdade sobre Deus possui caráter libertador.

A Bíblia apresenta um Deus amoroso, misericordioso e compassivo, que se interessa pelos dramas da humanidade. Um Deus que acolhe as súplicas de quem O busca, a ponto de o autor aos Hebreus exortar: Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno (Hebreus 4.16).

Um Deus realista, que reconhece que este mundo não corresponde ao ideal de Sua mente, mas que em Cristo Jesus, já está operando a construção de um mundo novo: esta presente realidade (com todas suas mazelas, que sempre vale a pena lembrar, não fizeram parte da intenção original de Deus, mas são conseqüências da queda da espécie humana) não é a palavra final de Deus à História. E o caráter transitório desta era, dado como certo diante da promessa trazida pelo Evangelho, de novos céus e nova terra, é Sua resposta a todo aquele que “geme” diante das agruras da atual realidade (Romanos 8.19-23), constituindo-se em um convite à marcha, à peregrinação corajosa, dentro desta história, rumo ao futuro prometido por Deus.
Qualquer bênção ou livramento experimentados nesta realidade não são comparáveis à futura consumação plena da promessa de restauração de Deus, nem podem ser a base de nossa fé.
A promessa e revelação de Deus em Cristo é a resposta à Súplica Cearense.
O filósofo judeu Emmanuel Lévinas (1906-1995) perguntava-se, após os horrores da 2.ª Guerra Mundial: como falar de Deus depois do horror de Auschwitz?
O teólogo alemão Jürgen Moltmann (1926) apresenta um outro ponto de vista totalmente diferente: como não falar de Deus após Auschwitz?