quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CARTA ABERTA A UM LUTERO ANGUSTIADO


Tudo começou enquanto eu procurava uma figura para substituir o Spectreman (quem foi criança na década de 80, que entenda!) de minha área de trabalho.

Decidi procurar uma imagem relacionada à Reforma Protestante ou aos cinco Solas e me deparei com a charge acima.

Desconheço o autor da charge e o contexto de onde se originou. A leitura que eu faço da imagem me sugere um Lutero angustiado diante da fragmentação da Igreja em diferentes facções teológicas - e, ao meu ver, a angústia maior deste pensativo Lutero é que ele sente-se responsável pela confusão que está às suas costas.

Em parte até concordo que o Reformador de carne em osso teria compartilhariado, em certa medida, com os sentimentos que aparecem no desenho: Lutero pretendia reformar o catolicismo (já cindido desde o século XI), e não criar um novo segmento eclesiástico. Não creio, contudo, que ele teria chegado ao mesmo nível de desânimo representado na figura. 

Afinal, a grande questão que a charge levanta é: diante do quadro religioso que se desenvolveu nos últimos cinco séculos, valeu a pena a Reforma Protestante?

Respondo positivamente a esta pergunta - e gostaria de apresentar meu argumentos na forma de consolação, uma carta aberta a este Lutero angustiado.

"Caro irmão em Cristo:

Você se encontra angustiado, questionando o seu legado. Por favor, gostaria que você considerasse estas razões para você se reanimar e olhar de foema mais positiva o trabalho que fez em prol do Reino de Deus: 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque os riscos da liberdade sempre são preferíveis à falsa segurança da repressão.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque colocou a Bíblia nas mãos do povo - e mesmo que alguns façam mau uso dela, a culpa não é nem sua, e nem da Bíblia (além disso, se este argumento não te convencer, lembre-se que tem muita gente que ainda faz bom uso da Bíblia). 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque ainda que muita gente tenha se equivocado é sempre melhor alguém pensar e errar do que errar porque alguém pensou em seu lugar.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque alguns conceitos do cristianismo realmente possibilitam interpretações variadas  - e foi seu próprio discípulo, Melanchton, quem cunhou o lema máximo da Igreja para lidar com tais questões: 'Nas coisas necessárias, unidade; nas coisas incertas, liberdade; em todas as coisas, caridade'.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque ainda que muitos, mesmo tendo a Bíblia em suas mãos, tenham se afastado da doutrina cristã ortodoxa (nem todas as falas que aparecem às suas costas se enquadram na regra de Melanchton e você sabe disso), assim o fizeram não por consequencia direta do espírito da Reforma, mas justamente por se afastarem do espírito da Reforma, que sempre enfatizava a centralidade de Cristo e das Escrituras. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque não foi a 'sua' reforma particular - o que ocorreu em 1517 foi a culminância de aspirações e sentimentos de várias gerações de cristãos que vieram antes de você e que também desejaram reaproximar a cristandade da Bíblia. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque além dos efeitos religiosos, ela foi também um movimento intelectual e econômico pujante, trazendo diversas contribuições à humanidade. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque foi um movimento que conseguiu desburocratizar a fé, resgatando a simplicidade da mensagem cristã e reafirmando a dignidade de cada cristão com a Bíblia nas mãos, diante de Deus através de Cristo.

E meu caro Lutero, se nenhum destes argumentos te convencer, apresento um argumento tirado de meu tempo, do século XXI:

Nunca precisamos tanto de uma Reforma quanto hoje! A situação está feia, pior do que a cena que está às suas costas!

Espero que este último argumento, ao ressaltar a urgência do resgate de seu legado, demonstre de forma concomitante a importância mesmo, te convencendo de uma vez por todas a espantar o bode e se levantar dessa mesa.

Fraternalmente em Cristo, Vitor Gadelha".