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segunda-feira, 12 de março de 2018

A IGREJA NÃO PODE VIRAR WAKANDA



Se você ainda não assistiu Pantera Negra, aconselho você retornar a este texto após ver o novo filme da Marvel Studios, sucesso de crítica e público, a fim de evitar possíveis spoilers. 

T'Challa é um super-herói incomum: antes de ser um guerreiro, é o rei de Wakanda, país africano fictício do universo Marvel, reserva mundial de Vibranium, metal fictício precioso e poderoso, que possibilitou o desenvolvimento tecnológico e social sem par desta nação e que por isso mesmo vive isolada de outras nações, preservando seu estilo de vida em sigilo. 

O Pantera Negra incorpora as funções de estadista, guerreiro e representante das crenças ancestrais de seu povo, o que o faz dele um personagem muito interessante, testemunho da genialidade de seus criadores, Stan Lee e Jack Kirby e de como desde o início da formação de seu universo de super-heróis a Marvel soube trabalhar bem questões sociais e de representatividade.

O filme apresenta a coroação de T'Challa (seu pai, o antigo rei, fora assassinado em Capitão América: Guerra Civil) e o enfrentamento de um antagonista que pretende assumir o trono, Killmonger.

Uma fraqueza comumente apontada  nos filmes da Marvel é a superficialidade de seus vilões. Para boa parte da crítica e do público, Killmonger se torna uma exceção, pois seu argumento para enfrentar o herói é plausível: Wakanda se isolou do restante do mundo em sua riqueza e ignorou o sofrimento histórico da população negra. Wakanda era culpada de omissão e reformas eram necessárias. Infelizmente, Killmonger busca implementar sua visão através de crimes de ódio, o que torna sua reprovável sua conduta. O Pantera Negra vence seu antagonista e implementa uma política de cooperação internacional.

Não posso deixar de fazer uma comparação entre Wakanda e muitas igrejas de nossos dias: possuem a riqueza do Evangelho, mas estão fechadas em si mesmas, alheias a todo sofrimento e necessidade a seu redor. Tal tipo de omissão é imoral, assim como a da fictícia Wakanda.

Não temos vibranium, mas aquilo que temos, somos chamados a dar (At 3.6), diminuindo, em nome de Jesus, a dor de quem nos cerca. 

O Evangelho para sempre!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

ORTODOXIA NO MUSEU OU NO PÚLPITO?



Queermuseu foi um dos acontecimentos mais polêmicos do ano de 2017.

A exposição, apresentada no Santander Cultural, em Porto Alegre, tinha como proposta representar artisticamente a diversidade sexual (daí o uso de queer, "estranho" em inglês, um termo outrora usado pejorativamente para referir-se à sexualidade desviante e agora apropriado de forma positiva e auto-afirmativa pela comunidade LGBT). A opinião pública, porém, reagiu com indignação ao conteúdo pornográfico e blasfemo apresentado, além de repudiar a incitação à pedofilia e zoofilia contida nas obras, que foram contempladas por várias crianças.

É dever das autoridades verificar quaisquer violações à lei que tenham sido cometidas, (especialmente as que dizem respeito à inadequação de faixa etária do evento), ao mesmo tempo em que é preservado o direito à liberdade de expressão. Lamento o aspecto blasfemo da exposição como indivíduo de fé, mas não espero (nem desejo) a ação de um tribunal teocrático estatal.  
 
Há que se lembrar, no entanto, que vivemos em uma sociedade secularizada, relativista e hedonista. Isto é um sinal escatológico (Mt 24.12-13; 2Tm 3.11-5). Não causa espanto que uma exposição de arte seja influenciada por tais valores. Aliás, é de se esperar, visto que um museu não tem compromisso nenhum em representar a ortodoxia cristã.

Logo, é direito dos indivíduos sentirem-se ofendidos e expressarem seu descontentamento com a exposição (inclusive através de boicote à instituição, se assim entenderem que agiriam como mantenedores da exposição), mas não há cabimento em cobrar ortodoxia de uma instituição secular.

Os valores da fé devem ter representatividade na comunidade da fé.

Mais coerente que cobrar ortodoxia do museu é cobrar ortodoxia do púlpito. 

Mas, pelo jeito, a julgar por grande parte dos púlpitos brasileiros, muita gente exige ortodoxia do museu enquanto engole heterodoxia do púlpito...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A REGRA NÃO PODE VIRAR EXCEÇÃO



Desde 13 de março de 2013, ao ser eleito papa, Jorge Mario Bergoglio tem surpreendido o mundo com suas atitudes.

A começar pela escolha de seu nome papal, “Francisco”, homenageando o poverello de Assis. Logo em seguida, ao pedir que orem por ele, surpreende com suas maneiras afáveis e gentis. Continua surpreendendo com sua acessibilidade e, principalmente, por seu desapego, expresso nos hábitos simples, na pela pregação a favor de uma vida simples e na punição de religiosos que viviam luxuosamente à custa dos fiéis.  

Realmente, Francisco é uma surpresa para o mundo (mesmo para aqueles que, como eu, não concordam com sua teologia). Uma grata surpresa.

E ao mesmo tempo, lamento que Francisco cause tanta admiração – pois, afinal, ele está simplesmente demonstrando a prática que sua crença exige.

O nível de surpresa que o mundo demonstra diante de Francisco demonstra também algo mais grave: que não é esperado um comportamento gentil e humilde por parte de um líder religioso. Quando ocorre, é de causar admiração.

Isto mostra que a regra se tornou exceção! Triste realidade!

Costumo pensar que herói é aquele que faz o qualquer um deveria ter feito. Neste sentido, a existência de “heróis” se constitui em uma anomalia. E, como dito, triste é o povo que precisa de heróis – porque não assume sua vocação para a virtude.

Precisamos de uma nova safra de religiosos que mostre que gentileza e humildade é regra, não exceção, fazendo com que o mundo pare de se espantar diante destas virtudes – e simplesmente se acostume com elas.


E que esta nova safra venha a surgir também no Brasil, tão repleto de pastores-que-querem-ser-papas, que fariam bem em observar melhor este papa que quer ser pastor.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PENSE NISTO: UMA PALAVRA DE JÜRGEN MOLTMANN SOBRE O CULTO AO CORPO

"As possibilidades de embelezamento do corpo se desenvolveram e disseminaram (...). Em algumas áreas, a mania de beleza e o culto ao corpo se converteram na religião que dá sentido ao ser humano moderno. A cirurgia plástica e a cirurgia cosmética prometem a obtenção do corpo que se deseja para estar bem consigo mesmo e ser reconhecido pelos outros. 'Quem quer ser bonito tem de sofrer', mas o que tudo não se faz por causa do reconhecimento! Partes essenciais da moderna mania de beleza são os programas de antienvelhecimento. Só quem permanece jovem é belo, e quem permanece belo é considerado jovem. Ele ou ela se tornam, a seu modo, 'imortais'. Um corpo treinado e belo não mostra as marcas da idade, deve -se imaginar. Porém, os corpos amoldados ao ideal não são estranhamente enrijecidos e sem vida, impessoais e sem caráter?

Os aumentos de desempenho e os tratamentos de beleza se devem realmente só à autodeterminação livre e legítima da própria vida? Não é verdade. São antes imposições da sociedade moderna que obrigam as pessoas a ser produtivas e bem-sucedidas, belas e atraentes. No palco esportivo da sociedade moderna, a imposição ainda se chama 'competição' nobre, na sociedade burguesa do dia a dia é concorrência dura e fria. No esporte de alto rendimento, o doping se tornou a imposição sistêmica: Quem não pode acompanhar o ritmo, está fora. É o que diz também a indústria farmacêutica que lucra com isso. Por causa do medo de não poder mais apresentar o desempenho que se esperava dele, Robert Enke, famoso goleiro alemão, se jogou na frente de um trem em 2009. Por causa do medo da síndrome de burn-out, os professores recorrem ao doping neurológico. Quem quiser acompanhar o ritmo e ficar entre os ganhadores, terá de trabalhar em si mesmo e se sacrificar, de um jeito ou de outro. O mesmo se aplica à beleza: O poder-ser-mais-belo há muito tempo deu lugar ao deve-ser-belo. Por isso, os belos muitas vezes passam uma impressão tão tensa e triste. Não se consegue mais distinguir entre seu amor ao corpo e seu ódio ao corpo. Os corpos do mundo moderno, corpos de alto rendimento e corpos lindamente modelados, são, muitas vezes, só variantes do corpo militar e sucessores do corpo ascético. (...) 

A autêntica experiência corporal cristã está inserida na experiência de fé do amor de Deus. Quem se sente aceito e amado, também está bem consigo mesmo e aceita seu corpo assim como ele é e vem a ser com o passar do tempo. A experiência do amor divino torna os crentes não só justos, mas também belos. 'Os pecadores são belos, porque são amados; não são amados porque são belos'., escreveu Lutero na controvérsia de Heidelberg em 1518. Também o amor humano deixa a pessoa amada bela, quando é gratuito e solícito. Ele provoca também nos rostos desfigurados o brilho da beleza porque desperta a alegria. O 'corpo do amor' é a vida humana plenificada da vida divina.

Com a encarnação de Deus realmente já está posta uma imagem contrária ao moderno 'homem-máquina' e aos produtos artificiais 'desempenho' e 'beleza'. Deus se fez humano para que nos convertamos de deuses orgulhosos e infelizes em verdadeiros seres humanos; em seres humanos que podem aceitar a sua juventude e a sua velhice e estão de acordo com a transitoriedade dos seus corpos; em seres humanos que sabem que a vida é mais que desempenho e que o amor é o que embeleza o ser humano".

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A TEOLOGIA DO GRANDE AMOR



A repercussão causada pela traição de Kristen Stewart me fez pensar um pouco sobre as contradições de nosso tempo.

Vivemos em uma sociedade que valoriza cada vez mais a liberalidade no amor como forma de liberdade, mas que ao mesmo tempo rejeitou a atitude da jovem atriz.



Robert Pattinson e Kristen Stewart protagonizaram nos cinemas a saga Crepúsculo, o mais recente sucesso da literatura romântica (o vampirismo, na verdade, é apenas um tema menor dentro da obra, que é uma história de amor, em sua forma mais clássica, nobre e antiquada – e, aliás, para muitos críticos, é um mistério que um livro com uma ética tão retrógrada tenha feito tanto sucesso em nossos dias permissivos.).



Os romance dos dois jovens atores fascinava por dar continuidade, na vida real, ao romance da fantasia.

Era a concretização do final feliz – que veio por água abaixo com o affair da garota com o diretor de seu novo filme.



E vivemos em uma sociedade que não admite perder o final feliz de um conto de fadas romântico – e por quê, já que seu discurso e prática, com seus carnavais, baladas, bailes funk e coisas do gênero conspiram contra ele?

Por que, se os paradigmas de masculinidade e feminilidade de nosso tempo aboliram o “que até a morte os separe” como essencial para o final feliz?

Talvez por saber, sem assumir, que esta postura inviabiliza o “felizes para sempre”.



Parece que a permissividade é o discurso de nosso tempo, mas o desejo dos seres humanos de nosso tempo continua sendo o grande amor.

Prega-se a poligamia, mas se quer a monogamia.



Ouso dizer que, da mesma forma que Deus colocou a eternidade no coração dos homem, instigando-o para a transcendência (Eclesiastes 3.11), Deus também colocou no coração humano o desejo de viver um relacionamento significativo e exclusivo com outra pessoa  – ser uma única carne com alguém (Gênesis 2.18-25)*.

Uma figura tão poderosa que é símbolo do relacionamento de Cristo com Seu povo (Efésios 5.25-33).

Viver o grande amor. Não uma molecagem. É disto que os seres humanos precisam.



Mesmo que o discurso de nossa sociedade negue isto, como ato falho este anseio aparece, nas artes e nas canções - motivo pelo qual eu coloquei tantos "casais célebres" de nossa cultura neste post, como testemunho de como o grande amor é valorizado e ansiado.

E como testemunho e explicação também de como e porquê a sociedade sente-se frustrada quando a vida não imita a arte (arte que muitas vezes serve como escape da própria vida para as pessoas) - e acaba o que parecia ser um conto de fadas.
 
______________
*Exceção deve ser feita àqueles que, por dom e vocação divina, abrem mão desta vivência para dedicação exclusiva ao ministério (Mateus 19.12; 1 Coríntios 7.7).

terça-feira, 19 de junho de 2012

O HOMEM QUE MAIS PREJUDICOU O CRISTIANISMO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE


Esqueça Darwin com a Teoria da Evolução, ou mesmo Nietszche, que alardeou pelos quatro cantos a bravata de que Deus estava morto, ou mesmo ainda um dos neo-ateus da atualidade, como Richard Dawkins.

Não.

O maior prejuízo à fé cristã não veio da boca ou da pena destes homens – sendo que ”prejuízo”, na concepção deste artigo, não se refere à perseguição, que tem produzido mártires ao longo dos séculos, ou mesmo à oposição intelectual, à qual apologetas da Igreja não se furtaram a questionar, antes se refere ao êxito na:

  1. popularização de uma cosmovisão com tal índice de sucesso que tal maneira de pensar conseguiu se incorporar à consciência coletiva e;
  2. sendo tal cosmovisão tão  radicalmente oposta ao cristianismo, conseguiu criar um grande entrave para a compreensão do mesmo pela sociedade.  

Estou falando de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e seu conceito sobre a bondade humana inata.



Emilio, ou Da Educação, a principal obra do filósofo francês, tem como tema principal é a forma ideal de educar as crianças (curiosamente, Rousseau abandonou seus próprios filhos no orfanato).

No livro, ele defende a famosa tese de que o homem é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe.

De imediato, esta famosa tese apresenta um grave problema de lógica: como homens que são, em tese, bons, poderiam gerar uma sociedade má? O filósofo dá a impressão de que a sociedade não é composta por homens. Se a sociedade é formada pela soma de homens que são naturalmente bons, de onde surgiu o elemento corruptor que impediu que a soma de homens bons produzissem uma sociedade boa? O raciocínio de Rousseau neste ponto se assemelha muito ao de Sartre, que afirmava que “o inferno são os outros”.

Mesmo sendo logicamente inconsistente, a tese de Rousseau ganhou enorme aceitação popular, ainda que negasse uma importante doutrina cristã: o estado caído da humanidade, que faz com que o homem seja mau – ou seja, pecador – por natureza.

É a partir da constatação da queda humana que o cristianismo apresenta a boa nova de que Deus provê salvação ao homem – homem que, como conseqüência de seus pecados, encontra-se alienado de Deus, do próximo (daí vem a iniquidade na sociedade) e de si mesmo.

A sustentação da doutrina da depravação humana não é uma insistência mórbida de teólogos cristãos (até mesmo porque esta é a mais empírica de todas as doutrinas cristãs), mas porque não faz sentido falar de salvação a quem não precisa ser salvo!

Se o homem é bom, de forma inata:

  1. Ele não precisa de um Deus que o salve – basta apenas desenvolver sua bondade natural (autosoterismo);
  2. Já que ele é bom, passa a ter mérito diante de Deus – o homem “merece” o céu, “merece” que Deus o abençoe;
  3. Ele deixa de ter responsabilidade pelo que faz e pelo que é, já que outros o tornaram corrupto;
  4. O homem passa a ser realmente a medida de todas as coisas (de onde você acha que vêm o famoso conceito “siga seu coração”?) – é estabelecido, então, o antropocentrismo, em seu mais alto grau.

A conseqüência direta da popularização desta tese de Rousseau foi o esvaziamento de sentido da mensagem do Evangelho, através da formação de uma nova forma do homem olhar a si mesmo e não se ver mais como pecador.

A crítica feita à teologia liberal do século XVIII (que, de forma semelhante a outras linhas de pensamento desenvolvidas desde então é essencialmente antropológica, tendo reinterpretado o Evangelho negando a radical necessidade do ser humano ser salvo de sua própria pecaminosidade), resume bem a como homem moderno e pós-moderno concebe o Evangelho, após fazer a releitura de si mesmo nos moldes de Rousseau: “Um Deus sem ira enviou um Jesus falível para morrer desnecessariamente na cruz por uma humanidade sem pecado”.

Este é, então, um dos maiores entraves à compreensão do Evangelho atualmente: Rousseau ajudou (de forma consciente ou não) a humanidade acreditar que não precisa dele.

O homem contemporâneo pode até aceitar um Jesus Mestre, um Jesus Modelo de Vida, um Jesus abençoador - não crê que precisa de um Jesus Salvador, pois não consegue compreender que precisa ser salvo.

Hiroshima. Auschwitz. Vietnã. Serra Leoa. Todas as pequenas mazelas do cotidiano, individuais e coletivas... a história não dá sustentação à tese de Rousseu.

O ser humano é mau. E consegue produzir uma sociedade igualmente ruim.
 
É triste. E também irônico que o maior prejuízo causado ao cristianismo em sua história não tenha vindo a partir de uma negação de Deus.

Foi simplesmente uma mentira a respeito da natureza humana.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A ÚLTIMA NOVELA QUE ACOMPANHEI

Fiz parte de uma geração que podia assistir novelas em sua infância.

Antigamente, as novelas das 7 tinham um viés mais cômico, enquanto a novela das 6 eram mais "água-com-açúcar", e as tramas mais densas eram reservadas para as novelas das 8.

Lembro-me de quantas gargalhadas dei junto de minha mãe assistindo a novelas das 7 como "Vereda Tropical" e "Cambalacho".  

Sabe aquela cena antológica de Fernanda Montenegro e Paulo Autran atirando um no outro o café da manhã? Pois é, eu vi quando passou pela primeirta vez.

"Roque Santeiro", então, foi emocionante (embora, aos 8 anos de idade, não conseguisse compreender a dimensão política do folhetim de Dias Gomes). Lembro-me da correntinha do "Sinhozinho Malta", de Regina Duarte gritando por "Nina", da figura enigmática do Beato Salu e da maldade de Zé das Medalhas.

Atualmente as novelas mudaram muito - e não  creio que possam mais ser assistidas por crianças.

Também não tenho mais interesse em assistir novelas.

Mas recordo-me de uma das últimas novelas que acompanhei com uma certa regularidade: pulei vários capítulos, mas me interessava pela história.

Era uma trama leve, palatável, que lembrava muito as novelas de minha infância: havia o elemento romântico dos protagonistas, o elemento cômico, a crítica à ambição e materialismo dos vilões.

Esta também foi a primeira novela global na qual uma atriz negra ocupou o papel de protagonista: Thaís Araújo, tendo como par romântico Reinaldo Gianecchini (oremos por ele).

Esta foi uma decisão de grande significado social: o folhetim queria prestar um serviço à causa da igualdade, inclusão e cidadania.

Mas a emissora não conseguiu deixar de dar um tiro no próprio pé com a escolha infeliz do título!

A novela chamava-se "Da Cor do Pecado".

O título fazia uma associação racista (inconscientemente, creio eu), entre pecado e cor!

(E mesmo que o "pecado" no título do folhetim não tenha conotação teológica, mas a conotação do senso comum, sabemos que o termo sempre assume o sentido de lascívia ou tentação - ou seja, de qualquer forma, a associação seria sempre negativa)

Ou seja, o título concedeu um viés racista a uma novela que pretendia ser anti-racista!

O serviço transformou-se em desserviço!

Lamento profundamente por esta contradição (que, repito, espero que tenha sido inconsciente) cometida pelos autores.

Mas isto nos ensina que só poderemos prestar um serviço social efetivo e transformador se nossos esforços estiverem baseados em uma reflexão profunda e crítica, capaz de superar todos os conceitos equivocados e injustos do senso comum. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MEU LAMENTO POR SANDY

Por duas vezes a filha de Xororó chamou atenção da mídia e da sociedade neste ano de 2011.

A primeira foi quando aceitou ser a garota-propaganda de uma cerveja, cujo nome fantasia faria um trocadilho de péssimo gosto (e intencional) com a figura da cantora.


A segunda vez, foram as “bombásticas” declarações que ela deu à imprensa sobre sexualidade.


Tal comoção é explicada porque Sandy sempre foi vista como referencial de boa-moça.

Para mim (e isto é uma interpretação particular), as recentes atitudes da Sandy soam como um esforço intencional e consciente para desconstruir a imagem de “boa moça” como era conhecida.


Em parte eu considero compreensível o que está acontecendo, pois ser referencial de “boa moça”, não raro, significa ser referencial de um estereótipo (no caso, um ser apático, sem iniciativa e assexuado). Não é agradável viver para satisfazer às expectativas do público, que , não raro, é cruel em suas cobranças e demandas e invasivo no relacionamenhto com o indivíduo (uma preocupação à qual o próprio Xororó já havia se referido: http://www.terra.com.br/istoegente/48/entrevista/index.htm).

Meu lamento é que, em tal esforço, Sandy não tenha percebido que ela esteja abdicando de algo bom e valioso em si mesmo: ser referencial de “boa moça” (a despeito das cobranças sociais injustas), sempre significou respeitabilidade, credibilidade e bom-senso.

Eu lamento porque não creio que ser "boa moça" seja um motivo de vergonha, mas de alegria e satisfação pessoal.

Meu desejo e oração é para que, na luta por preservar sua individualidade, Sandy não acabe desvirtuando sua identidade, pois diz a Bíblia Sagrada que “Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento” (Eclesiastes 7.1) – e parece que é a este precioso tesouro que ela parece estar disposta a abdicar.

domingo, 10 de abril de 2011

UMA HISTÓRIA COMOVENTE - E UM TESTEMUNHO DA GRAÇA DE DEUS

Nesta semana cheia de tristezas causada pela tragédia no Rio de Janeiro, caiu em minhas mãos a comovente história de Howard Weinstein - uma história que desejo compartilhar com você agora, como testemunho da graça de Deus, fazendo com que não existam somente monstros no mundo.

"O canadense Howard Weinstein tem 60 anos e a empolgação de um adolescente de 12. Falastrão, transita entre o português, o inglês e o francês na mesma conversa, numa confusão quase incompreensível. Na semana passada, sua euforia tinha um motivo profissional. Sua empresa, Solar Ear, entrou no ranking das dez brasileiras mais inovadoras, feito pela revista americana Fast Company. Estava ao lado de companhias como Azul, AmBev e Petrobras. A Solar Ear é a única organização sem fins lucrativos na lista. Com poucos recursos, tem apenas 30 funcionários. E infraestrutura mínima. A despeito do tamanho, está conseguindo um feito nobre (e inédito): dar aos surdos mais pobres do planeta a capacidade de escutar – e estudar. “Minha missão é dar oportunidade de educação para as crianças”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 300 milhões de pessoas no mundo têm surdez total ou parcial. Mais de dois terços estão em países pobres, onde sobram doenças e faltam antibióticos. O ritmo de fabricação dos aparelhos não acompanha a demanda: são feitos apenas 8 milhões deles ao ano. Apenas 12% chegam aos países menos abastados, e os que chegam custam caro. No Brasil, podem variar de R$ 2 mil a R$ 15 mil. Sem contar o preço das pilhas: R$ 4 e duram só uma semana. “Existem quatro tipos de aparelho: de usar atrás da orelha, dentro da orelha, no canal do ouvido e de colocar na gaveta”, afirma Weinstein. “Alguns pacientes até recebem o aparelho do governo, mas não têm dinheiro para comprar bateria.”

O primeiro grande feito de Weinstein foi baixar o preço dos aparelhos. Seus equipamentos custam um sétimo do preço mais barato nessa classe de aparelho, em torno de R$ 300. O segundo salto está nos carregadores. Com a ajuda de engenheiros da Universidade de São Paulo (USP) e financiamento da Fundação Lemelson, uma organização filantrópica americana, e do Instituto Cefac, uma ONG voltada a ações na área de saúde e educação, Weinstein criou um equipamento de recarga solar. A engenhoca pode ser abastecida com a luz do sol ou energia elétrica da rede. Ele estima que, por ano, o mecanismo vai evitar o descarte de 200 milhões de baterias no meio ambiente. O usuário também economiza. Se usar pilhas convencionais, vai gastar R$ 210 ao ano. O kit da Solar Ear com baterias e carregador custa R$ 95 – e dura até três anos.

Há alguns anos, a filantropia passava longe dos planos de Weinstein. Dono de uma empresa de válvulas e torneiras, transformou seu negócio em algo tão lucrativo que o vendeu para uma grande companhia americana. Permaneceu como presidente. No começo dos anos 90, era um executivo de sucesso. Morava em um imóvel grande em Montreal, no Canadá. Tinha uma casa de campo com lago e pista de esqui no quintal. Era rico, mas diz que ainda buscava um sentido para a vida. Em uma noite de 1995, perdeu o chão. A filha Sarah, então com 10 anos, sofreu um aneurisma durante o sono e não acordou mais. Na semana seguinte, Weinstein foi demitido. Os chefes acharam que ele não conseguiria trabalhar depois do trauma. Tirou um ano de folga. Fez terapia. E abriu uma empresa de assentos sanitários eletrônicos. Faliu. “Eu sentia um vazio grande dentro de mim”, afirma. “Queria fazer algo para mudar a realidade.”

Em 2002, ele ouviu falar de um emprego para ajudar pessoas pobres na África. Sua tarefa seria criar uma empresa para fornecer próteses auditivas a preços acessíveis aos africanos parcialmente surdos. O salário era o equivalente a R$ 1.000. Weinstein aceitou o convite imediatamente. Precisava reconstruir sua história. Quando chegou a Botsuana, deparou com um escritório de sala única e praticamente vazia, no vilarejo de Otse, com 5 mil habitantes. Havia um par de cadeiras e nenhum funcionário. Certo dia, uma professora bateu em sua porta segurando uma criança africana surda pela mão. Teria dito ao recém-chegado que sua primeira missão ali era arrumar um aparelho auditivo para a menina. “Sabe qual era o nome dela?”, ele diz. “Era Sarah, o nome da minha filha.” Ele diz ter tomado a coincidência como um chamado. Meses depois, ao preencher um formulário para Sarah, descobriu que ela nasceu no mesmo dia que a filha que ele perdeu.

Weinstein partiu do zero e montou uma empresa na África em 2002. De lá para cá, já vendeu 15 mil aparelhos, 30 mil carregadores e 100 mil pilhas. Deficientes auditivos de mais de 30 países usam suas invenções. Há sete anos, ele veio ao Brasil pela primeira vez para falar sobre seu trabalho. Recém-separado, conheceu uma brasileira, se apaixonou... e decidiu casar e vir para cá, replicar o modelo africano. A versão brasileira da empresa africana abriu em 2009. Nenhuma de suas invenções foi patenteada. “Quero mais é que as empresas copiem”, diz. “O poder de distribuição seria muito maior do que jamais teremos.” Os funcionários da linha de montagem são surdos. “Como praticam linguagem de sinais, eles têm mais habilidades para manipular as peças pequenas”, diz Weinstein. Ele pretende dobrar o número de funcionários nos próximos meses.

Weinstein se emociona ao lembrar de pessoas que ajudou. Victória Gabriela Reis, de 10 anos, é uma delas. A menina nasceu com problemas de audição. Os médicos diziam que ela era surda. À medida que cresceu, passou a detectar alguns sons, como o barulho de um carro freando ou de panela caindo. A família não tinha dinheiro para comprar um aparelho. Victória ganhou um do governo, mas perdeu-o na escola. Ficou surda de novo durante três anos. No mês passado, a Solar Ear doou um equipamento. “Ela gritou, bateu palminhas e saiu de lá saltitando”, diz a mãe, Maria Gorett Silva dos Reis. “Está reconhecendo novos sons agora. Ela deu mais uns três passos à frente.”

Ao final de cada ano, Weinstein envia uma carta aos amigos e à família para falar do que tem feito. Em anos passados, ele contou seu encontro com o economista bengalês Muhammad Yunus, vencedor do Prêmio Nobel da Paz por criar o “banco dos pobres”. Escreveu sobre um prêmio que recebeu ao lado de Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos. Neste ano, ele deverá mencionar o prêmio de inovação. Mas gastará mais linhas falando das histórias de gente como Victória".

Fonte: Revista Época

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

"POR ESTAS COISAS VEM A IRA DE DEUS..." Pô, mas logo por ESTAS coisas!?

“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas” (Colossenses 3.5-7, NVI).

A epístola à igreja em Colossos é um texto apologético, visando prevenir aquela comunidade quanto ao risco de abrir mão de sua suficiência em Cristo seduzida pelo apelo do racionalismo, de um misticismo falso e/ou do legalismo.

O capítulo 3 expõe qual é o aspecto prático desta suficiência em Cristo enquanto expressão de vida de fé – e introduz este assunto com uma recordação acerca do estilo de vida pregresso daquela comunidade, a fim de contrastá-lo com o caminhar em Cristo.

Imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância – assim viviam aquelas pessoas e Paulo foi enfático em afirmar que isto desperta a ira de Deus.

Fico pensando em como nossa sociedade reagiria a esta afirmação, que condena especificamente os comportamentos mais valorizados em nossa cultura; em suma, tudo o que o brasileiro acha mais divertido – e o Carnaval, os bailes funk e a pornogratização da mídia não me deixam mentir!

Alguém até poderia questionar: “Mas por que a ira de Deus vem justamente sobre ESTAS coisas? Que implicância é esta”?

Deus pode ser facilmente tachado como estraga-prazeres após a leitura de Colossenses 3.5-7.

Abaixo, apresento uma breve análise etimológica de cada termo destacado no texto:

• Imoralidade sexual (gr. porneia): a não-submissão da sexualidade ao Deus que a criou.

• Impureza (gr. akatharsian): a adoção da malícia como estilo de vida, o que impossibilita o respeito e a decência.

• Paixão (gr. pathos): quando a ânsia de viver intensamente desintegra o ser.

• Desejos maus (gr. epithumias kaken): a deificação do desejo, onde nada lhe deve ser negado, equivalente à deificação narcisista e maligna do eu.

• Ganância (gr. pleoneksian): quando o acúmulo de bens é visto como o fim máximo da existência.

Mas creio que a melhor forma de compreender o quão justa é a ira de Deus contra o estilo de vida sacralizado pela sociedade contemporânea é observar os efeitos por ele causados, procurando suas vítimas.

Entendo que a ira de Deus contra a imoralidade sexual é justa quando vejo os filhos das baladas crescerem como consequências indesejadas de um momento de prazer.

Entendo que a ira de Deus contra a impureza é justa quando vejo uma pessoa ser reduzida á condição de objeto sexual, procedimento assim sustentado pela mídia e pelo mercado.

Entendo que a ira de Deus contra a paixão é justa quando vejo famílias e relacionamentos arrasados, pela falta de consideração de alguém que argumentou querer “viver de verdade”.

Entendo que a ira de Deus contra a glorificação do desejo é justa quando vejo o poder destrutivo do desejo desvinculado da ética e do compromisso com o próximo.

Entendo que a ira de Deus contra a ganância é justa quando vejo a corrupção minar verbas que deveriam ser destinadas ao benefício público ou quando vejo o estilo de vida subumano dos workaholics contemporãneos.

Nossos valores estão na contramão do projeto de Deus para a espécie humana – estão na contramão da humanização.

E assim entendemos que a ira de Deus é Sua denúncia da nossa falta de discernimento, que nos leva a hesitar em depor nossos falsos ídolos e descartar suas falsas promessas de realização.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

PRECISAMOS DE UM CAPITÃO NASCIMENTO GOSPEL?


Quem assistiu "Tropa de Elite 2" percebeu que a grande crítica que o filme faz é acerca do uso criminoso da máquina política, onde a agenda da segurança pública é determinada por interesses eleitoreiros, e não segundo os anseios da sociedade.

No vale-tudo pelo voto o crime acaba tendo utilidade.

Desta vez, a determinação do Capitão Nascimento se fez necessária não mais em um conflito armado com criminosos, mas ao exercer a coragem necessária para denunciar os crimes dos pretensos representantes do povo, cuja relação com o mesmo, em sua sanha corrupta por poder, pode ser definida como parasitismo.

O povo não é nada - apenas uma massa que, manobrada adequadamente, produz o resultado esperado: votos.

Depois de presenciar a postura vergonhosa da maioria das lideranças evangélicas nas eleições deste ano, não pude deixar de me perguntar se a igreja evangélica não estaria necessitando de também um Capitão Nascimento, capaz de confrontar a míope postura política da cristandade, bem como a ânsia de poder daqueles que priorizam mais os títulos eleitorais de suas ovelhas do que suas almas.   

Parei, todavia, estarrecido, ao perceber que isto não é necessário!

O Espírito Santo já cumpre este papel entre nós!

É Ele quem confronta o homem com o seu pecado, chamando-o ao arrependimento.

E certamente Sua denúncia contra o vale-tudo eleitoral tem sido feita, atingindo corações e mentes!

A ausência de mudança simplesmente reflete o endurecimento de tais pessoas.

Resistem Àquele que é  maior que o Capitão Nascimento!

Por Deus, como anda a consciência destes homens?

Sim, pois é perfeitamente possível viver uma fantasia cristã, através da inserção de interesses particulares ímpios numa pretensa definição de "Evangelho".

Não será possível, contudo, fugir do julgamento do Dono do Evangelho: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mateus 7.21-23).
 
Será a maneira que o Mestre usará no último dia para dizer "pede pra sair".

Oremos para que Deus conceda arrependimento a estas pessoas.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

SOBRE COMUNISMO E COMUNHÃO

Atribui-se ao filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) a idealização do comunismo.

Na verdade, Marx desenvolveu o socialismo, afirmando que o comunismo seria o desdobramento  consumação de sua teoria político-econômica: fiel ao princípio da dialética de Hegel (1770-1831), que concebia a História como um fluxo contínuo de transformação gerado pelo conflito de forças opostas entre si, acreditava que o comunismo seria a consumação de seu projeto socialista para a sociedade*.

O socialismo é, prioritariamente, uma teoria econômica, fundamentada na história das relações econômicas do homem, ou seja, sobre as diferentes maneiras em que a sociedade se organizou para produzir riquezas - os chamados modos de produção.

Marx, juntamente com seu amigo e patrocinador Friedrich Engels (1820-1895) observou uma característica comum a todos os modos de produção registrados pela História (escravismo, feudalismo e capitalismo): os meios de produção (instrumentos necessários para produzir riquezas, como ferramentas, terras e até mesmo o conhecimento) sempre estiveram nas mãos de uma elite, que mantinham seu poder sobre as classes que o sustentavam através de meios próprios de repressão, como a ideologia, que justificava teoricamente a situação vigente (não poucas vezes aliada à religião) e os aparelhos repressores estatais (como o poderio militar e, posteriormente, a escola).

(Por exemplo, a atual sociedade capitalista se estrutura em torno da acumulação individual de capital, meio necessário para a produção de maiores riquezas (através de investimentos, prestação de serviços, etc.), com a chancela de um Estado não-interventor, que resguarda a autonomia econômica de seus cidadãos (razão pela qual este modelo econômico também é chamado de liberalismo – e o neo-liberalismo defende um papel ainda menor do Estado nesta questão). O capitalismo enaltece o individualismo e a meritocracia.)

Mesmo transformações históricas drásticas, como o fim do império romano e o início da Idade Média, mudaram apenas a aparência das coisas, mas a essência de dominação permaneceu a mesma. Por isso Marx afirmou que o eixo de interpretação da História é a luta de classes, motivada por questões econômicas - razão pela qual sua teoria também foi chamada de materialismo dialético, opondo-se à adoção de princípios metafísicos para interpretar a História.

Marx conclui que a posse privada dos meios de produção é o fator primordial para promoção da desigualdade econômica e injustiça social, por concentrar riquezas nas mãos de poucos, excluindo as camadas populares que as produzem. A única maneira de sanar este mal é através da posse coletiva dos meios de produção – papel que cabe ao estado socialista idealizado por Marx, que traz a abolição da propriedade privada com o intuito de garantir a participação de todos na produção e usufruto das riquezas. Como a história demonstra a tendência à perpetuação do conflito de classes com a subjugação da massa que sustenta o sistema, Marx afirma que só haverá a mudança necessária para reverter a distribuição de poder e riqueza na sociedade através de uma revolução da classe trabalhadora, já que as elites não abdicam de seu poder.

O comunismo seria o passo final dado pela sociedade socialista amadurecida, onde a propriedade dos bens e riquezas seriam coletivos sem a necessidade de intervenção do Estado.

Convém lembrar que Marx desenvolveu suas teorias observando as condições miseráveis e subumanas de vida e trabalho dos operários de seu tempo e que o socialismo/comunismo não é necessariamente ateu (como comprovam vários religiosos que concordaram com sua teoria). Marx era  ateu e criticou acidamente os males de uma religiosidade vendida ao sistema.

Se, por um lado, posso concordar com Marx que cabe ao Estado ter um papel maior na garantia do bem comum de seus cidadãos (o capitalismo movido apenas pelo individualismo se torna selvagem e excludente – cabe a Estado garantir que a produção de riquezas seja acompanhada de responsabilidade social, ao contrário do que defende o neoliberalismo), mas não posso concordar com as restrições às liberdades individuais que suas teorias propõem, cujas consequências imediatas foram a censura e a matança nos países onde o socialismo foi implantado.

Qual a melhor alternativa, então?

Sugiro que adotemos o modelo da igreja primitiva.

"E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos" (Atos capítulo 2, versículos 42 a 47).

Não com base no pressuposto errôneo de alguns estudiosos que consideram a igreja primitiva o exemplo mais primitivo de uma sociedade comunista.

Não – a fantástica visão social daquela comunidade, que conseguiu erradicar a  pobreza de seu meio, não era fruto da coerção estatal, nem tampouco de um projeto coletivista.

Eram decisões individuais de pessoas que sabiam viver não só para si, mas também para o outro.

Este foi o grande erro de Marx: achar que um ideal de justiça pudesse ser alcançado através da coerção de um meio externo (o Estado ou o Partido), quando isto é possível somente através da transformação interior.

Os primeiros discípulos não eram comunistas: viviam em COMUNHÃO – e assim, passaram a considerar suas vidas como um espaço coletivo, destinado a promover o bem comum.

Tudo espontâneo, motivado pelo Evangelho.

Simples assim. E eficiente assim.

E neste modelo eu boto fé.

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*Para alguns críticos do comunismo, esta é uma grande contradição de Marx: se a dialética histórica exige a constante transformação da sociedade, não é possível sua cristalização em um clímax – logo, o comunismo estaria fadado a ser superado por outra forma de organização econômico/social.

sábado, 6 de novembro de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

VOCÊ VAI VOTAR NO TIRIRICA?




Você vai votar no Tiririca?


Então deve estar disposto a sustentar o Tiririca pelos quatro anos de seu mandato - sim, digo sustentar, pois certamente ele não conseguirá desempenhar suas funções legislativas, já que não sabe ler e escrever.


Você vai votar no Tiririca?


Então deve esdossar a estratégia de seu partido, para aumentar sua bancada e representatividade, usando-o apenas como um meio - ou pior, um testa-de-ferro.


Você vai votar no Tiririca?


Então deve ter cauterizado bem sua consciência, a fim de poder dormir em paz sem se indagar acerca das ações produtivas e benéficas que seriam realizadas a favor da sociedade por um candidato mais competente - que você não elegeu.

 
Você vai votar no Tiririca?


Então deve estar vivendo uma fase hiperirônica ou hipercínica de sua vida, pois você está rindo (não do Tiririca, mas junto com o Tiririca, que assumiu publicamente estar apenas em busca de um bom salário) - e aceitou ser o alvo da piada.


Você vai votar no Tiririca?


Então deveria votar também em outros comediante (as opções são enormes!) para o Senado, para a Câmara Estadual e para os cargos executivos - assim seu voto será coerente, pois quem vota em um humorista, deve eleger um time completo de humoristas e colocar a nação nas mãos deles.

Você vai votar no Tiririca?


Então deve considerá-lo sua cara - pois na democracia representativa, elegemos candidatos que encarnem nossos valores e ideais e os defendam.


Você vai votar no Tiririca?


Então deve encontrar-se desiludido e desesperançado, aceitando o bordão "pior não fica" - fechando-se a toda possibilidade melhoria, de mudança, de reforma.

Você vai votar no Tiririca?

Então, como ele, você também não deve saber o que faz um deputado federal.


E nem como age um cidadão.


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Desejo ressaltar que este post não nutre nem visa estimular qualquer preconceito contra a pessoa de Tiririca ou negar o direito democrático de qualquer cidadão se candidatar aos cargos eletivos da nação; o que desejo ressaltar é que política é coisa séria, e deve ser realizada com respeito ao povo e às instituições democráticas que o representam