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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

AMAR A DEUS, AMAR MÚSICA CLÁSSICA

Algumas distinções entre cultura erudita e cultura popular baseiam-se em critérios subjetivos e, por vezes, preconceituosos.

Porém, li há vários anos em um livro de Filosofia uma maneira de conceituar (e contrastar) a cultura popular e a cultura erudita que chamou muito minha atenção: segundo o autor, a cultura popular se caracteriza por apresentar pouca informação ao indivíduo em suas produções, ao passo que a cultura erudita apresenta grande quantidade informação ao indivíduo - daí o motivo pelo qual determinado bem cultural se tornar "popular" e outro não: a cultura popular, por apresentar menor quantidade de informação ao indivíduo, se torna mais fácil de ser apreciada/interpretada/consumida: em outras palavras, é mais palatável, porque exige menos do indivíduo.

Não posso deixar de pensar que isto é verdade, pelo menos no que diz respeito à música: um hit das paradas de sucesso é um perfeito exemplo das características da cultura popular de acordo com o autor, com seus versos repetidos de fácil memorização (a típica música "grudenta") .

O mesmo não ocorre com uma peça de música clássica - sua linguagem exige mais esforço interpretativo por parte do apreciador-intérprete: uma maior abertura emocional, maior uso da abstração.

Ou seja, uma música popular pode ser curtida de forma instantânea; a música clássica exige  envolvimento do indivíduo para que ela possa ser curtida de forma plena.

As pessoas geralmente afirmam não gostar de música clássica, mas na verdade elas não aprenderam a apreciá-la, ou seja, não aprenderam dar o suficiente de si para atender as exigências do gênero, a construir uma postura suficientemente positiva e favorável para apreciação, e por isso se fecham à música erudita. 

(Um fato estranho: muitas pessoas dizem que não gostam de música clássica e ao mesmo tempo não conhecem música clássica!!! Como é possível não gostar do que não se conhece?)

Ou seja, uma música popular pode ser curtida de forma instantânea; a música clássica exige um envolvimento do indivíduo para que ela possa ser curtida de forma plena.

Penso que às vezes o mesmo que acontece na esfera musical acontece em relação a Deus.

Um deus raso, palatável, que acrescenta pouco e exige pouco de quem se apresenta a ele facilmente se torna "pop". Palatável como o hit do momento e tão irrelevante quanto.

Temo que a superficialidade de alguns cristãos se deva à reinterpretação "pop" que fizeram de Deus, tornando-o em um deus que exige pouco porque acrescenta pouco à vida de alguém.

Já a apreciação de Deus, reconhecendo quem Ele é - ah, é muito diferente e exige um profundo envolvimento do indivíduo: Sua mensagem é rica em informação transformadora, que deve ser reconhecida em sua relevância, em expectação aprendente; Sua linguagem atinge integralmente o ser, racional, emotiva e volitivamente, tocando-o de maneira especial; Suas promessas superam os melhores sonhos da abstração humana; a adoração se torna a apreciação da beleza de Seu ser, da perfeição de Seu ser (caráter, atributos, obras e vontade).  

A apreciação de Deus exige abertura diante de Sua linguagem e mensagem. Abertura à profundidade, desejo de ir mais além. Exige uma postura positiva, ativa para a apreciação e apreensão da voz e do ser de Deus. Em caso contrário, a experiência do indivíduo poderá ser seriamente prejudicada, à semelhança daqueles que evitam a música clássica por terem se feito surdos à mesma.

É a própria profundidade de Deus que impede que ele seja concebido de forma "pop".

Por isso percebo que amar a Deus tem muita semelhança com aprender a amar música clássica - é o ato de aprender a deslumbrar-se, de forma constante.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PENSE NISTO – UMA PALAVRA DE FRIEDRICH SCHILLER (e musicada por Ludwig van Beethoven!)



ODE À ALEGRIA


Oh amigos, mudemos de tom!

Entoemos algo mais prazeroso
 

E mais alegre!

  
Alegre, formosa centelha divina,

Filha do Elíseo,

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

Tua magia volta a unir

O que o costume rigorosamente dividiu.

Todos os homens se irmanam

Todos os homens se irmanam

Ali onde teu doce vôo se detém.


Quem já conseguiu o maior tesouro

De ser o amigo de um amigo,

Quem já conquistou uma mulher amável

Rejubile-se conosco!

Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,

Uma única em todo o mundo.

Mas aquele que falhou nisso

Mas aquele que falhou nisso

Que fique chorando sozinho!


Alegria bebem todos os seres

No seio da Natureza:

Todos os bons, todos os maus,

Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e

Um amigo leal até a morte;

Deu força para a vida aos mais humildes

Deu força para a vida aos mais humildes

E ao querubim que se ergue diante de Deus!


Alegremente, como seus sóis corram

Através do esplêndido espaço celeste

Se expressem, irmãos, em seus caminhos,

Alegremente como o herói diante da vitória.

  
Alegre, formosa centelha divina,

Filha do Elíseo,

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

Abracem-se milhões!

Enviem este beijo para todo o mundo!

Irmãos, além do céu estrelado

Mora um Pai Amado.

Milhões se deprimem diante Dele?

Mundo, você percebe seu Criador?

Procure-o mais acima do céu estrelado!

Sobre as estrelas onde Ele mora.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

UMA LEITURA TEOLÓGICA DO FUNK DO CABARÉ


O funk de Mc Duzinho tem alcançado considerável sucesso, atestado tanto por aqueles que apreciam este gênero musical, quanto por aqueles que têm de suportar o mesmo - pessoas que geralmente tomam contato com o funk de maneira forçada, através de algum  inconveniente que o escuta no último volume (não quero parecer preconceituoso, mas baseado na observação e na experiência, pergunto: será que existe alguma relação entre gostar de funk e a falta de educação?).

Mas meu questionamento principal em relação aos apreciadores do funk (e, em especial, às mulheres que o apreciam) é: eles param para analisar as letras do que cantam e dançam?

E no caso deste hit do momento, qual a sua mensagem? Estarei fazendo algimas considerações dentro dos próprios versos da canção:

Vem pro Cabaré, vem, vem pro cabaré
Já tá, já tá, já tá cheio de mulher e só tem mulher tarada
(O autor já começa mal, apresentando a falsa ideia-clichê de que as mulheres que vivem da comercialização do corpo - de forma física ou visual - em um cabaré ou local semelhante o fazem por outro motivo que não seja financeiro, a luta pela sobrevivência. É o sonho machista de imaginar que existam mulheres que sintam prazer em serem meros objetos dos homens)
Vem pro cabaré, vem, vem pro cabaré

Então...
Eu vou largar minha casa e vou morar no cabaré
Eu vou largar minha casa e vou morar no cabaré
(nosso autor anuncia por duas vezes a intenção de abandonar seu lar - ou seja, findar um relacionamento que já devia ter assumido proporções bastante sérias. Vejamos quais são suas motivações para ir morar no cabaré...)

Lá eu fico a vontade rodeado de mulher
Lá eu fico a vontade rodeado de mulher
(Aqui está o "x" da questão: viver à vontade. Viver para si mesmo. Este tipo nde mentalidade é avessa à ideia de construir um relacionamento, pois relacionamentos são onerosos: exigem compromissos, altruísmo e responsabilidade. É o oposto de viver "à vontade". É viver tendo em vista o outro.
O que eu acho mais engraçado - e mais hipócrita -  é que toda pessoa que deseja "viver à vontade" acaba exigindo o sacrifício da vontade de outras pessoas para que estas estejam à sua mercê, pois o ideal egoísta de "viver à vontade", sem ter de responder a ninguém que não seja o próprio ego, acaba levando ao processo de considerar todas as outras pessoas como objetos - objeto=não-ser. Por isso o cabaré é tão "bom" - porque proporciona a companhia de gente-não-gente, gente coisificada, gente que abre mão da vontade e das demandas de um relacionamento).
Vem pro cabaré, vem, vem pro cabaré
Vem pro cabaré, vem, vem pro cabaré

Mas é porque eu sou safado e disso ela sabia
Agora me perturba dia e noite, noite e dia
Não me contento com uma, nem com duas, nem com três
Eu tenho que ter uma mulher pra cada dia do mês
(Neste ponto da canção, a única coisa que posso fazer é lamentar, por saber quão mal algumas mulheres escolhem seus companheiros "Mas é porque eu sou safado e disso ela sabia" e o quanto elas persistem no erro: "Agora me perturba dia e noite, noite e dia"
Amiga leitora, permita-me deixar-lhe um conselho: não adianta tente iniciar uma vivência que exige maturidade (a construção de um lar) com alguém que não a possui. Isto é um pré-requisito básico, que carisma, beleza ou dinheiro não podem substituir. Você irá se decepcionar. Escolha melhor. Não desperdice sua vida).

Vem com Mc Duzinho assim ...

Eu vou largar minha casa e vou morar no cabaré
Eu vou largar minha casa e vou morar no cabaré
Lá eu fico a vontade rodiado de mulher
Lá eu fico a vontade rodiado de mulher
Vem pro cabaré, vem, vem pro cabaré

Sendo assim, o que concluo?

Não apoio a dicotomia equivocada comum no meio evangélico entre música secular e música religiosa. Para mim existe música boa e música ruim (com finalidades variadas), simplesmente.

E o "funk do cabaré" é um exemplo de música muito ruim.
Pelo desdém dispensado às mulheres (tanto à do lar como às do cabaré).
Pela glamourização de um estilo de vida narcisista, evocando o mais profundo e pecaminoso egoísmo.
Por ser simplesmente uma ode ao desamor, em resumo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

RENATO RUSSO TINHA RAZÃO - Uma reflexão de Natal

Com esta afirmação, não me refiro a todas as canções que ele escreveu, seja com a Legião Urbana ou em sua carreira solo.

Obviamente, não me refiro também ao estilo de vida que ele levou.

Sequer penso em uma canção completa.

Refiro-me apenas a uma frase, um dos versos de “Há Tempos”.

“Nem os santos têm ao certo a medida da maldade”.

Sempre achei que esta frase era perfeitamente aplicável ao contexto da Igreja.

A princípio, ao acompanhar  o processo de revisão de usos e costumes dentro da denominação a que pertenço (um processo necessário, para o bem da integridade teológica e intelectual da denominação - e qualquer um que já tenha presenciado a esterilidade de uma discussão sobre usos e costumes travada entre evangélicos sabe que não estou exagerando!), relacionei-a ao argumento dos tradicionalistas: parecia que os santos estavam perdendo os paradigmas da maldade, ao abrir mão das regras pré-estabelecidas acerca de santidade.

Todavia, diante da complexidade do problema do pecado enquanto realidade humana, corrompendo tudo aquilo que o homem faz e é, descobri que a frase tinha um poder e uma profundidade ainda maior - posto que verdadeira.

Qualquer um que tenha se quedado atônito diante da própria pecaminosidade sabe do que estou falando.

A pecaminosidade humana é um problema tão profundo (ou melhor, nos torna um problema tão profundo) que não pode ser tratado de maneira banal, como uma simples mensuração - e é esta a estratégia dos fariseus: acreditar que a problemática humana pode ser resolvida através de regras e ritos.

E a história da Igreja atesta que os homens mais piedosos e consagrados a Deus eram sempre os mais sensíveis e cônscios de sua própria pecaminosidade, uma percepção que aumentava na mesma medida em que cresciam na fé.

Neste sentido, os santos nunca conseguirão ter ao certo a medida da maldade - pois sabem estar diante de um inimigo terrível!

Só podem orar como Davi:

“Quem pode entender os próprios erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” (Salmo 19.12).

É somente com a percepção da própria decadência que podemos compreender e apreciar a obra salvadora de Cristo, da manjedoura até a cruz, de maneira apropriada.

Sim, pois em caso contrário, “Salvação” torna-se um termo vazio!

É esta a percepção do Natal feita pelos autojustificados...

Isto é o Natal: para grandes pecadores, fez-se NECESSÁRIO o nascimento de um grande Salvador!

E assim, com gratidão pela provisão que o Natal significa, propiciada pela posse de seu significado, podemos celebrá-lo de forma realmente feliz.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

UM CÂNTICO MAL-EDUCADO

Meu inglês não é fluente – mas ainda assim creio que não seria honesto de minha parte escrever um artigo sobre o famosíssimo hino Sossegai desconsiderando a composição original. Sendo assim, com o intuito de descobrir nuances na poesia de Mary Ann Baker que poderiam ter se perdido na adaptação para o português, atrevi-me a traduzi-lo, mesmo reconhecendo que cometeria inevitáveis tosquices lingüísticas. Mas, por favor, tenha paciência e siga comigo nesta reflexão.

CALM
CALMA

Master, the tempest is raging! The billows are tossing high!
Mestre, a tempestade está furiosa! As ondas estão se agitando às alturas!

The sky is o’er shadowed with blackness, No shelter or help is nigh;
O céu está sombreado com trevas, não há abrigo ou ajuda por perto

Carest Thou not that we perish? How canst Thou lie asleep,
Tu não te preocupas que estamos em perigo? Como podes tu ficar adormecido

When each moment so madly is threatening, A grave in the angry deep?
Quando a cada momento tão loucamente é prenunciado um túmulo nas profundezas furiosas?
 
Chorus
Coro
 
The winds and the waves shall obey My will,
Os ventos e as ondas deverão obedecer Minha vontade

Peace (Peace, be still!), be still (Peace be still!)!
Paz, fique calmo!

Whether the wrath of the storm tossed sea,
Seja a ira da do mar agitado pela tempestade

Or demons, or men, or whatever it be,
Ou demônios, ou homens, ou o que quer que seja,

No water can swallow the ship where lies,
Nenhuma água pode tragar o barco onde jaz

The Master of ocean and earth and skies;
O mestre do oceano, da terra e dos céus,

They all shall sweetly obey My will;
Todos eles deverão docemente obedecer minha vontade

Peace be still! Peace be still!
Paz, fique calmo! Paz, fique calmo!

They all shall sweetly obey My will,
Todos eles deverão docemente obedecer minha vontade

Peace, peace, be still!
Paz, fique calmo! Paz, fique calmo!

2. Master, with anguish of spirit I bow in my grief today;
2. Mestre, com angústia de espírito arqueei-me em meu pesar hoje

The depths of my sad heart are troubled; O waken and save, I pray!
As profundezas de meu triste coração estão perturbadas; oh, acorda e salva, eu oro!

Torrents of sin and of anguish Sweep o’er my sinking soul!
Torrentes de pecado e angústia varrem minha alma desmoronada

And I perish! I perish, dear Master; O hasten, and take control!
E eu pereço! Eu pereço, querido Mestre; oh, se apresse e tome o controle!

3. Master, the terror is over, The elements sweetly rest;
3. Mestre, o terror acabou, os elementos descansam docemente

Earth’s sun in the calm lake is mirrored, And Heaven’s with my breast.
O sol da Terra está espelhado no calmo lago e o do céu no meu peito

Linger, O blessed Redeemer, Leave me alone no more;
Demore, Ó abençoado Redentor, não me deixe mais só

And with joy I shall make the blest harbor, And rest on the blissful shore
E com alegria eu farei o bendito porto e descansarei na bem-aventurada costa

 
Mary Ann-Baker (1831-1881) passou pela dor de perder seus pais em tenra idade e seu piedoso irmão, um referencial para ela na fé, ainda na adolescência.

"Sossegai" é o registro da experiência de superação de sua dor.

"Embora nosso choro não fosse 'como outros que não têm esperança' e embora tivesse crido em Cristo desde menina e desejasse sempre viver uma vida consagrada e obediente, tornei-me terrivelmente rebelde a esse desígnio da divina providência. Disse no meu coração que Deus não me amava, nem aos meus. Mas a própria voz do meu Mestre veio acalmar a tempestade no meu coração rebelde e me trouxe a calma de uma fé mais profunda e uma confiança mais perfeita."
 
Tendo escrito a letra para uma aula da Escola Bíblica Dominical sobre a passagem bíblica em que Cristo apazigua a Tempestade (“Esta lição expressou tão vividamente a minha experiência, que este hino foi o resultado”), a autora surpreendeu-se com o sucesso que o hino alcançou, obtendo várias traduções e sendo amado por imensa parte da cristandade.

"Me surpreende muito que este humilde hino tenha atravessado os mares e tenha sido cantado em terras bem distantes para a honra do nome do meu Salvador", afirmou Mary Ann.
 
Como explicar tamanho sucesso, principalmente à luz de versos como “Não se te dá que morramos” (pior no inglês origial, “Carest Thou not that we perish?”, ou seja, “Tu não te preocupas que estamos em perigo?”)?

A razão que explica o sucesso de Sossegai é a mesma razão que explica o sucesso dos Salmos.
 
São textos que relatam a experiência profunda de expor sem reservas ao Senhor o conteúdo do coração – não importa qual seja ele.
 
Expõe-se ao Senhor o conteúdo do coração porque só Ele é capaz de consertá-lo.

Enquanto o cerimonialismo religioso busca se especializar em desenvolver as técnicas rituais adequadas para aproximar o homem convenientemente (e artificialmente) de Deus, Sossegai segue na direção oposta.
 
Isto faz com que os Salmos e cânticos como Sossegai sejam imbatíveis enquanto literatura devocional: eles expressam o profundo anseio humano por Alguém que os ouça e, em triunfo, descobrem que Deus os aceita.
 
A falta de etiqueta de um coração contrito é resultado da não-domesticação do mesmo pelo cerimonialismo religioso.

E enquanto o evangelicalismo contemporâneo tenta negar a realidade da experiência do sofrimento humano e apresentando o retrato de um falso Deus que se interessa pelo dinheiro e cabriolas dos fiéis, a subversão devocional revelada nos Salmos e em Sossegai será necessária, para a salutar adoração e para resguardar a dignidade de Deus, apresentando-O como o pai amoroso que é.

domingo, 25 de julho de 2010

O CALVINISMO DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA

ATÉ O FIM

Quando nasci veio um anjo safado
O chato de um querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

"Inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
 
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
 
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
 
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
 
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Em 1978, na canção "Até o fim", Chico Buarque de Holanda apresentou, de forma bem humorada, as desventuras de alguém que nunca "deu certo" na vida.

É bastante interessante que, em plena ditadura militar, o autor tenha declarado que um dos motivos pelos quais o personagem não dava certo era por não ser "ladrão" (uma mensagem ainda atual em nosso país de corruptos que "dão certo" impunemente), "bom de bola" (garantia certa de bom salário, em uma sociedade que exalta os profissiionais do entretenimento e paga salários miseráveis a seus principais profissionais), nem aguentar "ouvir clarim" - ou seja, não apoiava a ditadura militar nem dela sabia tirar vantagem.
Todavia, esta música merece atenção pelo viés teológico que Chico Buarque conferiu à narrativa: no fundo, tudo não dava certo porque "um anjo safado, um chato de um querubim", havia determinado que seria assim.

Em resumo, "Até o fim" apresenta o conflito do homem vendo-se como vítima do elemento religioso.

(É discutível se, ao descrever o tal "anjo safado" como o "chato de um querubim", Chico estivesse pensando em Satanás, descrito na Bíblia como um querubim caído: se assim fosse, o autor estaria creditando as mazelas humanas à oposição demoníaca. Todavia, esta parece ser uma alternativa improvável, não pela falta de cultura do autor, que poderia muito bem conhecer esta informação, mas pela suspeita com que o elemento religioso era visto nos anos 60 e 70, especialmente pelas esquerdas mais influenciadas pelo ateísmo do comunismo russo e cubano.)

A mesma temática de "Até o Fim" apareceu, de forma mais ousada, em "Rio 42", também do mesmo autor. Ou seja, 1) somos o que somos porque Deus os anjos assim o quiseram, 2) nossa realidade indica que eles não fizeram o serviço bem feito, 3) logo, Deus, na melhor das hipóteses, está sob suspeita, 4) e a fé não parece ser uma virtude sensata.
Lamento ver um artista tão talentoso nutrir tais sentimentos diante de Seu Criador. O retrato bíblico de Deus  (que certamente mudaria os conceitos de Chico Buarque) o apresenta como o soberano da História, mas não uma criatura caprichosa e mesquinha: ao contrário, o Soberano que rege o Universo o faz com ética, justiça e amor.

Há um ponto positivo, porém, que desejo destacar em "Até o Fim": mesmo apresentando um personagem que é "vítima" dos desígnios divinos e entra em conflito com a realidade religiosa, a canção apresenta a rejeição do fatalismo: mesmo com tudo contra, seu personagem vai "Até o Fim", e não entrega os pontos jamais.

Muitos cristãos, sabendo do domínio soberano de Deus e de Seu cuidado como Universo e com a História, desenvolvem uma visão fatalista da vida, e usam estas verdades como uma espécie de isenção à  ação, desculpando assim sua omisão ("minha vida está assim porque Deus quer"): cristãos assim esquecem que Deus cumpre seus propósitos na Terra através de nossas ações responsáveis.

Como Joabe bem sintetizou a questão: "Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe parecer". (2.º Samuel 10.12)

Nós também, como agentes de Deus, temos o dever de sermos agentes de transformação da realidade (em nós e ao nosso redor), e o conhecimento da soberania de Deus, longe de nos desanimar nesta tarefa, confere a certeza que ele abençoará nossos esforços.

Desculpas "piedosas" (que consistem em uma tentativa errônea de compreender e se sujeitar à vontade de Deus) ou "teológicas" (um falso calvinismo) para a apatia e a indolência não são competíveis nem com a Bíblia nem com o Deus da Bíblia.

Como o personagem de Chico Buarque, também devemos ir até o fim - com a diferença que sabemos "pronde" que vamos.

domingo, 31 de janeiro de 2010

DIZENDO NÃO AO ESCAPISMO - UMA LEITURA TEOLÓGICA DE "CASA NO CAMPO"


















Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais

E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa ficar no tamanho da paz

E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

“Casa no campo”, composta por Zé Rodrix e Tavito, tendo sua mais marcante interpretação na voz de Elis Regina, é considerada uma das mais idílicas canções da música popular brasileira.

Agora mesmo acabo de ler um comentário de um fã entusiasmado sobre o “sonho de vida” que a canção propõe.


Realmente, as imagens que a música apresenta são encantadoras e convidativas: viver em um ambiente tranqüilo, longe de agitação, aproveitando os prazeres simples e essenciais da vida.


Quem não teve vontade de viver algo parecido?


Há, porém, um elemento na música que me chama muito a atenção e considero necessário submeter à crítica: o fato de que o refúgio tranqüilo de “Casa no Campo” é concebido como o abandono da metafísica (a investigação das questões subjacentes à realidade visível).

Veja bem:

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

A visão de “paz” que a música apresenta requer o abandono de quaisquer tentativas de responder às questões últimas da vida, conformando-se com a realidade visível. Um estilo de vida escapista e materialista.

Nesta concepção, Deus e a fé ficam de fora da “Casa no Campo”.

Por quê?

Pensar naquilo que está além da superfície é penoso?

A fé implica em sofrimento?

De certa maneira, sim.


Escrevendo este post, lembro-me das palavras de James Montgomery Boyce, de que ser cristão implica em sofrimentos, naturalmente decorrentes de uma vida de renúncia ao egocentrismo, viver valores culturalmente não aceitos e dos conflitos espirituais inerentes a esta dinâmica.

Vendo por este ângulo, a proposta da “Casa no Campo” torna-se convidativa. Perigosamente convidativa.


Para nós, que temos naturalmente a tendência a relegarmos Deus a segundo plano e vivermos uma vida “tranqüila”, centralizando-a em nossas convicções e interesses, o abandono da metafísica parece ser uma excelente idéia!

Paulo mesmo chegou a imaginar como seria a vida em tais termos: “comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1.ª aos Coríntios 15.32).

Todavia, pensar assim causa um estranho desconforto. A sensação de que algo está errado, o que leva a romper com a vida proposta na “Casa no Campo”.

O que seria?


O fato de que não podemos deixar de conta o aspecto transcendental no qual nossa existência está inserida. Fazer isto significaria abrir mão de um significativo aspecto de nossa humanidade.

A existência humana não cabe em um reducionismo materialista.


Deus é grande demais para que deixemos de considerá-Lo e Ele está diante de nós, apresentando-se como parte de nossa realidade, reivindicando o exercício de Seu Senhorio sobre nossas vidas e de Sua redenção sobre nossas histórias.

Como o apóstolo disse, concluindo seu argumento sobre o que o levava a viver como cristão, aceitando todos os sofrimentos que sua carreira de pregador acarretava: "Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem." (1.ª aos Coríntios 15.20)

Sendo assim...

Posso até querer uma casa no campo (mas não muito longe da cidade, por favor!).

Um lugar para meus amigos.

Meus discos e livros.

E também para o meu Deus. Ele é indispensável.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

UMA REFLEXÃO DESCONTRAÍDA


Durante uma conversa descontraída com minhas amigas no trabalho, uma delas relatou um comentário de seu pastor contra a música secular:

Pensem no sucesso do momento: casais, vocês são capazes de olhar nos olhos de seu cônjuge e dizer "você não vale nada, mas eu gosto de você?" No mundão não há nada que preste!

Minha amiga relatou a anuência do auditório à fala do pastor. Então indaguei:

Mas esta não é uma maneira adequada de descrever o próprio amor de Deus? Afinal, não valemos nada... e Ele gosta da gente!

(Será que o profeta Oséias também não sentiria-se muito à vontade para cantar o tema de Norminha para Gômer, sua esposa infiel?)

Por favor, me entenda:


Longe de mim fazer apologia indiscriminada a todo tipo de música.

Não engulo muitos dos "grandes" hits do momento.

Os versos restantes da música citada apresentam idéias nem um pouco edificantes, incompatíveis com o amor cristão (Eu quero ver você sofrer/Só pra deixar de ser ruim/Eu vou fazer você chorar, se humilhar/Ficar correndo atrás de mim...).

Mas a questão é: o correto exercício do senso crítico exige olhos que saibam discernir também aquilo que é positivo, sem penderem automaticamente para a depreciação imediata.

Acredite: se nos dedicarmos a apontar defeitos, nos tornaremos experts nisso!

Mas a vida não é feita só de defeitos.

Ignorar isto implicará em deixar de apreciar muitas pérolas que a vida traz, apenas por desdenhar do aspecto da ostra que as envolve.

(PS: E, tratando-se do amor de Deus, o melhor é saber que, diferentemente dos "Solteirões do Forró", que amam e não sabem por que, Ele ama e
não tem crise de identidade por causa disso.)

domingo, 5 de julho de 2009

SÚPLICA CEARENSE



Oh! Deus, perdoe este pobre coitado


Que de joelhos rezou um bocado


Pedindo pra chuva cair sem parar





Oh! Deus, será que o Senhor se zangou


E só por isso o sol se arretirou


Fazendo cair toda chuva que há





Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho


Pedi pra chover, mas chover de mansinho


Pra ver se nascia uma planta no chão





Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,


Eu acho que a culpa foi


Desse pobre que nem sabe fazer oração





Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água


E ter-lhe pedido cheinho de mágoa


Pro sol inclemente se arretirar





Desculpe eu pedi a toda hora pra chegar o inverno


Desculpe eu pedir para acabar com o inferno


Que sempre queimou o meu Ceará

Esta canção, composta por “Gordurinha“ e Nelinho e interpretada por Luiz Gonzaga aborda o drama do nordestino flagelado pela seca. Mais que isso, porém, a música apresenta diversos conceitos sobre Deus (especialmente no que diz respeito á relação entre Deus e o sofrimento) que merecem nossa análise:

1. Deus é apresentado como um ser distante e que não se relaciona com os fatos desta vida, sendo para ele um incômodo ter de fazê-lo (por isso o autor diversas pede perdão por fazer-lhe uma petição) - ou, quando o faz, sempre age de maneira punitiva (Oh! Deus, será que o Senhor se zangou/E só por isso o sol se arretirou).

2. Não existe qualquer elemento de pessoalidade ou intimidade na maneira de buscar a Deus. O autor sequer manifesta a esperança de que seja atendido. A Súplica Cearense mais parece um pedido de aumento de salário a um patrão egoísta do que a apresentação de uma necessidade a um pai amoroso.

3. A causa da súplica não-atendida é sempre devido à inadequação do homem às exigências caprichosas de Deus, por não saber buscá-lo com a devida cerimônia ou por não dispor dos conhecimentos necessários para fazer da religiosidade um meio de extorsão para relacionar-se com Deus (Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe/Eu acho que a culpa foi/Desse pobre que nem sabe fazer oração).

O sofrimento histórico do povo nordestino com a seca não deve ser subestimado nem minimizado.

É mais difícil, porém, superar o sofrimento quando temos um conceito errado sobre Deus. Aliás, isto de torna um sofrimento adicional – pois somente a verdade sobre Deus possui caráter libertador.

A Bíblia apresenta um Deus amoroso, misericordioso e compassivo, que se interessa pelos dramas da humanidade. Um Deus que acolhe as súplicas de quem O busca, a ponto de o autor aos Hebreus exortar: Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno (Hebreus 4.16).

Um Deus realista, que reconhece que este mundo não corresponde ao ideal de Sua mente, mas que em Cristo Jesus, já está operando a construção de um mundo novo: esta presente realidade (com todas suas mazelas, que sempre vale a pena lembrar, não fizeram parte da intenção original de Deus, mas são conseqüências da queda da espécie humana) não é a palavra final de Deus à História. E o caráter transitório desta era, dado como certo diante da promessa trazida pelo Evangelho, de novos céus e nova terra, é Sua resposta a todo aquele que “geme” diante das agruras da atual realidade (Romanos 8.19-23), constituindo-se em um convite à marcha, à peregrinação corajosa, dentro desta história, rumo ao futuro prometido por Deus.
Qualquer bênção ou livramento experimentados nesta realidade não são comparáveis à futura consumação plena da promessa de restauração de Deus, nem podem ser a base de nossa fé.
A promessa e revelação de Deus em Cristo é a resposta à Súplica Cearense.
O filósofo judeu Emmanuel Lévinas (1906-1995) perguntava-se, após os horrores da 2.ª Guerra Mundial: como falar de Deus depois do horror de Auschwitz?
O teólogo alemão Jürgen Moltmann (1926) apresenta um outro ponto de vista totalmente diferente: como não falar de Deus após Auschwitz?