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terça-feira, 19 de junho de 2012

O HOMEM QUE MAIS PREJUDICOU O CRISTIANISMO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE


Esqueça Darwin com a Teoria da Evolução, ou mesmo Nietszche, que alardeou pelos quatro cantos a bravata de que Deus estava morto, ou mesmo ainda um dos neo-ateus da atualidade, como Richard Dawkins.

Não.

O maior prejuízo à fé cristã não veio da boca ou da pena destes homens – sendo que ”prejuízo”, na concepção deste artigo, não se refere à perseguição, que tem produzido mártires ao longo dos séculos, ou mesmo à oposição intelectual, à qual apologetas da Igreja não se furtaram a questionar, antes se refere ao êxito na:

  1. popularização de uma cosmovisão com tal índice de sucesso que tal maneira de pensar conseguiu se incorporar à consciência coletiva e;
  2. sendo tal cosmovisão tão  radicalmente oposta ao cristianismo, conseguiu criar um grande entrave para a compreensão do mesmo pela sociedade.  

Estou falando de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e seu conceito sobre a bondade humana inata.



Emilio, ou Da Educação, a principal obra do filósofo francês, tem como tema principal é a forma ideal de educar as crianças (curiosamente, Rousseau abandonou seus próprios filhos no orfanato).

No livro, ele defende a famosa tese de que o homem é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe.

De imediato, esta famosa tese apresenta um grave problema de lógica: como homens que são, em tese, bons, poderiam gerar uma sociedade má? O filósofo dá a impressão de que a sociedade não é composta por homens. Se a sociedade é formada pela soma de homens que são naturalmente bons, de onde surgiu o elemento corruptor que impediu que a soma de homens bons produzissem uma sociedade boa? O raciocínio de Rousseau neste ponto se assemelha muito ao de Sartre, que afirmava que “o inferno são os outros”.

Mesmo sendo logicamente inconsistente, a tese de Rousseau ganhou enorme aceitação popular, ainda que negasse uma importante doutrina cristã: o estado caído da humanidade, que faz com que o homem seja mau – ou seja, pecador – por natureza.

É a partir da constatação da queda humana que o cristianismo apresenta a boa nova de que Deus provê salvação ao homem – homem que, como conseqüência de seus pecados, encontra-se alienado de Deus, do próximo (daí vem a iniquidade na sociedade) e de si mesmo.

A sustentação da doutrina da depravação humana não é uma insistência mórbida de teólogos cristãos (até mesmo porque esta é a mais empírica de todas as doutrinas cristãs), mas porque não faz sentido falar de salvação a quem não precisa ser salvo!

Se o homem é bom, de forma inata:

  1. Ele não precisa de um Deus que o salve – basta apenas desenvolver sua bondade natural (autosoterismo);
  2. Já que ele é bom, passa a ter mérito diante de Deus – o homem “merece” o céu, “merece” que Deus o abençoe;
  3. Ele deixa de ter responsabilidade pelo que faz e pelo que é, já que outros o tornaram corrupto;
  4. O homem passa a ser realmente a medida de todas as coisas (de onde você acha que vêm o famoso conceito “siga seu coração”?) – é estabelecido, então, o antropocentrismo, em seu mais alto grau.

A conseqüência direta da popularização desta tese de Rousseau foi o esvaziamento de sentido da mensagem do Evangelho, através da formação de uma nova forma do homem olhar a si mesmo e não se ver mais como pecador.

A crítica feita à teologia liberal do século XVIII (que, de forma semelhante a outras linhas de pensamento desenvolvidas desde então é essencialmente antropológica, tendo reinterpretado o Evangelho negando a radical necessidade do ser humano ser salvo de sua própria pecaminosidade), resume bem a como homem moderno e pós-moderno concebe o Evangelho, após fazer a releitura de si mesmo nos moldes de Rousseau: “Um Deus sem ira enviou um Jesus falível para morrer desnecessariamente na cruz por uma humanidade sem pecado”.

Este é, então, um dos maiores entraves à compreensão do Evangelho atualmente: Rousseau ajudou (de forma consciente ou não) a humanidade acreditar que não precisa dele.

O homem contemporâneo pode até aceitar um Jesus Mestre, um Jesus Modelo de Vida, um Jesus abençoador - não crê que precisa de um Jesus Salvador, pois não consegue compreender que precisa ser salvo.

Hiroshima. Auschwitz. Vietnã. Serra Leoa. Todas as pequenas mazelas do cotidiano, individuais e coletivas... a história não dá sustentação à tese de Rousseu.

O ser humano é mau. E consegue produzir uma sociedade igualmente ruim.
 
É triste. E também irônico que o maior prejuízo causado ao cristianismo em sua história não tenha vindo a partir de uma negação de Deus.

Foi simplesmente uma mentira a respeito da natureza humana.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PENSE NISTO – UMA PALAVRA DE FRIEDRICH SCHILLER (e musicada por Ludwig van Beethoven!)



ODE À ALEGRIA


Oh amigos, mudemos de tom!

Entoemos algo mais prazeroso
 

E mais alegre!

  
Alegre, formosa centelha divina,

Filha do Elíseo,

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

Tua magia volta a unir

O que o costume rigorosamente dividiu.

Todos os homens se irmanam

Todos os homens se irmanam

Ali onde teu doce vôo se detém.


Quem já conseguiu o maior tesouro

De ser o amigo de um amigo,

Quem já conquistou uma mulher amável

Rejubile-se conosco!

Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,

Uma única em todo o mundo.

Mas aquele que falhou nisso

Mas aquele que falhou nisso

Que fique chorando sozinho!


Alegria bebem todos os seres

No seio da Natureza:

Todos os bons, todos os maus,

Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e

Um amigo leal até a morte;

Deu força para a vida aos mais humildes

Deu força para a vida aos mais humildes

E ao querubim que se ergue diante de Deus!


Alegremente, como seus sóis corram

Através do esplêndido espaço celeste

Se expressem, irmãos, em seus caminhos,

Alegremente como o herói diante da vitória.

  
Alegre, formosa centelha divina,

Filha do Elíseo,

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

Abracem-se milhões!

Enviem este beijo para todo o mundo!

Irmãos, além do céu estrelado

Mora um Pai Amado.

Milhões se deprimem diante Dele?

Mundo, você percebe seu Criador?

Procure-o mais acima do céu estrelado!

Sobre as estrelas onde Ele mora.

terça-feira, 6 de março de 2012

PENSE NISTO: UMA PALAVRA DE DIETRICH BONHOEFFER

O MUNDO DOS CONFLITOS 

"A originária semelhança com Deus se converteu em igualdade roubada. Enquanto o ser humano como imagem de Deus vive exclusivamente de sua origem em Deus, o ser humano que se tornou igual a Deus esqueceu sua origem e se transformou em seu próprio criador  e juiz. O que Deus deu ao ser humano este quis ser agora por si mesmo. Dádiva de Deus, porém, é essencialmente, dádiva de Deus. A origem constitui a dádiva. Com a origem a dádiva de transforma. Na verdade, a dádiva consiste em sua origem. O ser humano como imagem de Deus vive da origem divina; o ser humano que se tornou igual a Deus vive de origem própria. Com o roubo da origem, o ser humano incorporou um mistério divino - a Sagrada Escritura descreve este processo como o comer da fruta proibida - no qual ele perece. Sabe, agora, o que é bom e o que é mau. Não que tivesse enriquecido, com isso, o conhecimento que tinha até então com um novo saber; antes a noção do bem e do mal resulta numa inversão total do seu conhecimento, que até então era unicamente um conhecimento de Deus como sua origem. Sabendo do bem e do mal, sabe o que somente a origem, Deus, pode e deve saber. É só com extrema reserva que a própria Bíblia nos indica que Deus é conhecedor do bem e do mal. É a primeira referência à predestinação, ao mistério de uma eterna desunião que tem sua origem no eternamente Uno, ao mistério de uma eterna escolha e eleição por aquele em quem não há escuridão, mas somente luz. Saber do bem e do mal significa compreender a si mesmo como origem do bem e do mal, como fonte de uma eterna escolha e eleição. Como isto é possível continua sendo o mistério daquele em quem não há dicotomia, porque ele mesmo é a única e eterna origem e superação de toda dicotomia. O ser humano roubou de Deus este mistério, ao pretender ser ele mesmo origem. Em vez de conhecer apenas o bondoso Deus e tudo nele, entende agora a si mesmo como fonte do bem e do mal; em vez de aceitar a escolha e eleição divinas, deseja escolher mesmo, ser a origem da escolha; assim, de certa forma, traz o mistério da predestinação em si mesmo. Em vez de saber de si tão-somente na realidade de ser eleito e amado por Deus, tem que entender-se na possibilidade de escolher, de ser a origem do bem e do mal. Tornou-se como Deus, mas contra Deus. Eis o embuste da serpente. O ser humano sabe o que é bom e o que é mau; mas, como ele não é a origem, como adquire este saber unicamente na separação da origem, o bem e o mal que conhece não são o bem e mal de Deus, mas o bem e mal contra Deus. É bem e mal de escolha própria, contra a eterna eleição divina. O ser humano tornou-se igual a Deus como antideus.

Isto se manifesta no fato de o ser humano ciente do bem e do mal ter-se desvinculado definitivamente da vida, da vida eterna tal como emana na eleição de Deus. 'Assim, para que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente!... e ele o expulsou e colocou os querubins diante do jardim do Éden com a espada desnuda que golpeava, para quardar o caminho da árvore da vida'. (Gênesis 3.22,24) O ser humano que sabe do bem e do mal contra Deus, contra sua origem, sem Deus por escolha própria, que se entende em suas possibilidades discordes, está separado da vida unificadora e conciliadora em Deus, está entregue à morte. O mistério que roubou de Deus o faz perecer".

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MEU LAMENTO POR SANDY

Por duas vezes a filha de Xororó chamou atenção da mídia e da sociedade neste ano de 2011.

A primeira foi quando aceitou ser a garota-propaganda de uma cerveja, cujo nome fantasia faria um trocadilho de péssimo gosto (e intencional) com a figura da cantora.


A segunda vez, foram as “bombásticas” declarações que ela deu à imprensa sobre sexualidade.


Tal comoção é explicada porque Sandy sempre foi vista como referencial de boa-moça.

Para mim (e isto é uma interpretação particular), as recentes atitudes da Sandy soam como um esforço intencional e consciente para desconstruir a imagem de “boa moça” como era conhecida.


Em parte eu considero compreensível o que está acontecendo, pois ser referencial de “boa moça”, não raro, significa ser referencial de um estereótipo (no caso, um ser apático, sem iniciativa e assexuado). Não é agradável viver para satisfazer às expectativas do público, que , não raro, é cruel em suas cobranças e demandas e invasivo no relacionamenhto com o indivíduo (uma preocupação à qual o próprio Xororó já havia se referido: http://www.terra.com.br/istoegente/48/entrevista/index.htm).

Meu lamento é que, em tal esforço, Sandy não tenha percebido que ela esteja abdicando de algo bom e valioso em si mesmo: ser referencial de “boa moça” (a despeito das cobranças sociais injustas), sempre significou respeitabilidade, credibilidade e bom-senso.

Eu lamento porque não creio que ser "boa moça" seja um motivo de vergonha, mas de alegria e satisfação pessoal.

Meu desejo e oração é para que, na luta por preservar sua individualidade, Sandy não acabe desvirtuando sua identidade, pois diz a Bíblia Sagrada que “Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento” (Eclesiastes 7.1) – e parece que é a este precioso tesouro que ela parece estar disposta a abdicar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O PIOR TIPO DE PRISÃO

Assisti Cidade dos Homens no domingo. Uma tristeza.

Tristeza causada não apenas pelos dramas sociais que o filme relata (drogas, crime, desintegração familiar), mas principalmente pelo horizonte conceitual dos personagens.

Nenhum deles apresenta grandes perspectivas em relação ao futuro (com exceção talvez dos protagonistas).

Nascer, obter algum prazer (com o funk, as drogas ou o sexo), algum dinheiro e por fim sucumbir diante de alguma das diversas ameaças presentes em seu cotidiano.

É a incorporação do fatalismo e sua institucionalização individualmente.

Mano Brown deu uma noção do que significa crescer sob um horizonte de limitações em "O homem na estrada":

"Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim.
Muitos morreram sim, sonhando alto assim, me digam quem é feliz,
quem não se desespera,
vendo nascer seu filho no berço da miséria.
Um lugar onde só tinham como atração, o bar, e o candomblé pra se tomar a benção.
Esta é a história que por mim será contada
O homem na estrada"

Não desconsidero as relevantes contribuições das ciências sociais, que tornaram explícita a importância e a força das dinâmicas histórico/políticas sobre o indivíduo, evitando assim o erro do individualismo meritocrático promovido por um liberalismo ingênuo.

Mas me revolto com a ideia de que passamos de meros produtos do meio!

Podemos transcender as estruturas circunstanciais que nos cercam. Podemos contribuir para sua reformulação.

É nosso dever moral assim fazê-lo, como uma etapa necessária para nossa realização humana, no sentido de promover nosso potencial integral, individual e comunitariamente.

Assim fizeram todos os reformadores do passado, motivados pela visão de como as coisas poderiam ser.
Por isso afirmo que o pior tipo de prisão é a da mente.

Só consegue compreender a vida como uma batalha de superação quem possui um horizonte conceitual mais amplo.

Portanto, em nome de Jesus, liberte sua mente e resgate sua vida!

Pois Jesus Cristo é sinônimo de possibilidades.

sábado, 2 de abril de 2011

PENSE NISSO: UMA PALAVRA DE BERTOLD BRECHT

DE QUE SERVE A BONDADE  
1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?


2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.

quarta-feira, 30 de março de 2011

QUANDO A EVANGELIZAÇÃO DE TORNA DESANIMADORA

Qualquer cristão que já tentou compartilhar sua fé através da pregação do Evangelho já passou por situações difíceis e inusitadas, podendo relatar diversas experiências.
 
Sim, pois dada a dureza natural do coração humano, a evangelização é um ministério extremamente árduo, que somente consegue obter êxito pelo poder do Espírito Santo, que torna as pessoas receptíveis à mensagem do Evangelho.

Hoje em dia, porém, o ministério de Evangelismo pessoal se depara com uma nova realidade: graças ao acesso à mídia e ao crescimento do evangelicalismo no Brasil, raramente anunciamos a fé a pessoas que não disponham de informações prévias sobre o cristianismo.

O único problema é quando estas informações não ajudam a pessoa a formar um conceito sadio sobre o Evangelho e a natureza da Igreja (muitas vezes porque as próprias informações originais não apresentam um conceito sadio sobre o Evangelho e a natureza da Igreja), levando-as, antes, a formarem preconceitos.

Sendo assim, o trabalho de Evangelismo pessoal consiste em grande medida, de plantar a semente do Evangelho, arrancando as ervas daninhas oriundas do falso evangelho.

É evangelizar desevangelizando!

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que queremos o dinheiro dela, pois esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé.

Também se faz necessário explicar, como adendo, que o relacionamento com Deus não é mediado através do dinheiro, esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé, mas através de Jesus Cristo.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que pastores vivem uma vida cheia de regalias, pois esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé, falando-lhes a verdade de que os pastores brasileiros, em sua maioria, são pessoas íntegras que servem a Deus e à Igreja por amor, com enorme desprendimento e sacrifício pessoais e muito pouco reconhecimento.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que a Igreja é uma elite, um grupo de pessoas que se aacha superior às demais, pois esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé, visto que a Igreja é uma comunhão de pessoas humilhadas, que reconhecem sua fragilidade diante de Deus e dos homens, percorrendo assim, com lágrimas e esperança, o caminho do aprimoramento no discipulado cristão.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que nossas diferenças com outras confissões religiosas seja meramente uma questão de implicância pessoal, esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé porque desconsidera a seriedade das questões teológicas, do fato de que Deus deixou testemunho de Si mesmo em sua palavra, não nos deixando num vácuo religioso relativista.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de ser cristão é uma questão de estética, resumindo-se a saias, cortes de cabelos e afins: esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé, minimizando a profundidade da experiência espiritual cristã, reduzindo-a ao nível de regras humanas.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que simplesmente as estamos chamando para ir à igreja, pois esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé ao apresentar o ritualismo como substituto da comunhão com o Deus vivo, que se dá em 7 dias da semana e 24 horas por dia.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que a Bíblia é machista: não, a verdade é que existem cristãos machistas.

Hoje em dia, se faz necessário, ao apresentar o Evangelho, tirar da cabeça das pessoas a ideia de que o Evangelho é alienação e a Igreja um local de lavagem cerebral, esta é uma ideia errônea, que se constitui em um obstáculo à fé apresentada na Bíblia como emancipadora, formadora de indivíduos conscientes e críticos.

A lista ainda poderia se estender muito... mas o que desanima não é o fato de realizar uma abordagem dupla no evangelismo contemporâneo (“evangelizar desevangelizando”), afinal, o exercício da apologética faz parte da evangelização.

O que desanima é a quantidade absurda de vezes que isso se tem feito necessário!

Sinal que hoje em dia as pessoas não tem recebido informações prévias sobre o Evangelho corretas (via rádio, TV, contato com outros cristãos), e/ou têm se abstido de refletir com mais profundidade para construir conceitos coerentes sobre o assunto mais importante da existência humana: o relacionamento com Deus.

domingo, 20 de março de 2011

A TOLICE DE GLAMOURIZAR O MAL


A suavidade do bem não soa tão atrativa quanto a agressividade do mal para resolver os problemas da vida cotidiana.

O bem perdoa, o mal detona.

Sendo assim, assumir uma postura de "cara mau" acaba significando adotar o não-conformismo como estilo de vida: uma postura aguerrida, de alguém que sabe se impor e sabe que precisa se impor.

É a postura de alguém que decidiu que não será tragado pelo sistema, por seus inimigos ou pelas circunstâncias adversas.

É a escolha correta e necessária, ainda que selvagem na luta pela sobrevivência, onde só vence o mais forte. A atitude de quem entende que o mundo é uma selva.

O mal se torna força e poder. Impõe respeito.

Faz sucesso com as mulheres.

Até o rei do pop sentiu a necessidade de cantar que era mau - e os que repetem o refrão "I’m bad" assim o fazem por achar que esta é a resposta que o mundo precisa ouvir para que os respeite.

Como vivemos em um mundo em que estilo de vida é um produto vendável, é claro que a mídia e o mercado vão explorar o elogio à maldade.

Artistas “de atitude” se tornarão novos ícones (e novos garotos-propaganda) para esta sociedade onde ser "bad" é chique!

A cultura de glamourização do mal não sobrevive, contudo, a testes mais rigorosos – a começar por seus pretensos adeptos, cheios de “ousadia” e “atitude”, mas que de nenhuma maneira são coerentes.

Por que digo que não são coerentes?

Porque ninguém que glamouriza o mal o faz até as últimas consequências, ou seja, de forma lógica.

Nenhum “sujeito de atitude” deseja ver uma sociedade onde impere o caos e a violência.

Nenhum “cara que põe a banca” propõe a institucionalização do estupro, da tortura e do infanticídio.

Nenhum “cara animal” sonha com um mundo em que a civilidade seja extinta.

Isto seria a consequência lógica da cultura de glamourização do mal levada às suas consequências coerentes.

Mas porque não é assim?

Porque nenhum “bad boy” deixa de ter entes queridos, nem vive sem o desejo de amar e ser amado.

Isto é sinal de que estas pessoas não querem o mal de verdade. Estão carentes de outra coisa. Algo que elas nem mesmo conseguem nomear.

E aí chegamos ao segundo ponto de nossa crítica: a postura “bad”, na verdade, nada mais é que um apelo disfarçado por autenticidade (diante de um sistema que massifica), coragem (diante de uma realidade que precisa ser transformada) e justiça (diante de um mundo que não respeita direitos).

Todavia, nada disto é “bad”! 

É precisamente no Evangelho de Jesus Cristo (que para muitos é sinônimo de uma cultura de inautenticidade, repressão e injustiça que precisa ser superada), que tais virtudes são anunciadas, ensinadas, promovidas e encorajadas de forma mais cabal, através do caminhar em amor do discipulado cristão.

Nada disto é “bad”. Talvez nem imponha respeito ou traga popularidade.

Mas é o projeto de vida genuíno proposto por um Deus que não aceita, como forma de luta contra a inautenticidade e a injustiça, glamourizar outra forma de inautenticidade e injustiça.

domingo, 30 de janeiro de 2011

PENSE NISTO: UMA PALAVRA DE DIANA E MARIO CORSO

"Em relação ao futuro, o horizonte do presente sempre se mostra estreito, pois o futuro é potencial irrestrito, nele cabem todos os sonhos. Viver uma vida é ir vendo reduzir-se o prazo do futuro que nos é reservado, cada década transcorrida é surrupiada de um tempo no qual não estaremos mais aqui para aproveitar e testemunhar. Já o passado, pode muito bem ir sendo re-interpretado, as memórias podem ir se alinhando de forma diferente conforme a narrativa que se faz delas, isso é uma das tarefas centrais de uma análise. A única ressalva para essa liberdade de reescrever a própria história está em que os fatos em si, como doenças, suicídios, acidentes, abandonos, separações, falências, nascimentos, não podem ser suprimidos. Podemos silenciar, tentar esquecer, ignorar, mas eles continuarão existindo e produzindo efeitos. Se bem o futuro se encolhe com o tempo, o passado cresco proporcionalmente. O tempo, portanto, é a dimensão aonde vamos nos deparar com nossos maiores medos, esperanças e, especialmente, com nossa limitação".

Diana Lichtensein Corso e Mario Corso são psicanalistas, autores de Fadas no divã e A psicanálise na Terra do Nunca.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

"POR ESTAS COISAS VEM A IRA DE DEUS..." Pô, mas logo por ESTAS coisas!?

“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas” (Colossenses 3.5-7, NVI).

A epístola à igreja em Colossos é um texto apologético, visando prevenir aquela comunidade quanto ao risco de abrir mão de sua suficiência em Cristo seduzida pelo apelo do racionalismo, de um misticismo falso e/ou do legalismo.

O capítulo 3 expõe qual é o aspecto prático desta suficiência em Cristo enquanto expressão de vida de fé – e introduz este assunto com uma recordação acerca do estilo de vida pregresso daquela comunidade, a fim de contrastá-lo com o caminhar em Cristo.

Imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância – assim viviam aquelas pessoas e Paulo foi enfático em afirmar que isto desperta a ira de Deus.

Fico pensando em como nossa sociedade reagiria a esta afirmação, que condena especificamente os comportamentos mais valorizados em nossa cultura; em suma, tudo o que o brasileiro acha mais divertido – e o Carnaval, os bailes funk e a pornogratização da mídia não me deixam mentir!

Alguém até poderia questionar: “Mas por que a ira de Deus vem justamente sobre ESTAS coisas? Que implicância é esta”?

Deus pode ser facilmente tachado como estraga-prazeres após a leitura de Colossenses 3.5-7.

Abaixo, apresento uma breve análise etimológica de cada termo destacado no texto:

• Imoralidade sexual (gr. porneia): a não-submissão da sexualidade ao Deus que a criou.

• Impureza (gr. akatharsian): a adoção da malícia como estilo de vida, o que impossibilita o respeito e a decência.

• Paixão (gr. pathos): quando a ânsia de viver intensamente desintegra o ser.

• Desejos maus (gr. epithumias kaken): a deificação do desejo, onde nada lhe deve ser negado, equivalente à deificação narcisista e maligna do eu.

• Ganância (gr. pleoneksian): quando o acúmulo de bens é visto como o fim máximo da existência.

Mas creio que a melhor forma de compreender o quão justa é a ira de Deus contra o estilo de vida sacralizado pela sociedade contemporânea é observar os efeitos por ele causados, procurando suas vítimas.

Entendo que a ira de Deus contra a imoralidade sexual é justa quando vejo os filhos das baladas crescerem como consequências indesejadas de um momento de prazer.

Entendo que a ira de Deus contra a impureza é justa quando vejo uma pessoa ser reduzida á condição de objeto sexual, procedimento assim sustentado pela mídia e pelo mercado.

Entendo que a ira de Deus contra a paixão é justa quando vejo famílias e relacionamentos arrasados, pela falta de consideração de alguém que argumentou querer “viver de verdade”.

Entendo que a ira de Deus contra a glorificação do desejo é justa quando vejo o poder destrutivo do desejo desvinculado da ética e do compromisso com o próximo.

Entendo que a ira de Deus contra a ganância é justa quando vejo a corrupção minar verbas que deveriam ser destinadas ao benefício público ou quando vejo o estilo de vida subumano dos workaholics contemporãneos.

Nossos valores estão na contramão do projeto de Deus para a espécie humana – estão na contramão da humanização.

E assim entendemos que a ira de Deus é Sua denúncia da nossa falta de discernimento, que nos leva a hesitar em depor nossos falsos ídolos e descartar suas falsas promessas de realização.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O QUE PODEMOS APRENDER SOBRE TEOLOGIA COMENDO CACHORRO QUENTE?

Inicio este artigo com grande constrangimento, pois não gosto de falar de minha vida devocional – mas isto é inevitável para abordar o assunto.

Já faz algum tempo que tive este insight. Foi quando estava prestes a degustar um cachorro-quente. Ao dar graças pelo lanche (meu favorito, por sinal), percebi que não era muito coerente agradecer a Deus pelo cachorro-quente.

Calma, deixe-me explicar.

Sei que, ao dar graças no horário das refeições, estamos louvando a Deus por Seu cuidado protetor – o que se aplica perfeitamente ao cachorro-quente, já que o Senhor é que provê nosso sustento.

Quando agradecemos a Deus pelo alimento também O louvamos por Seu poder criador – e é neste aspecto que o cachorro-quente não se enquadra, simplesmente porque não foi Deus que o criou.

Um cachorro-quente não é natureza (criação direta de Deus), é cultura (criação humana a partir do trabalho sobre a natureza).

Dar graças por um cachorro quente não é louvar a Deus diretamente como criador, mas louvar a expressão de Sua graça na humanidade – ou seja, celebramos o ato de Deus ter concedido ao ser humano o privilégio de portar Sua imagem e semelhança, tornando-o um ser capaz de criar e produzir.

Seja um cachorro-quente, uma pizza, uma bolacha com manteiga ou um simples pão, estamos usufruindo de um bem cultural (e a mesma analogia se aplica às edificações, aos móveis, aos utensílios eletrônicos, às artes, etc.) e, ao usufruirmos dos mesmos com ações de graças, celebramos o fato de que Deus ainda se faz presente entre os homens e Se expressa através deles.

É óbvio que nem toda a cultura produzida pelo homem é positiva, pelo simples fato de que ela espelha não só a graça de Deus, mas a pecaminosidade humana. Por esta razão a cultura (tudo o que o homem faz) sempre deve estar sob crítica.

Mas também não podemos ir para o extremo oposto, pois todas as vezes que os bens culturais humanos dignificam a vida, usufruí-los significa celebrar o cumprimento das intenções originais de Deus para o homem mesmo neste mundo caído; pois o Criador, que tudo fez “bom”, ansiou que a tudo aquilo que saísse das mãos do homem assim também fosse.

E assim, podemos ansiar com expectativa alegre a redenção final do gênero humano, que remirá o potencial criativo humano. Neste dia, toda a cultura humana será boa e dispensará críticas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DECIDINDO ENTRE SOFRER OU FAZER SOFRER

O sofrimento do justo é um problema que há séculos têm deixado muitas pessoas intrigadas.

Aqueles que, como Asafe, compreenderam a perspectiva escatológica da História, com o triunfo final da justiça divina, já tranquilizaram seus corações (Salmo 73).

Há, porém, um aspecto desta questão que merece consideração atenta, por tocar no aspecto ontológico do problema do sofrimento do justo: o fato de que o estilo de vida de um justo, por si só, promove sofrimento.

Pautar a vida em valores como amor, mansidão, benignidade, honestidade e misericórdia vulnerabiliza o indivíduo. Sim, pois o estilo de vida de um justo é construído sobre decidir entre sofrer ou fazer sofrer. Fazer a primeira escolha significa estar sujeito aos abusos e à crueldade da parcela da humanidade que tomou a decisão diferente da sua.

A crueldade encontra espaço diante daqueles que não representam ameaça nem tampouco retaliação.

Richard Wurmbrand, mártir vivo do século XX declarou  que “uma flor, se você feri-la sob seus pés, recompensa você te dando seu perfume”.

Não devemos, porém, encarar esta questão dentro de uma perspectiva escatológica limitada, que se consola apenas em uma futura inversão de papéis no porvir, onde os justos receberão sua recompensa pelos males que sofreram para sustentar seu estilo de vida e os injustos receberão a punição que sua injustiça merece.

A maior recompensa ou punição de um determinado estilo de vida está na vivência do mesmo.

Logo, aquele que faz sofrer, assassinou todas as suas possibilidades de felicidade mediante seu próprio estilo de vida – assim, fazer sofrer é escolher trilhar um caminho de sofrimento para si mesmo.

Da mesma forma o justo se regozija na felicidade e realização que seu estilo de vida lhe proporciona (moral, espiritual e pessoal) ainda na vivência histórica, mesmo enfrentando sofrimento.

O porvir é apenas uma continuação e confirmação das escolhas já feitas por indivíduos na história...

E assim, o caminho de vida de um justo é melhor trilhado por aqueles que compreendem que a virtude em si é a maior recompensa pela prática da mesma.

domingo, 25 de julho de 2010

O CALVINISMO DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA

ATÉ O FIM

Quando nasci veio um anjo safado
O chato de um querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

"Inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
 
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
 
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
 
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
 
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Em 1978, na canção "Até o fim", Chico Buarque de Holanda apresentou, de forma bem humorada, as desventuras de alguém que nunca "deu certo" na vida.

É bastante interessante que, em plena ditadura militar, o autor tenha declarado que um dos motivos pelos quais o personagem não dava certo era por não ser "ladrão" (uma mensagem ainda atual em nosso país de corruptos que "dão certo" impunemente), "bom de bola" (garantia certa de bom salário, em uma sociedade que exalta os profissiionais do entretenimento e paga salários miseráveis a seus principais profissionais), nem aguentar "ouvir clarim" - ou seja, não apoiava a ditadura militar nem dela sabia tirar vantagem.
Todavia, esta música merece atenção pelo viés teológico que Chico Buarque conferiu à narrativa: no fundo, tudo não dava certo porque "um anjo safado, um chato de um querubim", havia determinado que seria assim.

Em resumo, "Até o fim" apresenta o conflito do homem vendo-se como vítima do elemento religioso.

(É discutível se, ao descrever o tal "anjo safado" como o "chato de um querubim", Chico estivesse pensando em Satanás, descrito na Bíblia como um querubim caído: se assim fosse, o autor estaria creditando as mazelas humanas à oposição demoníaca. Todavia, esta parece ser uma alternativa improvável, não pela falta de cultura do autor, que poderia muito bem conhecer esta informação, mas pela suspeita com que o elemento religioso era visto nos anos 60 e 70, especialmente pelas esquerdas mais influenciadas pelo ateísmo do comunismo russo e cubano.)

A mesma temática de "Até o Fim" apareceu, de forma mais ousada, em "Rio 42", também do mesmo autor. Ou seja, 1) somos o que somos porque Deus os anjos assim o quiseram, 2) nossa realidade indica que eles não fizeram o serviço bem feito, 3) logo, Deus, na melhor das hipóteses, está sob suspeita, 4) e a fé não parece ser uma virtude sensata.
Lamento ver um artista tão talentoso nutrir tais sentimentos diante de Seu Criador. O retrato bíblico de Deus  (que certamente mudaria os conceitos de Chico Buarque) o apresenta como o soberano da História, mas não uma criatura caprichosa e mesquinha: ao contrário, o Soberano que rege o Universo o faz com ética, justiça e amor.

Há um ponto positivo, porém, que desejo destacar em "Até o Fim": mesmo apresentando um personagem que é "vítima" dos desígnios divinos e entra em conflito com a realidade religiosa, a canção apresenta a rejeição do fatalismo: mesmo com tudo contra, seu personagem vai "Até o Fim", e não entrega os pontos jamais.

Muitos cristãos, sabendo do domínio soberano de Deus e de Seu cuidado como Universo e com a História, desenvolvem uma visão fatalista da vida, e usam estas verdades como uma espécie de isenção à  ação, desculpando assim sua omisão ("minha vida está assim porque Deus quer"): cristãos assim esquecem que Deus cumpre seus propósitos na Terra através de nossas ações responsáveis.

Como Joabe bem sintetizou a questão: "Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe parecer". (2.º Samuel 10.12)

Nós também, como agentes de Deus, temos o dever de sermos agentes de transformação da realidade (em nós e ao nosso redor), e o conhecimento da soberania de Deus, longe de nos desanimar nesta tarefa, confere a certeza que ele abençoará nossos esforços.

Desculpas "piedosas" (que consistem em uma tentativa errônea de compreender e se sujeitar à vontade de Deus) ou "teológicas" (um falso calvinismo) para a apatia e a indolência não são competíveis nem com a Bíblia nem com o Deus da Bíblia.

Como o personagem de Chico Buarque, também devemos ir até o fim - com a diferença que sabemos "pronde" que vamos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

JOSÉ, NÃO SEJA MANÉ!


JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

O poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, fala de alguém que se viu na encruzilhada da vida – o momento crítico em que os sonhos, projetos e prazeres parecem não mais funcionar e tampouco fazem sentido.

Só restavam duas opções: entregar os pontos ou uma guinada, um recomeço.

Foi precisamente neste ponto que muitos “Josés” se encontraram com Deus e recomeçaram sua vida de um jeito melhor.

É engraçado que muitos, ao pensar nestes "Josés", os recriminam (muitas vezes de forma zombeteira), por considerar  um sinal de covardia refugiar-se em Deus quando tudo parece perdido.

O Evangelho e a sua humilhação da auto-suficiência humana nunca deixarão de ser um escândalo.

Mas a pergunta de Drummond paira, impiedosa e realista, diante do ceticismo e orgulho humano: “você marcha, José! José, pra onde?”

Quem pode propor um caminho melhor para "José" que os braços amorosos de Deus?

Pois é precisamente quando descobre o poder salvador do Evangelho que José descobre como, para onde e porque marchar.

E é desta forma, ao livrar-se do fardo de reinventar sozinho sua vida, que "José" prova que não é "Mané".

sexta-feira, 18 de junho de 2010

NÃO SOMOS INÚTEIS - JEAN-PAUL SARTRE ESTAVA ENGANADO!


Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), eu e você não passamos de paixão inútil. Isto porque, para o filósofo existencialista francês, a vida não possui sentido nenhum além do que possamos lhe atribuir.

Sendo assim, o dever do homem consiste em usar sua liberdade para dar o melhor sentido possível à vida. Isto é ao mesmo tempo seu privilégio e seu fardo, já que ele nunca poderá reverter a falta de sentido para a vida, nem tampouco se eximir da responsabilidade pelo exercício de sua liberdade.

É interessante que, apesar de tais conceitos, a filosofia de Sartre abomine o suicídio.

A razão pela qual o filósofo é tão radical em suas colocações é que, para ele, buscar um sentido na vida seria admitir a existência de um propósito superior pré-estabelecido ao  homem, por alguém superior a ele - e isto Sartre não podia admitir.

É interessante que toda forma de ateísmo que supostamente tenta “emancipar” o homem acaba por reduzi-lo.

Não somos "paixão inútil".

Segundo o cristianismo,somos seres portadores de dignidade, criados à imagem e semelhança de Deus, chamados para ser co-participantes de Seus propósitos para a humanidade e para o cosmo. Somos amados e valorizados no sentido mais profundo destes termos, o que Deus comprova através da cruz de Cristo.

Há uma antiga canção do Barão Vermelho que diz que "viver é fúria e folia rumo ao mágico".

Acontece que aqueles que não conseguem enxergar o "Mágico" não vêem um rumo para caminhar, e assim, sua "fúria e folia" de vida se torna inútil.

Ao que parece, Sartre foi um deles.

Lamento muitíssimo.
Mas sábado sepultei meu pai e jamais me pareceu tão revoltante a visão de Jean-Paul Sartre  sobre a vida quanto neste momento.

Pobre filósofo!