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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SÉRIE ESCLARECIMENTOS (III): HAVERÁ "AMNÉSIA CELESTIAL"?

Existem muitos jargões expostos nos púlpitos evangélicos relacionados à escatologia - jargões criados para tentar descrever os eventos finais e a eternidade.

Um dos mais populares é a afirmação de que não existirá lembrança da vida terrena nos céus.

Trata-se de uma interpretação de Isaías 65.17 ("Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão".) - uma interpretação, a meu ver, equivocada - que embora pareça respeitar a letra do texto, é simplista, desconsiderando outros importantes textos bíblicos.

Em primeiro lugar, esta visão escatológica é falha do ponto de vista antropológico: é inconsistente com o ensino bíblico sobre a glorificação do corpo. Na 1.ª Epístola aos Coríntios, cap. 15.35-58, Paulo conclui seu ensino sobre a ressurreição do corpo afirmando que o mesmo será um corpo "incorruptível" (v. 42), "glorioso", "vigoroso" (v.43), "espiritual" (v.44), "imortal" (v. 53), semelhante ao de Cristo (v. 49).

Pergunto:

  • Afirmar que não haverá lembrança da vida terrena na eternidade não implica em afirmar que uma de nossas faculdades mentais (a memória) funciona melhor nesta vida do que na vindoura?
  • Como seria possível falar em um corpo glorificado... e amnésico?
  • PIOR: se nosso corpo futuro glorificado é semelhante ao corpo glorificado de Cristo, isto sugere que ELE não possui a lembrança das coisas passadas 
Acho difícil crer nisto...

Creio, em segundo lugar, que além do erro antropológico, este jargão comete um erro hermenêutico: a expressão "não se lembrar" na Bíblia não se refere literalmente a esquecer, mas em não permitir que um fato passado perturbe as condições presentes. Veja o que está escrito no próprio livro de Isaías (cap. 43.25)

"Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro". Sugere este texto que Deus passa a sofrer de amnésia quando perdoa? É óbvio que não.

 
O texto simplesmente afirma que, ao perdoar, Deus se dispõe a não permitir que os pecados passados venham a se interpor no relacionamento (presente e futuro) com quem Ele perdoa. É uma declaração de segurança e estabilidade, deixando evidente a qualidade do relacionamento gracioso que Deus almeja estabelecer com o pecador arrependido (veja ainda hebreus 8.12).
 
A ideia é que o passado ficou para trás - vida nova pela frente.
 
Portanto, afirmar que "não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão" nos céus equivale a dizer que nenhum sofrimento terreno será capaz de impedir o desfrute das alegrias eternas.
 
Como Paulo escreveu, nosso "peso eterno de glória mui excelente" não será comparável à "nossa leve e momentânea tribulação" (2.ª aos Coríntios 4.17-18).
 
Portanto, pode ir para o céu sem medo.
 
Lá você perderá sua dor (Apocalipse 21.4).
 
Mas não sua inteligência.
 
______
PS: Alguns pregadores afirmam que o motivo da "amnésia celestial" é impedir o inevitável sofrimento que seria advindo da consciência da condenação eterna de pessoas amadas em vida. Ora, esta teoria é falha porque:
1. desta forma, Deus seria um ser extremamente atormentado, pois em Sua onisciência Ele possui plena consciência das penas eternas, e tais pessoas foram objeto de um amor que sobrepuja qualquer vínculo de amor terreno. Por que isto não acontece? porque o amor de Deus não entra em desacordo com Sua justiça;
2. quem assim afirma, ignora que a glorificação escatológica implicará também na semelhança moral com Cristo (1.ª João 3.2) - ou seja, a Noiva do Cordeiro compartilhará de Seu perfeito senso de justiça.  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SÉRIE ESCLARECIMENTOS (II): “O FOGO ARDERÁ CONTINUAMENTE SOBRE O ALTAR”

Movido mais pelo dever do que pelo prazer, inicio esta nova série, cujo objetivo principal é debater e desmistificar alguns conceitos que circulam pela igreja e se tornaram lugar comum, seja pela má interpretação de alguns textos bíblicos ou pela força do hábito.



Todo cristão reconhece a necessidade de liderança eclesiástica de qualidade: que os responsáveis pelo povo de Deus sejam exemplos de ortodoxia e piedade.


Um dos textos mais utilizados para defender esta convicção é Levítico 6.13: “O fogo arderá continuamente sobre o altar e não se apagará”.


Um texto totalmente inadequado para expressar o desejo por um púlpito cristão avivado.


O fogo que este texto menciona é o fogo dos holocaustos (sacrifícios totalmente queimados) apresentado para expiação de pecados no período do sacerdócio levítico, no Antigo Testamento.


Ou seja, este é um fogo que, à luz da Nova Aliança e do perfeito sacrifício de Cristo, já se apagou.


Continua apagado.


E nunca mais se acenderá, para a glória de Deus.


Desejar que este fogo esteja aceso é ofensivo ao caráter infinitamente superior da Nova Aliança sobre o sacerdócio levítico (Hebreus 8.6; 10.8-14).


Outra dificuldade (é talvez você discorde comigo neste ponto) é que não existe altar na Igreja Evangélica.


Sei que muitos confundem púlpito com altar – só que altar é lugar de apresentação de sacrifícios – e não existe tal coisa para a Igreja evangélica, que reconhece que o sacrifício de Cristo é perfeito, dispensando repetição; e suficiente, dispensando novidades (Hebreus 7.22-27; 9.11-28), embora eu sei que existem aqueles que realmente crêem, pregam e ensinam que o crente se relaciona com Deus através de seus $acrifício$.


Ainda que a Bíblia fale de apresentar o próprio ser e louvor como sacrifício vivo a Cristo (Rm 12.1; Hb 13.15), o “altar” onde isto acontece é a vivência do dia-a-dia em Cristo – e não dentro de quatro paredes de um templo, em manifestações muitas vezes estereotipadas de espiritualidade.


A Igreja evangélica possui púlpito, e não altar – porque entende que Deus é glorificado e sua missão é cumprida através da pregação e ensino da Palavra de Deus - púlpito este que ocupa lugar central, demonstrando que a Palavra de Deus é o elemento central da fé e prática da Igreja (lembrando que relegar às Escrituras uma posição periférica fatalmente levará à corrupção da Igreja), e posição elevada para deixar claro que acima de qualquer pretensa autoridade humana está a autoridade divina, que provém das Escrituras.


Continuemos desejando, orando e trabalhando por púlpitos avivados, que sejam fonte de bênçãos para a Igreja e para o mundo.


Mas utilizando bases bíblicas adequadas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SÉRIE "ESCLARECIMENTOS" (I): APRESENTAÇÃO DE CRIANÇAS (ATUALIZADO!)

Movido mais pelo dever do que pelo prazer, inicio esta nova série, cujo objetivo principal é debater e desmistificar alguns conceitos que circulam pela igreja e se tornaram lugar comum, seja pela má interpretação de alguns textos bíblicos ou pela força do hábito.



A rejeição do pedobatismo (batismo de crianças) pela grande maioria das igrejas evangélicas brasileiras, não as levam a agir de forma indiferente com os recém-nascidos - como estas igrejas entendem que o batismo bíblico sempre é um ato voluntário requerido pelo próprio batizando)*,  não é ministrado o batismo aos bebês, mas eles são apresentados ao Senhor.

Este ato, realizado dentro da própria liturgia do culto, envolve:

  1.  Gratidão a Deus pela nova vida;
  2. Exortação aos pais para que instruam a criança no temor do Senhor**;
  3. Oração intercessória pela criança e pelos pais, para que sejam aptos a realizar tal tarefa.
 A cerimônia de apresentação traz muita alegria para a igreja e para os familiares do bebê.

O problema é a base teológica comumente utilizada para tal ato:

Não raro os pastores que ministram a apresentação do bebê dizem que realizam o ato seguindo o modelo do Senhor Jesus, que também foi apresentado no templo (sendo muito comum a leitura da passagem correlata de Lucas 2.22).

É justamente esta transposição que é inadequada - a apresentação do Senhor Jesus no templo é um ato totalmente distinto da apresentação de bebês praticada pela igreja brasileira contemporânea.

Jesus foi apresentado no templo, em cumprimento à exigência da lei mosaica de consagração (ou resgate) dos primogênitos (Êxodo 13.1, 11-14; Levítico 12.1-8). Sendo assim, a apresentação do Senhor Jesus:

  1. Era uma disposição cerimonial da lei judaica (veja Gálatas 4.4);
  2. Era um ato estendido a todos os primogênitos judeus (ou seja, Lucas 2.22-24 não cria um novo paradigma);
  3. Era um ato que envolvia a circuncisão (Levítico 12.3);
  4. Era um ato que exigia a purificação cerimonial da mãe (Levítico 12.1,4);
  5. Exigia a apresentação de dois animais como sacrifício (um como holocauto pelo pecado e outro como oferta para o pecado), que poderiam ser um cordeiro e uma pomba ou rolinha ou, no caso das famílias pobres, duas pombas ou rolinhas (como foi o caso da família de Jesus – veja Levítico 12.6-8 e Lucas 2.24).
Se continuarmos insistindo que a apresentação contemporânea de crianças segue os mesmos moldes da apresentação de Jesus no templo, então:

  1. Estaríamos afirmando a vigência da Lei cerimonial mosaica, com seus ditames sobre pureza cerimonial e sobre a circuncisão (Gálatas 3.23-25);
  2. Meninas não poderiam ser apresentadas no templo, e nem os filhos não-primogênitos;
  3. Algum tipo de oferta/sacrifício teria de ser exigido dos pais – algo inadmissível diante da Nova Aliança e do sacrifício perfeito de Cristo (Hebreus 9.11-15).
Sendo assim, como devemos compreender o ato de apresentar a Deus os recém-nascidos, intercedendo pelo seu bem-estar e de sua família?

Simplesmente assim: como um ato de intercessão pelo bem-estar da criança e de sua família!

As coisas não perdem seu valor por se revestirem de simplicidade.

Sendo assim, continuemos apresentando nossos filhos ao Senhor – mas com uma compreensão mais adequada do ato que estamos realizando***.

* Uma excelente abordagem das diversas visões acerca do batismo dentro da cristandade encontra-se no livro “Águas que Dividem”, de Donald Bridge e David Phypers. Confira em  http://www.editoravida.com.br/loja/product_info.php?products_id=198

** A cerimônia de apresentação é aberta a famílias evangélicas e não-evangélicas. Geralmente o ministro pergunta aos pais se estes se comprometem a criar a criança nos caminhos do Senhor. Tenho muita dificuldade, porém, quando este compromisso é solicitado a uma família não-evangélica – afinal, como aqueles que não seguem o Evangelho vão ensinar seus filhos a fazê-lo? Em minha opinião, tal compromisso não deveria ser solicitado, devendo ser substituído por uma exortação para que os pais aceitem a Cristo – o que, certamente, irá capacitá-los a construir um lar melhor e assim educarem seus filhos no temor do Senhor.

 *** Particularmente, creio que leituras mais adequadas para a ocasião são: Deuteronômio 6.4-9; Marcos 10.13-14 ou Efésios 6.4.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SÉRIE: LIÇÕES PRECIOSAS QUE PODEMOS APRENDER... COM QUEM JAMAIS ESPERARIAMOS! (III)

ALBERT EINSTEIN

 
“Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

Todo ser humano é movido por um conjunto de conceitos e valores basilares – ou seja, conceitos e valores que definem seu modo de pensar e agir: seu estilo de vida.

Existem conceitos e valores basilares que precisam ser revistos e mudados, por produzirem um estilo de vida nocivo.

Mas com esta frase, o cientista Einstein mostra seu conhecimento também da condição humana, por afirmar, em outras palavras o quão difícil é que as pessoas mudem!

Ou seja, como é difícil a mudança de conceitos e valores basilares!

O velho sempre é o melhor, o mais seguro, o mais cômodo!

O aspecto mais grave da situação é que temos a impressão de que basta dar às pessoas as condições necessárias que elas mudarão.

Mas quantas pessoas possuem as condições necessárias para viver melhor e não o fazem!

Não vivem à luz do que sabem, nem aproveitam todo seu potencial cognitivo, emocional e espiritual.

Poderiam ser príncipes, mas por não mudarem seus princípios orientadores, vivem como escravos.

O velho (e, por conseqüência, o errado) é o melhor – e aqui a assertiva de Einstein cai como uma luva.

Como é difícil mudar uma concepção errada de vida – mesmo possuindo os meios para tanto!

Realmente, Einstein estava certo.

O Senhor, que criou átomos e pessoas (e, portanto, entende de ambos) é poderoso para destruir preconceitos vãos e errôneos e para construir conceitos dignos.

Ele apenas impõe como elemento condicionante a ordem dos fatores: é necessário destruir, para depois construir.

Todo processo de aprendizagem traz implícito em si um necessário processo de desaprendizagem, ou seja, a revisão e ampliamento daquilo que eu tinha por certo.

Se não for assim, não haverá aprendizagem.

Mas o preconceito precisa ser desintegrado!

Ou nós é que seremos!

E então? Permitiremos que o Senhor trabalhe em nossas vidas?

Aceitaremos que Ele destrua para depois edificar?

Aceitaremos Suas condições?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

SÉRIE: LIÇÕES PRECIOSAS QUE PODEMOS APRENDER... COM QUEM JAMAIS ESPERARIAMOS! (II)

BENTO XVI

O mundo reagiu com apreensão à escolha do sucessor de João Paulo II em 2005.

A escolha de Joseph Ratzinger, cuja intransigência doutrinária lhe valeu o apelido de “Rotweiller de Deus”, significaria o exercício de um pontificado não só desprovido do carisma de seu antecessor (não á toa chamado de “papa pop”), mas que também retardaria (ou boicotaria) os movimentos de reforma e modernização do catolicismo.

A capa publicada por Veja à época expressa bem este sentimento de apreensão:

Não elogio Ratzinger por concordar com suas doutrinas ou com suas crenças.

Meu elogio se deve à postura do atual papa.

Hoje, passados seis anos, ele ainda é conhecido por ser um religioso linha-dura, incapaz de negociar suas crenças e alterar seu discurso – mesmo à custa de popularidade.

A recusa de dobrar-se diante das conveniências torna Bento XVI em um exemplo de firmeza de princípios.

Ou seja, para preservar suas convicções, Bento XVI não tem medo de encarnar o papel de “anti-pop”!

Digo com pesar que nosso Brasil evangélico, de tanta fluidez doutrinária e moral, com tanta concessão ao apelo da mídia e das conveniências precisa urgentemente do exemplo deste homem, heterodoxo em sua doutrina, mas ortodoxo em sua firmeza de princípios.

terça-feira, 26 de julho de 2011

SÉRIE SABERES ESSENCIAIS À VIDA (III): INVESTIR EM AUTONOMIA

Falar em autonomia significa falar na capacidade de se auto-legislar ou se auto-posicionar diante da vida.

O termo não implica em isolacionismo, desrespeito ou desprezo – nem por Deus, nem pelos homens.

Antes, autonomia significa desenvolver a capacidade de agir por si só – mesmo que os outros não ajam.

Autonomia acaba se tornando, então, auto-mobilia – mover-se em direção a um alvo correto sem esperar pelo impulso de outrem.

Constance Kamii aborda o tema em um documentário (recomendadíssimo), analisando dois importantes âmbitos da autonomia: intelectual (manter-se firme naquilo que se sabe ser verdadeiro) e moral (manter-se firme naquilo que se sabe ser correto).

Autonomia significa não esperar pelos outros para fazer a coisa certa.

Autonomia significa não arranjar desculpas para os próprios erros.

Autonomia significa descobrir uma limitação e investir esforços para lidar com ela.

Autonomia significa não se acomodar às condições desfavoráveis, mas transformá-las.

Autonomia significa não seguir a multidão, nem ser massa de manobra.

Autonomia significa estar disposto a ir à luta.

Autonomia significa pensar ao invés de ser pensado.

Por que é importante desenvolver a autonomia?

Porque isto significa dar passos maiores para o usufruto da liberdade – e, no que se refere àqueles que seguem a Jesus, significa o desenvolvimento de maior iniciativa quanto à comunhão, ao serviço, o desenvolvimento do senso crítico e à tomada de atitudes corretas, no contemplar apenas da pessoa de Cristo e da responsabilidade pessoal diante dEle.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

DENÚNCIA (IV)



Caneta ungida? Alquimia "evangélica"?!

Tosco!

Isto que eu chamo de dar uma BICa no Evangelho...

Penso que mais importante que orar pela caneta é orar por quem maneja a caneta...

E o tal "elemento do milagre", então, o que será? Espero que não seja para beber...
Que bom saber que o Evangelho bíblico, na suficiência da graça de Deus, dispensa este tipo de tranqueira! Voltemos ao Evangelho!

sábado, 30 de abril de 2011

DOENÇAS QUE NÃO PODEM ATINGIR A SUA ALMA IV: O MAL DE JONAS, OU A SÍNDROME DA GOTA D'ÁGUA


O mundo de Jonas caía paulatinamente desde que ele fora comissionado a pregar em Nínive.

Primeiro: por deixar o ministério que exercia entre sua gente para ir a um campo missionário hostil.

Segundo: ao ver que sua vontade fora terminantemente rejeitada pelo Senhor, que insistiu, por meios drásticos, que o profeta fosse a Nínive.

Terceiro: pela experiência de passar 3 dias e 3 noites no ventre de um grande peixe – e, mesmo tendo reconhecido sua rebeldia, o coração do profeta ainda não havia digerido toda a situação.

Quarto: tendo de exercer, a contragosto, o ministério em Nínive.

Quinto (e, aparentemente ridículo): ver que seu ministério havia prosperado, levando a cidade de Nínive a um grande avivamento.

Sexto: embora não tenha negado a fé, Jonas estava profundamente desgostoso e magoado com Deus.

Sétimo, e derradeiro: longe da cidade, isolado em seu abrigo, o profeta teve de suportar a perda de seu único consolo nesta sucessão de dissabores: a planta que lhe dava sombra.

“Melhor me é morrer do que viver!” disse o profeta sob o sol da Assíria.

Para nós, que lemos o livro de Jonas e compreendemos a necessidade que o profeta tinha de romper com seus preconceitos, exercer misericórdia e compreender melhor a graça de Deus, este rompante após a morte da planta soa como mais uma crise de egoísmo.

A atitude do profeta soa como absurda e irracional (desistir da vida por causa de uma planta), parecendo-nos simplesmente mais um ponto negativo em sua biografia.

Mas não podemos ignorar que é justamente este o efeito do stress agudo e angustioso: a irracionalidade.

Para quem está no limite de sua capacidade de tolerar a angústia, sua dor parece englobar o mundo (ou o mundo reduziu-se á sua dor).E estamos diante de um homem que estava passando por um processo de revisão de conceitos, o que, embora necessário, sempre é um processo doloroso.

Jonas estava à beira de um colapso – e lembro-me dos versos de Chico Buarque:

“Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção - faça não
Pode ser a gota d’água”

Devemos nos precaver contra o mal de Jonas porque não podemos permitir que a dor (seja ela causada pelos mais diferentes motivos) nos prive da razão – podemos nos arrepender depois, de nossos atos e palavras.

Perdendo a razão, perderemos a visão dos acontecimentos. Perdendo a visão dos acontecimentos, seremos incapazes de analisá-los corretamente. Sem a capacidade de avaliar os acontecimentos, seremos incapazes de transformá-los em experiências de aprendizagem.

E é por isso que a ação de Deus tem o misericordioso efeito terapêutico de trazer o profeta de volta à realidade: “É razoável essa tua ira por causa da planta?” (Jonas 4.9)

Ministrar para pessoas soterradas pela angústia exige esta dupla percepção: de seu estado hipersensível e da necessidade que ela tem de voltar a usar a razão como forma de vencer a própria angústia.

Não se trata de negar a dor. Mas, sim, de não conceder a ela poder indevido sobre nós.

O livro de Jonas termina com uma incógnita: o livro se encerra com o apelo do Senhor para que Jonas reconsidere seus conceitos, mas não sabemos como o profeta reagiu à terapia divina: se superou a irracionalidade de sua angústia ou se entregou-se a ela.

Que o mesmo não ocorra com o livro de nossas vidas: sejamos sempre responsivos à ação divina em nós e por nós.

Esta é a forma mais inteligente não só de vencer a angústia, mas de viver.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SÉRIE: LIÇÕES PRECIOSAS QUE PODEMOS APRENDER... COM QUEM JAMAIS ESPERARIAMOS! (I)

PAULO MALUF

"Falem mal, mas falem de mim" é um dos muitos lemas do famigerado "rouba, mas faz" (aquilo que, em períodos de menor conscientização, os brasileiros entendem como o perfil de um bom político).

Apesar dos pesares, Maluf acerta nesta expressão, dando-nos uma relevante lição acerca da necessidadede não dependermos excessivamente da imagem que terceiros fazem de nós para construirmos nossa auto-imagem.

A psicologia (em especial a psicanálise) tem destacado que muitas obsessões modernas (aparência, peso, vestes, sucesso econômico) estão antes relacionados à necessidade de causar uma boa impressão em terceiros do que a uma necessidade real do indivíduo - ou seja, queremos que falem bem de nós.

A Psicanálise afirma que isto é um resquício nostálgico da infância, da experiência que o recém-nascido tem de ser especial aos olhos de sua mãe - uma experiência que o ser humano deseja recuperar ao longo de sua vida.

Depender excessivamente da opinião de terceiros é sinal de falta de amadurecimento...

Não nego que a comunidade cristã seja um lugar de cuidado mútuo, que requer prestação de contas mútua de todos seus membros. Devemos nos preocupar com o que falam de nós na medida em que isto satisfaça a necessidade de prestar contas acerca de nosso testemunho cristão à Igreja, porque não nos é lícito causar escândalo ao Evangelho.
Todavia, nem tudo o que falam de nós é justo - e, pior, não podemos impedir que falem.

Mas, em contrapartida, nosso matreiro político nos ensina que não temos que concordar com o que falam, cabendo a nós decidir o nível de importância que daremos a estas palavras - que, em certos casos, pode ser nenhuma importância.

Somente Deus sempre terá as palavras certas para falar acerca de nós - elogiosas ou repreensivas; elogiosas como um incentivo à gratidão humilde, e repreensivas para que melhoremos, não estagnando nossas vidas na conformidade com o erro, mas somente as palavras dEle merecem nossa atenção e aceitação incondicional, posto que são sempre verdadeiras e expressam aceitação, nunca rejeição.
Diante dos homens, todavia, será necessário "malufar" de vez em quando - para o bem de nossa própria saúde interior.
***
PS: Mas nada disto é um incentivo para você votar no Maluf, OK?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

DENÚNCIA (III)



Incluso na série "Denúncia" - até eu encontrar uma boa razão bíblica que fundamente a distribuição (gratuita, espero) do "tijolo da edificação".

***

PS: haverá também uma reunião para a entrega do cimento da edificação? É o mínimo a se esperar, diante de tal postura teológica.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

SÉRIE SABERES ESSENCIAIS À VIDA (II): FAZER A RODA DA HISTÓRIA GIRAR A SEU FAVOR

Falar em História é falar acerca de uma forma de interpretar a realidade. Dependendo dos aspectos enfatizados pelo historiador (por exemplo, a macro-história dos fatos oficiais ou a micro-história do cotidiano; os feitos de indivíduos ou de comunidades), temos diferentes maneiras de conceber a História.

Isto ocorre principalmente com o referencial interpretativo da História: Marx acreditava que a História podia ser explicada em termos econômicos. A concepção do iluminismo do século XVIII era totalmente racionalista, descartando a possibilidade de intervenções sobrenaturais no cenário humano.

A concepção bíblica de que Deus conduz a História para um clímax que cumprirá o Seu bom propósito para a humanidade (visão teleológica da História, do grego telos - meta, objetivo) serviu como inspiração e pretexto para a concepção desenvolvimentista da História, hoje em xeque, devido à constatação dos crimes do colonialismo, seu produto direto, e à ausência de um paradigma claro acerca do que significa "progresso".

Mas a concepção que desejo destacar neste post é uma antiga maneira de olhar a vida e a História, que influenciou fortemente os povos andinos de outrora: a concepção cíclica da História.

Dentro desta concepção, a História é movida por um ciclo inevitável de nascimento, apogeu e declínio - e este movimento explica o surgimento e o desaparecimento de impérios, nações e culturas.

Embora esta concepção cíclica não seja geralmente adotada como modelo interpretativo da História macro nos dias contemporâneos, ela é larga e popularmente utilizada para interpretar os acontecimentos do dia-a-dia, a História micro. Mesmo o Pastor Ricardo Gondim, famoso por sua oposição a toda espécie de determinismo, por exemplo, utilizou categorias extraídas desta concepção em uma entrevista à revista Eclésia para abordar a decadência do movimento evangélico.

A vida, em todos seus aspectos, estaria sujeita a um ciclo inevitável de surgimento, apogeu e declínio.

Aliás, não foi assim que definiram para nós o que é um ser vivo, nas séries primárias? Alguém que nasce, cresce, reproduz-se e morre?

Entender a História como um ciclo é conceber uma engrenagem que atrela a existência humana (relacionamentos, projetos, empreendimentos e o próprio ser em si) a si.

É a quintessência do fatalismo.

Conformismo e passividade são os filhos do fatalismo.

Mas as coisas não precisam ser assim.

A concepção bíblica da História mostra que Deus não permitirá que ela se mova em torno de si mesma, mas que Ele a conduzirá em triunfo. Isto é um incentivo e um convite ao agir responsável do ser humano, elevado ao status de colaborador de Deus em Seu agir na História.

Por que é tão importante aprender a fazer a roda da História girar a nosso favor?

Porque é a chave para que nos liberta da prisão da passividade, fazendo-nos ir à luta contra os aspectos da realidade  que se opõem à glória de Deus e ao bem-estar do homem, nos tornando agentes responsáveis e criativos de nossa própria História - tanto macro quanto micro.   

sábado, 13 de novembro de 2010

SÉRIE SABERES ESSENCIAIS À VIDA (I): APRENDER A TRANSCENDER SEU TEMPO

Todo ser humano é um produto de seu tempo. Depara-se, ao nascer, com uma realidade que o antecedeu, e que constitui o arcabouço conceitual para sua formação, o pano de fundo de si mesmo.

Isto torna extremamente falível referir-se a qualquer pessoa sem levar em conta o contexto cultural que moldou sua cosmovisão.

Esta assertiva, que exige sensibilidade e empatia para analisarmos o legado deixado por outros (mormente das gerações passadas), não pode estar a serviço da previsibilidade.

Sim, pois apesar de todo ser humano ser produto de seu tempo, os seres humanos não são apenas fruto de seu tempo.

Todas as eras dão testemunho de homens e mulheres que, discernindo as imperfeições de seus dias, viveram à frente de seu tempo.

Se assim não fosse, a História não teria mobilidade e já teria se cristalizado - felizmente não é esta a realidade histórica, e disso dão testemunho os movimentos reformistas, abolicionistas, de direitos civis, de emancipação política.

As características de injustiça, desigualdade, intolerância, opressão e alienação religiosa não foram uma unanimidade, nas épocas em que mais assolaram a humanidade.

Isto só foi possível graças ao exercício da crítica sobre o próprio tempo, o que confere a capacidade de transcender ao tempo.

Abrir mão deste exercício significa não procurar visualizar possibilidades maiores e melhores de existência, abrindo mão do gerenciamento de si próprio.

É o conformismo como estilo de vida.

 É por isso que a advertênia de Paulo é tão relevante: "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus". (Romanos 12.2)

Conhecer a vontade de Deus significa adquirir critérios para discernir e viver a vida que não estão sujeitos às limitações e temporalidade humanas.

Por isto não podemos aceitar viver uma vida de apatia, irreflexão e distanciamento de Deus - pois qual é a promessa deste tempo a nós?

Qual o perfil de ser humano que o século XXI, na sociedade brasileira pós-moderna nos apresenta?

Viver sob o signo do individualismo, consumismo e cinismo? Da indiferença, alienação, coisificação de si e dos outros e da sexolatria? Do niilismo e desesperança?

Reproduziremos tudo isto? 

Seremos retrato de nosso tempo ou, com a ajuda do Deus eterno, viveremos à frente de nosso tempo?

Que esta lição possa ser aprendida com muita urgência.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DENÚNCIA (II)

Não esperava ter de retomar esta série tão cedo, mas não posso deixar de me pronunciar sobre acontecimentos como este.

O texto abaixo é transcrição literal da Revista Época, n.º 649, de 25 de outubro de 2010, pág. 40.

"PACOTE RELIGIOSO

EMPRESAS de marketing evangélico surgiram nos bastidores do segundo turno para pedir dinheiro em troca de um pacote eleitoral que inclui DVDs, pregação em templo e artistas capazes de pedir votos no meio de um show. Até o domingo da eleição, será possível conferir quem fez negócio".

Lamentável  ver como Mamom, e não Cristo, tem determinado a postura política e o estilo de vida de alguns segmentos da igreja.

OPONHA-SE A ISTO, como um ato de defesa dos valores do Reino de Deus e não-conformismo ao avanço da corrupção dentro da igreja evangélica.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

NOVA SÉRIE: DENÚNCIA (I)

Este blog não se dedica, de forma exclusiva, a questões apologéticas - minha abordagem é mais ampla, de cunho teológico-pastoral. Existem outros blogs e sites na web, que possuem este enfoque.

Mas ao ver tal panfleto, não pude me conter. Senti-me revoltado e decidi postar e iniciar uma nova série - não por amor à denúncia e polêmica em si, mas por amor ao Evangelho e por amor àqueles que deles se afastam, escandalizados com o modelo de cristianismo que se lhes apresenta atualmente.

Tire suas próprias conclusões.

As minhas, as registro (e prego) abaixo:

O EVANGELHO DE JESUS NÃO É ISTO!

O FAVOR DE DEUS NÃO ESTÁ À VENDA!

Tenho dito.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

DOENÇAS QUE NÃO PODEM ATINGIR A SUA ALMA III: O MAL DE NOÉ, OU A SÍNDROME DO “EU FAÇO, E VOCÊ PAGA O PATO”


"Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos. Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem.
Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço e disse: Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos. E ajuntou: Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo". (Gênesis 9.20-27)


Sarah E. Saville disse que o espetáculo de um bêbado é o melhor sermão contra o vício.

Noé não fugiu à regra. Bêbado e nu, mal lembrava o homem digno que sobreviveu ao dilúvio.

O maior problema, contudo, ocorreu após o porre (uma curiosidade: antigamente, uma bebedeira se chamava “carraspana” - isto pode cair no vestibular!):
Furioso pelo fato de seu filho Cam ter presenciado o espetáculo que ele mesmo proporcionara, Noé achou-se no direito de lançar-lhe uma maldição, mais especificamente, desejando que ele fosse subalterno em relação aos irmãos.

Que pensar disso?

Historicamente, a maldição de Noé foi utilizada por alguns intérpretes da Bíblia favoráveis ao racismo e à escravidão como um texto que traria sustentação seu sistema de exploração da etnia negra (onde Sem é visto como antepassado dos judeus, Jafé dos europeus e Cam dos africanos).

Outros intérpretes, convencidos da maldade desta interpretação distorcida do texto bíblico, consideram que a maldição de Noé atingiu apenas a Cam e seus descendentes diretos, ou seja, as tribos cananitas, não sendo aplicáveis a nenhum outro grupo étnico.

O que eu penso a este respeito?

Particularmente, não creio que devamos procurar algum “cumprimento” para esta maldição – e nem que tenha ocorrido algum.

Não creio que Deus tenha endossado as palavras de Noé.

Já pensou se Deus desse cumprimento a todo absurdo dito durante uma ressaca?


Não quero aqui justificar o comportamento de Cam, mas destacar que o causador de toda aquela confusão foi o próprio Noé!

É contraditório reclamar das risadas quando você as inspirou.

É uma saída muito simples desviar o foco das atenções para evitar lidar diretamente com o problema real – e quando é possível se abusar do poder, a coisa se torna mais fácil ainda!

Quantas pessoas saem pela tangente de suas responsabilidades, achando a quem culpar (e muitas vezes até maltratar ou amaldiçoar) pelo próprio fracasso!

Como prevenir a síndrome de Noé?

Com uma boa dose de autocrítica e responsabilidade.

Virtudes que ensinam que é melhor prevenir do que remediar – principalmente tentar remediar os próprios erros às custas dos outros.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DOENÇAS QUE NÃO PODEM ATINGIR A SUA ALMA II: A SÍNDROME DE ELIAS, OU "SOU O ÚLTIMO FIEL DA FACE DA TERRA"!


"Que fazes aqui, Elias?
Ele respondeu: Tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida". (1.º Reis 19.13-14)


Quem sofre desta doença considera-se o único (ou o último) fiel que Deus possui na Terra.

É uma forma diferente de monopolizar Deus: enquanto a pessoa exclusivista não aceita que outros tenham acesso a Deus, esta não acredita que seja possível que isto aconteça.

A "síndrome de Elias" é uma tendência que se torna perceptível em discursos que tentam caracterizar indivíduos ou comunidades (o aspecto gregário da síndrome) como a voz profética de Deus, os mais puros doutrinariamente, os realmente avivados, a igreja pensante.

(Fatores como uma tradição denominacional ou uma questão teológica particular podem fomentar este sectarismo "piedoso".)

Certamente quem assim pensa deve sentir enorme solidão e desconfiança em relação ao próximo.

Assim sentia-se Elias na caverna: só e cético em relação aos homens.

A cura para a "síndrome de Elias" está no entendimento de que as menções bíblicas ao "remanescente fiel" são coletivas, e não individuais.

Você NÃO É o último crente da face da Terra!

Você NÃO É a única voz que Deus usa.

Você NÃO É o único a preocupar-se com andar em retidão.

Você NÃO É o único enojado com tanto engano religioso.

Você NÃO É o único a pensar.

Você NÃO É o único a experimentar Deus - outros O conhecem melhor que você, e sua vida pode ser abençoada por aprender com eles.

Você não está só.

Foi o que Elias teve de aprender.

"... conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou". (v. 18)

Nosso Senhor (não é só teu, viu?) prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja - portanto, volte a ter fé nos homens como expressão de fé em Deus, reconhecendo que Sua graça é poderosa também na vida do próximo.

Assim como foi na sua.


Se você não descrê do que Deus fez em Sua vida, não duvide do que Ele tem feito em outros; não duvide que você tenha irmãos: você não tem este direito.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

DOENÇAS QUE NÃO PODEM ATINGIR SUA ALMA I: O MAL DE JOSUÉ, OU A SÍNDROME DO EXCLUSIVISMO RELIGIOSO


Saiu, pois, Moisés, e referiu ao povo as palavras do SENHOR, e ajuntou setenta homens dos anciãos do povo, e os pôs ao redor da tenda.
Então, o SENHOR desceu na nuvem e lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais.
Porém, no arraial, ficaram dois homens; um se chamava Eldade, e o outro, Medade. Repousou sobre eles o Espírito, porquanto estavam entre os inscritos, ainda que não saíram à tenda; e profetizavam no arraial.
Então, correu um moço, e o anunciou a Moisés, e disse: Eldade e Medade profetizam no arraial.
Josué, filho de Num, servidor de Moisés, um dos seus escolhidos, respondeu e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-lho.
Porém Moisés lhe disse: Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do SENHOR fosse profeta, que o SENHOR lhes desse o seu Espírito!
(Números 11.24-29)

Nesta passagem o jovem Josué exemplifica a síndrome do exclusivismo religioso.

Quem sofre deste mal não consegue conceber que a religião possa ter caráter democratizador.

Geralmente esta grave doença apresenta duas variações: a personalista e a totemista.

Impossível dizer qual das duas é mais perigosa.

No primeiro caso, o indivíduo crê ser o único autorizado a ter acesso ao sagrado. Toda e qualquer manifestação do divino que não passe pelo crivo DELE (não dos parâmetros estabelecidos por Deus nas Escrituras, que fique claro) deve ser considerada espúria. Ele é o paradigma de toda espiritualidade.

No segundo caso, o indivíduo, assim como Josué, transfere a outro esta prerrogativa de ser o único mediador entre Deus e os homens.

O grande efeito colateral desta modalidade, que transforma um homem em poste-ídolo, é o sacrifício do senso crítico.

Certamente não faltará quem se aproveite disso.

Felizmente, Moisés estava imune a esta doença que, na verdade, é uma tentação.

"Tens tu ciúmes por mim"?

Imunizado pela alegria de ver o progresso do próximo no caminhar com Deus.

"Tomara todo o povo do SENHOR fosse profeta, que o SENHOR lhes desse o seu Espírito"!

Pentecostes cumpre o sonho de Moisés.

Aquele que não é vitimado pelo exclusivismo consegue enxergar longe.

Felizmente, Josué aprendeu.

Isto mostra que, realmente, não há mal que Deus não cure.


Especialmente os que estão associados ao mau uso de Seu nome.