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domingo, 10 de agosto de 2014

OLHAR PARA O TEMPLO OU OLHAR PARA A CRUZ?


"E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo"... (Mateus 27.50-51a)


Ao morrer na cruz, o Senhor Jesus completou a obra da redenção (Mc 10.45; Jo 19.30), trazendo consigo uma nova era de salvação para a humanidade.


O raiar desta nova era acarretou a obsolescência da antiga, que agora encontra seu cumprimento na cruz, o que é demonstrado com o rasgar do véu rasgado após a morte vicária de Cristo: o caminho para Deus estava aberto; não através da antiga liturgia da promessa, mas através da esperança cumprida na cruz.

Deus dera um passo adiante em Seu plano redentor na história, convidando a humanidade a acertar o passo com Ele, olhando para a cruz.


Acabava a era do templo; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que Deus faria de homens os Seus templos (Jo 14,23; 1Co 6.19).



Acabava a era de evocar a memória de Salomão; chegava o tempo de olhar para a cruz e contemplar Aquele que é maior que Salomão (Mt 12.42).

Acabava a era dos sacerdotes e do sumo-sacerdote; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que o Grande Sumo Sacerdote universalizaria o sacerdócio (Hb 4.14; 7.28; 1Pe 2.9).

Acabava a era dos levitas; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que todos os fiéis receberiam dons e seriam capacitados para o serviço (Ef 4.7-8).

Acabava a era da antiga liturgia; chegava o tempo de olhar para a cruz e contemplar o sentido e cumprimento dos antigos ritos, junto com a chegada da nova liturgia, em espírito e em verdade (Cl 2.16-17; Jo 4.20-23).

Acabava a era do local geográfico da adoração; chegava o tempo de olhar para a cruz e compreender que o Crucificado estaria entre dois ou três que invocassem Seu nome, em qualquer parte da Terra (Mt 18.20; Jo 4.20-23).

Acabava a era da adoração mediada por homens; chegava o tempo de olhar para a cruz e através dela relacionar-se diretamente com Deus (1Tm 2.5).

Acabava a era da antiga teocracia; chegava o tempo de olhar para a cruz e ver a realização do plano de Deus através de todas as etnias, desvinculado a qualquer estrutura de Estado (Gl 2.28).

Acabava a era dos sacrifícios, chegava o tempo olhar para a cruz e nela ver o verdadeiro sumo-sacerdote, o verdadeiro sacrifício, o verdadeiro Cordeiro e, assim, ter os pecados removidos (Jo 1.29; Hb 7.20-28). 

Acabava a era da Arca da Aliança (que já havia se perdido há muito); chegava o tempo olhar para a cruz e a ver nela a perfeita propiciação, onde Deus Se reconcilia com os homens (1Co 5.18-21; 1Jo 2.1-2).

Acabava a era da atuação restrita do Espírito Santo; chegava o tempo olhar para a cruz e receber o dom ilimitado do Espírito Santo (At 2.38-39; Ef 1.13).

Acabava a era da Antiga Aliança, chegava o tempo de olhar para a cruz e ver a Nova Aliança.

E você, está olhando para a cruz ou olhando para o templo?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

REAVALIANDO O SIMPLISMO EVANGÉLICO

O discurso evangélico é simplista. Enfatiza que somente (e apenas) Jesus é a solução para o problema humano. Sua tese, portanto, é a de que tudo que o homem necessita é receber Jesus Cristo.

Na verdade, este simplismo é verdadeiro e não há nada de errado com ele. Aliás, é bom quando o discurso evangélico consegue alcança tal grau de singeleza (2.ª aos Coríntios 11.3).

No século V Agostinho, definiu o mal como privação do bem. Sendo Deus o bem supremo, aproximar-se de Deus constitui-se na solução do problema ontológico e ético do ser humano, tanto individual quanto coletivamente.

Esta é a mensagem cristã: as pessoas precisam desesperadamente de Deus (ainda que não reconheçam) e Deus é acessível através de Cristo.

Simples, não?

Há uma crítica a ser feita, porém – não ao simplismo do discurso evangélico, mas à interpretação e aplicação simplista do discurso evangélico.

É absolutamente correto afirmar que receber a Jesus é a única e exclusiva solução do problema humano, MAS:

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus é compreendido apenas como uma alteração de hábitos religiosos;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus é desvinculado de sua dimensão ética;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus se torna um exercício de individualismo, não se prestando à formação do espírito de comunidade;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus é compreendido apenas como uma garantia de bem-aventurança pós-morte, sem a realidade da bem-aventurança presente;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus não é compreendido como o caminho para a formação de um ser humano melhor, em todos os aspectos de sua vida;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus gera alienação ao invés de emancipação;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus é compreendido como subserviência àqueles que falam em nome dEle, ao invés de compromisso ardoroso com a realização da vontade de Deus;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus não gera gratidão e misericórdia para com o próximo, mas bravatas orgulhosas;

...o problema humano não é solucionado quando o ato de receber Jesus não traz novidade de vida.

A Igreja evangélica não deve ter vergonha do simplismo da mensagem que prega (isto é positivo!) - mas se faz necessário discernimento para esta mesma mensagem não seja deturpada em algo simplório.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

ATENÇÃO! NÃO USE MAL A HISTÓRIA DE JOSÉ DO EGITO

A história de José (Gênesis 30.22-24; 37-50) é uma das mais belas e profundas de toda a Bíblia: cresceu em um lar conturbado, perdeu sua mãe ainda jovem, foi separado do amor de seu pai ao ser traído e vendido como escravo pelos próprios irmãos, jogado na prisão injustamente por causa de uma calúnia e, contra todas as probabilidades, graças aos dons que Deus lhe dera, tornou-se a segunda pessoa no governo do Egito, administrando a potência mais importante de sua época e sendo uma ferramenta fundamental para promover o bem-estar social e a preservação da família que o rejeitara, que constituía-se no núcleo embrionário da nação de Israel, de onde o Messias descenderia.

Todos nós temos relação com a história de José e temos muito a aprender com ele.

A maioria dos evangélicos, contudo, lêem esta história e mantém seu foco em apenas um evento: a chegada de José ao poder no Egito, formulando o seguinte princípio:

"Se Deus colocou um escravo no trono do Egito, fará o mesmo comigo".

É o que chamo de princípio da exaltação.

Eu não duvido de que Deus, em sua soberania, realmente abençoe pessoas de forma surpreendente, levando-as a, contra toda probabilidade humana, assumirem postos de extrema relevância na sociedade (Jó 42.2; Salmo 113.7-8; Daniel 4.35).

Me incomoda, porém, o simplismo, automatismo e generalização implícitos no chamado "princípio da exaltação", que se revela falso justamente por ignorar outros importantes fatos da história de José:

1. José possuía habilidade para assumir o cargo que Deus colocara sob sua responsabilidade: já demonstrara ser um exímio administrador na casa de seu pai (Gn 37.2-3, 13-14), na casa de Potifar (Gn 39.2-6), e mesmo na prisão (Gn 39.20-23). Era uma pessoa amável (preocupava-se em ser útil onde quer que estivesse) e de elevado compromisso ético (Gn 39.8-9). Ou seja, Deus não "exaltou" José apenas para recompensá-lo particularmente (e é somente isto que o  princípio da exaltação consegue visualizar: a "posição de destaque", que deve ser um pretenso elemento automático na vida de quem crê)  mas a história de José nos mostra que Deus coloca a pessoa certa no lugar certo. Deus não se comprazeria  com o sofrimento causado por uma pessoa inepta em uma posição de liderança e que lá estaria por ter sido supostamente "exaltada" por Ele - não o faça cúmplice de uma coisa destas! Ele não deixa de reconhecer os dons que Ele distribui para que o serviço (outra palavra que o "princípio da exaltação" desconhece) prestado ao próximo seja eficaz, bem como não deixa de reconhecer o esforço de servos dedicados que buscam aprimorar e usar seus talentos em Sua presença, alimentando a preguiça daqueles que esperam soluções mágicas e reivindicam "exaltações" automáticas.

Deus distribui dons diversos e vocações diversas - não é porque uma vocação se cumpre de forma "humilde" (ou seja, longe dos holofotes), que isto signifique que ela deixe de ter relevância ou seja menos "exaltada". 

2. José executou um serviço de extrema relevância para a sociedade de seu tempo: para José, "chegar no topo" não foi um fim em si mesmo, mas um meio para prestar um serviço relevante a Deus e à sociedade (Gn 41.46-49, 53-57)*, ou seja, uma oportunidade de ministério. Temo que o princípio da exaltação seja fixado em "lugares de destaque" como um fim em si mesmo, subordinado apenas aos interesses e á vaidade do indivíduo.  

3. José estava a serviço de um propósito maior: Deus não tem filhos mimados. Ele não exalta para massagear egos. A chegada de José ao poder servia aos propósitos redentores de Deus (Gn 50.20). A serviço de quê estão alguns projetos megalomaníacos gerados pelo princípio da exaltação?

A história de José é um incentivo para que não deixemos de cultivar nossos dons e talentos, para que não paremos de estudar, trabalhar e servir. Deus tem uma vocação para cada um de nós, a qual mesmo contra todas as probabilidades humanas Ele deseja cumprir. Devemos nos empenhar em ser as pessoas certas para Deus enviar ao lugares certos.

Que não mais leiamos a história de José para alimentar nosso individualismo e cobiça.

O segredo não é o posto de José. Mas aprender a ser como José.

______
*Faço uma ressalva, porém, no sentido de que a ação de José poderia ter sido um pouco mais criteriosa, pois (talvez de forma inconsciente) ele acabou fortalecendo o imperialismo de Faraó (Gn 47.13-26).

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CARTA ABERTA A UM LUTERO ANGUSTIADO


Tudo começou enquanto eu procurava uma figura para substituir o Spectreman (quem foi criança na década de 80, que entenda!) de minha área de trabalho.

Decidi procurar uma imagem relacionada à Reforma Protestante ou aos cinco Solas e me deparei com a charge acima.

Desconheço o autor da charge e o contexto de onde se originou. A leitura que eu faço da imagem me sugere um Lutero angustiado diante da fragmentação da Igreja em diferentes facções teológicas - e, ao meu ver, a angústia maior deste pensativo Lutero é que ele sente-se responsável pela confusão que está às suas costas.

Em parte até concordo que o Reformador de carne em osso teria compartilhariado, em certa medida, com os sentimentos que aparecem no desenho: Lutero pretendia reformar o catolicismo (já cindido desde o século XI), e não criar um novo segmento eclesiástico. Não creio, contudo, que ele teria chegado ao mesmo nível de desânimo representado na figura. 

Afinal, a grande questão que a charge levanta é: diante do quadro religioso que se desenvolveu nos últimos cinco séculos, valeu a pena a Reforma Protestante?

Respondo positivamente a esta pergunta - e gostaria de apresentar meu argumentos na forma de consolação, uma carta aberta a este Lutero angustiado.

"Caro irmão em Cristo:

Você se encontra angustiado, questionando o seu legado. Por favor, gostaria que você considerasse estas razões para você se reanimar e olhar de foema mais positiva o trabalho que fez em prol do Reino de Deus: 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque os riscos da liberdade sempre são preferíveis à falsa segurança da repressão.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque colocou a Bíblia nas mãos do povo - e mesmo que alguns façam mau uso dela, a culpa não é nem sua, e nem da Bíblia (além disso, se este argumento não te convencer, lembre-se que tem muita gente que ainda faz bom uso da Bíblia). 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque ainda que muita gente tenha se equivocado é sempre melhor alguém pensar e errar do que errar porque alguém pensou em seu lugar.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque alguns conceitos do cristianismo realmente possibilitam interpretações variadas  - e foi seu próprio discípulo, Melanchton, quem cunhou o lema máximo da Igreja para lidar com tais questões: 'Nas coisas necessárias, unidade; nas coisas incertas, liberdade; em todas as coisas, caridade'.

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque ainda que muitos, mesmo tendo a Bíblia em suas mãos, tenham se afastado da doutrina cristã ortodoxa (nem todas as falas que aparecem às suas costas se enquadram na regra de Melanchton e você sabe disso), assim o fizeram não por consequencia direta do espírito da Reforma, mas justamente por se afastarem do espírito da Reforma, que sempre enfatizava a centralidade de Cristo e das Escrituras. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque não foi a 'sua' reforma particular - o que ocorreu em 1517 foi a culminância de aspirações e sentimentos de várias gerações de cristãos que vieram antes de você e que também desejaram reaproximar a cristandade da Bíblia. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque além dos efeitos religiosos, ela foi também um movimento intelectual e econômico pujante, trazendo diversas contribuições à humanidade. 

Lutero, a Reforma Protestante valeu a pena apesar da cena às sua costas porque foi um movimento que conseguiu desburocratizar a fé, resgatando a simplicidade da mensagem cristã e reafirmando a dignidade de cada cristão com a Bíblia nas mãos, diante de Deus através de Cristo.

E meu caro Lutero, se nenhum destes argumentos te convencer, apresento um argumento tirado de meu tempo, do século XXI:

Nunca precisamos tanto de uma Reforma quanto hoje! A situação está feia, pior do que a cena que está às suas costas!

Espero que este último argumento, ao ressaltar a urgência do resgate de seu legado, demonstre de forma concomitante a importância mesmo, te convencendo de uma vez por todas a espantar o bode e se levantar dessa mesa.

Fraternalmente em Cristo, Vitor Gadelha".

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

SOBRE AS CARICATURAS TEOLÓGICAS

Dentro do cristianismo evangélico, existe um grande consenso acerca das doutrinas centrais (ou basilares) da fé.

Outras doutrinas periféricas (ou secundárias) não apresentam o mesmo nível de acordo - uma das razões pelas quais existem tantas denominações evangélicas: suas interpretações diferenciadas das doutrinas secundárias do cristianismo.

 Desta forma a igreja está dividida entre calvinistas e arminianos, pentecostais e não-pentecostais; cessacionistas e não-cessacionistas; congregacionais e episcopais; tricotomistas, dicotomistas e monistas; amilenistas, pré-milenistas e pós-milenistas; pré-tribulacionistas, pós-tribulacionistas e mid-tribulacionistas, etc.

Por que surgem tais diferenças? Bem, porque cada uma destas controvérsias teológicas dentro do cristianismo têm evidências bíblicas para sustentá-las, sendo necessário que  cada intérprete (e cada um de nós) pese bem as evidências em favor de cada hipótese e, dentro de um exercício de interpretação sadio da Escrituras, decida pela posição A ou B (não é possível sustentar o argumento relativista de que todas as posições estão certas - ainda que se tratem de assuntos periféricos, alguém chegou a uma interpretação mais adequada de determinado tema à luz das Escrituras, de forma que sua interpretação deva ser preferida diante de outras).

O diálogo entre os proponentes de cada posição não costuma ser muito proveitoso, especialmente no que tange a proporcionar uma visão clara do pensamento teológico do outro grupo: geralmente, a pessoa conhece uma visão distorcida da teologia de seu irmão, uma caricatura teológica. 

Todo posicionamento teológico possui sua razão de ser, sua lógica interna - da mesma forma cada um destes posicionamentos teológicos pode ser tão mal-compreendido (inclusive por aqueles que os defendem) que venha a possuir também sua própria caricatura, tanto no que diz respeito à sua lógica interna, quanto à sua aplicação prática.

E geralmente, dentro da igreja, não se conhece a teologia do outro, mas apenas sua caricatura. 

O exercício de análise teológica acaba sendo o de refutar caricaturas - que não existem.

Calvinistas não são fatalistas e nem libertinos em decorrência de sua crença na perseverança dos santos - quem assim pensa demonstra que não conhece a teologia calvinista.

Arminianos não negam a soberania de Deus, mas a explicam de outra forma - quem acha que os arminianos assim pensam demonstra desconhecimento da teologia remonstrante.

Pentecostais não são místicos irracionais - quem assim pensa demonstra desconhecer os pressupostos teológicos da paracletologia pentecostal, tirando suas conclusões a partir da observação de grupos isolados. 

Cristãos cessacionistas não são "frios" - tal comentário demonstra desconhecimento do alto apreço que este grupo possui pela suficiência das Escrituras.

Pedobatistas não são romanistas - pensa assim quem desconhece o pressuposto teológico destes irmãos, de que toda a Igreja (inclusive as crianças) são o povo da aliança do Senhor.

E por aí vai, existindo muitos outros exemplos de caricaturas teológicas.

Como eu já disse, não estou defendendo a ideia de que todas as posições teológicas estão certas (isto seria ilógico até, visto que, em muitos casos, A exclui B).

Mas creio que faz parte do aprimoramento teológico e humano do cristão conhecer bem a teologia - tanto a que ele defende quanto a que ele refuta, a fim de que sua fé e seu exercício de pensar a fé não esteja fundamentado em preconceitos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE A REVISTA VEJA DA SEMANA PASSADA: A REPORTAGEM SOBRE O SANTO SUDÁRIO

Sempre considerei o Sudário de Turim como um assunto indiferente para a fé cristã.

Não que eu o considere, a priori, como uma adulteração (isto ainda é assunto aberto à discussão científica, como demonstra a reportagem, que interage com o livro “O Sinal”, recém-lançado no Brasil, do historiador de arte inglês Thomas de Wesselow, que investiga as controvérsias científicas em torno do Sudário), mas porque considero que a credibilidade do Evangelho não repousa sobre a autenticidade do mesmo.

Ou seja, caso o Sudário seja autêntico, seria apenas mais uma evidência da veracidade histórica do Cristianismo; caso seja uma fraude, a autenticidade histórica do Cristianismo não fica comprometida por causa disto.

Mas desejo fazer algumas considerações acerca de algumas declarações surgidas no decorrer da reportagem que, embora não tratem da questão do Sudário em si, indicam uma abordagem falha ao próprio cristianismo, tanto do ponto de vista metodológico quanto conceitual:

• “O culto ao Santo Sudário ajudou o cristianismo a superar sua condição de seita minoritária confinada aos rincões do Império Romano para se transformar na maior religião do planeta” (pág. 127). O Novo Testamento desconhece tal “culto ao Santo Sudário” e não dá qualquer ênfase a relíquias.

• “Diz Wesselow: ‘já para os apóstolos o sudário foi tomado como a prova da Ressurreição de Cristo, e disso deriva sua extraordinária força de convencimento” (pág. 127). Errado! A força de convencimento que foi capaz de levar um grupo de discípulos imaturos, desanimados e amedrontados a enfrentar, com o custo de suas próprias vidas, o imperialismo romano foi o túmulo vazio o e o encontro com o Cristo ressurreto. “Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo” (1 Coríntios 15:3-8).

• “... afora os relatos de Flávio Josefo, historiador judeu do século I, ninguém dá notícia da existência do carpinteiro de Nazaré que morreu na cruz” (pág. 130). Novamente a resistência em considerar o Novo Testamento como um documento histórico, sendo que ele se constitui no documento mais bem preservado da Antiguidade, atestado por uma imensa quantidade de manuscritos (em quantidade maior que qualquer outro texto clássico) - uma grave falha do ponto de vista técnico e evidência de preconceito.

• "O assombro com a visão do manto fora tamanho que o fato de o corpo de Jesus estar ou não no túmulo é um mero detalhe. O autor afirma ainda que foi o sudário, e não Jesus Cristo ressuscitado, que apareceu para seus seguidores nas passagens bíblicas da ressurreição. Uma das cenas mais famosas é o encontro entre Jesus e o apóstolo Tomé. (...) Tomé, segundo o historiador inglês, não esteve diante do corpo de Jesus ressurreto, como creem os cristãos, mas diante das manchas vermelhas estampadas no linho de Turim” (págs. 132-134). Embora, neste trecho VEJA tenha apenas apresentado a tese do autor de “O Sinal”, não deixa de ser lastimável a conclusão a que chega Thomas de Wesselow: podemos crer no Sudário, mas não podemos crer no 4.º Evangelho – ou seja, João era mentiroso, Cristo não estava presente e Tomé, além de incrédulo, era burro!

Pois é... a reportagem de Páscoa de VEJA se constitui em um belo "ovo de Páscoa"... recheado de ceticismo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A INÚTIL FÉ


Debater religião é considerado algo inadequado nos dias atuais.

Em parte, isto ocorre não apenas pelo relativismo vigente que impõe a supremacia do “cada cabeça, uma sentença” (o que acaba tornando-se, ironicamente, em uma forma de absolutismo), mas pelo fato de que para muitas pessoas, a fé é algo inquestionável.

Nesta concepção, o exercício da fé torna uma pessoa isenta de ser indagada a respeito da validade de sua crença – o ato de crer justifica-se a si mesmo e a si mesmo se basta.

Logo, tudo o que importa é crer.

É a institucionalização dos versos de Herbert Viana: “A arte de viver da fé - Só não se sabe fé em quê”.

A contrapartida desta forma de pensar é a rejeição do debate religioso e o ostracismo para aqueles que questionam crenças.

O problema com esta concepção é que não é possível conceder tal autonomia ao ato de crer.

Não é a fé que valida a si mesma.

É objeto da fé que legitima o ato de crer.

Sem direcionar minha fé ao alvo certo, eu posso crer sinceramente... e viver sinceramente enganado.

Que resultados pode tal fé obter?

O ato de crer, dissociado de um objeto de fé que lhe conceda validade, é apenas credulidade.

Então, o segredo não está no ato de crer, mas em quê ou em quem creio.

È por isto que o convite do Evangelho não é para crer, simplesmente.

Mas é sempre um convite a crer em.

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida”. (João 5.24)

“Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (João 6.35).

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna” (João 6.47).

Para Jesus Cristo, a fé não é inquestionável, nem tampouco assunto de foro íntimo. 

Pelo contrário: porque a fé não pode existir de forma autônoma, e nem ser autojustificada, Jesus convoca pessoas a tornarem-nO o objeto de sua fé. .

E quando Jesus Cristo é o objeto da fé, este se torna o Senhor do ato de crer.

E na condição de Senhor do ato de crer, ele irá determinar como crer nEle – ou seja, o estilo de vida que a fé em Seu nome implicará.

Sim, pois não ignoro que existe também a credulidade voltada a Jesus Cristo – mas que, por ser insubmissa a Ele, é igualmente fútil e desqualificada.

E assim, sob (e somente) o senhorio de Cristo, a fé é qualificada (em ato, essência e vivência), podendo ser considerada o meio de vida do justo.

E agora podendo ser considerada um exercício útil.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

domingo, 30 de outubro de 2011

PESQUISA “TOP OF MIND” – VERSÃO GOSPEL


A Pesquisa “Top of Mind” é uma pesquisa de lembrança de marcas, tendo como objetivo detectar o índice de penetração de uma determinada marca através da análise da associação que o público faz de um produto com a marca.

A metodologia da pesquisa consiste na coleta de respostas espontâneas a perguntas sobre produtos (por exemplo, quando você pensa em um carro, qual a primeira marca que vem à sua mente? E em um chocolate? Um shampoo?), que perfazem um índice que é publicado anualmente.

Pois bem, gostaria de propor uma versão “gospel” para esta pesquisa:

Logo abaixo, estão sete figuras que selecionei – e quero que você responda sinceramente: qual destas sete figuras corresponde mais fielmente à primeira imagem mental que você tem ao ouvir a palavra “crente” ou “evangélico”?

O gabarito com o significado de cada figura está logo ao final (o que ajudará você a entender porque as selecionei) e você pode ajudar com suas sugestões para ampliar este gabarito, também.

As respostas que eu coletar formarão um índice.

Um índice que ajudará a avaliar se a Igreja tem sido bem ou  mal-sucedida em sua missão de ser sal da Terra e luz do mundo.


1



2
 


 3



 4



 5


 6



 7





GABARITO:


  1. Um povo explorado, manipulado por líderes religiosos inescrupulosos
  2. Uma religião proibitiva, com códigos de conduta severos, especialmente para as mulheres
  3. Um povo afeito a grandes eventos, com cunho midiático e político
  4. Uma religião pragmática, que anuncia um Deus que funciona quando o calo aperta
  5. Anti-catolicismo, tão somente
  6. Membros de igrejas oriundas da Reforma Protestante
  7.  “os Bíblias” – ou seja, um segmento do cristianismo que enfatiza a supremacia da Bíblia para pautar a crença e a vida





Que Deus nos ajude se a resposta número 7 estiver não estiver no topo deste "Top of Mind"!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

UMA ADVERTÊNCIA (ou algo que, creio eu, merece ser pensado com seriedade...)

 Conforme eu escrevi em outro artigo, “usos e costumes” é um assunto complexo no meio assembleiano.

Não raro, muitas pessoas defendem suas convicções nesta área (quase sempre assuntos relacionados à estética) sem conseguir apresentar respaldo bíblico claro para aquilo que defendem, sem um texto de prova, apelando para conceitos abstratos, sendo que a saída genérica clássica para encerrar a questão é simplesmente apresentar (sem explicar) o argumento de que “o crente tem que ser diferente”.

Preocupa-me que a falta de embasamento bíblico dos afoitos defensores dos “costumes tradicionais” possa simplesmente revelar o histórico preconceito social brasileiro como um elemento arraigado e cristalizado dentro da mentalidade da denominação.

Sim, pois a sociedade brasileira sempre foi uma sociedade preconceituosa – e algumas expressões corriqueiras do dia-a-dia demonstram isso:

Você já colocou em um currículo que possuía “boa aparência”? Esta é considerada uma clássica expressão máxima de preconceito social.

Você já pediu um corte de cabelo “social” ao cabelereiro? Isto sugere que os demais cortes são para quem: os anti-sociais ou aqueles que estão à margem da sociedade?

E a roupa social, então: a calça social, oposta à calça jeans, tida originalmente como roupa de transviado – e o mesmo ocorre na correlação entre o sapato social e o tênis.

Por que é tão comum chamarmos de “Doutor” quem não o é, de fato? Isto não revela a institucionalização de uma mentalidade voltada para a subserviência e adulação dos poderosos?

Promover uma sociedade homogênea é o mais eficiente meio de repressão, pois semeia a intolerância com o diferente – que deixa de ser reconhecido em seu direito de ser e cerceado em sua liberdade de questionamento.

Ou seja, é uma ferramenta muito eficaz para manutenção do status quo, atendendo aos interesses das elites sociais que o detém.

E estas expressões, que exemplificam o modo de pensar da homogenia e repressão, já são centenárias... assim como a maior denominação evangélica brasileira.

E eu me pergunto: o quanto desta forma de pensar, deste ethos, desta forma de ver o outro, foi absorvido (inconscientemente, até, como por osmose) pelas Assembleias de Deus?

Como já disse, uma perigosa maneira de pensar pode estar sutilmente escondida por detrás do discurso do tradicionalismo.

E eu me pergunto então: comprovaremos nosso compromisso com a Palavra de Deus aceitando o desafio de renovar nossa mentalidade?

"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."

Agostinho de Hipona

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

E POR FALAR NO DIA DO SEXO...


"Eis que és formosa, amiga minha, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas entre as tuas tranças, o teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gileade. Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas. Os teus lábios são como um fio de escarlata, e o teu falar é doce; a tua fronte é qual pedaço de romã entre {ou atrás do teu véu} as tuas tranças. O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para pendurar armas; mil escudos pendem dela, todos broquéis de valorosos. Os teus dois peitos são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios" (Cântico dos Cânticos 4.1-5).


O prazer sempre foi um tema problemático para a cristandade, devido a um histórico milenar de zelo sem entendimento.

Um dos exemplos mais clássicos disto é a alegorização (metaforização “espiritualizada”) que os teólogos (judeus e cristãos) aplicavam ao Cântico dos Cânticos, devido à sua dificuldade de aceitar a presença de um texto bíblico que exaltava o amor sexual – logo, o livro não deveria ser entendido literalmente, mas como uma metáfora do amor entre Deus e Israel ou e/ntre Cristo e a Igreja.

Os teólogos foram engenhosos para elaborar argumentos que justificassem a rejeição do sentido óbvio do texto. A Bíblia de Estudo Defesa da Fé apresenta alguns exemplos destas “pérolas” que foram utilizadas no passado para interpretação de Ct 4.5:

“O Targum (a tradição e a explicação em aramaico do Antigo Testamento)correlacionou dois peitos com dois Messias, ou com Moisés e Arão. Historicamente, os intérpretes cristãos ofereceram uma variedade de explicações. Alguns afirmaram que os dois seios se referiam aos dois Testamentos, alimentando espiritualmente a Igreja. Outra perspectiva correlacionou os seios com os mandamentos de amar a Deus e de amar uns aos outros. Uma terceira interpretação acreditava que os seios representavam o monte Ebal e o monte Gerizim (Dt 27.11-13), ao norte de Jerusalém, de onde as tribos israelitas proclamavam as maldições ou sanções do concerto”.

Ridículo.

O que me chamou mais a atenção, porém, é que mesmo o comentarista contemporâneo (Sheri L. Klouda) temeu o conteúdo sexual do texto sagrado e ofereceu uma interpretação tangenciada:

“É improvável que a menção aos seios tivesse o propósito especial de sugerir o apelo sexual da esposa ao homem, ainda que em uma interpretação literal: eles foram listados aqui justamente com outras características da esposa que impressionam igualmente o poeta (4.1-7). Somente nos tempos modernos os seios das mulheres têm uma conotação ‘sugestiva’ na cultura ocidental. Nos tempos antigos e medievais, eles eram símbolos de sua função: fornecer alimento”.

Ah, tá.

Quero ver como sustentar uma interpretação destas diante de textos como Ct 7.1-8 (e o versículo 6 deixa claro que Salomão enfatiza o aspecto estético/sensual) ou Pv 5.18-20 (comprove por você mesmo, leitor!).

A Biblia não tem os grilos dos teólogos!

A doutrina cristã compreende o amor sexual como uma dádiva generosa de Deus para o bem da espécie humana, a ser usufruído exclusivamente no matrimônio, de forma monogâmica: ou seja, dentro de uma aliança de amor e fidelidade, assumida diante de Deus e dos homens – que é a salvaguarda para evitar a “coisificação” do ser e da sexualidade. Por isso, a doutrina cristã repudia severamente a libertinagem (que, temo, seja o sentido da comemoração popular de 06 de setembro).

Todavia, é igualmente cristão e necessário afirmar, que a doutrina cristã repudia o recalque, mesmo que ele seja utilizado equivocada e amplamente por muitos cristãos como ferramenta para a promoção da santidade: sempre será uma ferramenta ineficaz.

Afinal, o recalque é incapaz tanto de promover a glória ao Criador de todas as coisas (inclusive do sexo) quanto a felicidade e consagração de Seus filhos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A “ESTADUNIZAÇÃO” DA FÉ

Em primeiro lugar, do título do artigo: me recuso a falar da “americanização” da fé porque a América somos nós – latinos e anglo-saxões e não apenas os ocupantes do país governado por Barak Obama.

Agora, quanto ao tema do artigo propriamente dito: temo que a compreensão e vivência da fé evangélica no Brasil esteja adquirindo algumas características (leia-se: vícios) do cristianismo norte-americano.

Em primeiro lugar, a visão política do segmento, estreitando-se em questões relacionadas ao aborto e à questão LGBSTT, tal como nossos vizinhos do hemisfério norte – não nego a importância do debate sério e cidadão sobre estes temas, mas preocupa-me o fato de que eles possam decidir eleições (uma tendência que os candidatos espertalhões vão saber aproveitar muito bem para angariar a simpatia do segmento) e de que a escolha de uma candidato possa ser feita tão somente com relação a seu posicionamento sobre estes temas, descartando a exigência idoneidade pessoal e da apresentação de um projeto político que abranja a promoção de cidadania e justiça social mais ampla e efetiva.

Em segundo lugar, preocupa-me a apologia do obscurantismo: os cristãos americanos são afoitos e obcecados com teorias de conspiração, mensagens subliminares, especulações escatológicas e coisas do gênero: ou seja, se promove a espiritualidade através da paranóia, através de um perigoso desprezo ao discernimento e uso do senso crítico como meio de crescimento espiritual.

E, finalmente, o crescimento do nominalismo evangélico também me preocupa e entristece: as estatísticas numéricas do evangelicalismo nos Estados Unidos são impressionantes – da mesma forma como o alardeado crescimento da Igreja brasileira: porém, de forma semelhante nos dois países, é alto o número sem compromisso com Deus e sem vida cristã, apesar de inscritas em um rol de igreja. O que explica este fenômeno? Arrisco dizer que este seja um subproduto da Teologia da prosperidade perversamente pregada em muitos recantos evangélicos do país, com uma metodologia de discipulado falha, formando consumidores e espectadores da fé – e não imitadores de Cristo.

Historicamente, somos consumidores, imitadores e admiradores de tudo o que vem do “primeiro mundo” – mas espero que, nos casos que citei agora, nosso povo não siga o exemplo do país de Tio Sam.