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quarta-feira, 27 de abril de 2016

SIGO A JESUS, E NÃO DOUTRINAS



A declaração “Sigo a Jesus, e não doutrinas” tem se tornado cada vez mais popular no meio evangélico dentro e fora do Brasil. “Cristianismo é relacionamento com Cristo, e não com um conjunto de doutrinas”, reforçam seus defensores.

Não podemos negar que o cristianismo envolve uma experiência pessoal de relacionamento com Cristo: Ele mesmo se compara à videira verdadeira que traz vida a seus discípulos, que são como varas ligadas a Ele. Paulo fala de si mesmo como um homem em Cristo.

Todavia, embora o slogan “Sigo a Jesus, e não doutrinas” pareça propor o devido resgate da dinâmica místico-relacional do cristianismo, esta ideia representa um risco nocivo para a Igreja: uma proposta de espiritualidade cristã esvaziada de seu conteúdo doutrinário! 

Pois que fundamento existe em opor a pessoa de Cristo ao ensino de Cristo? 

Não é possível ter um relacionamento com Cristo sem levar em consideração o que Cristo ensinou!

Nosso objetivo neste é demonstrar a falta de fundamentação bíblica desta reinterpretação contemporânea e cada vez mais popular da fé cristã, alertando à Igreja quanto a seu perigo.

1. O QUE SÃO DOUTRINAS?
Doutrina (gr. didaskalia) significa ensinamento. A expressão "doutrina cristã" significa que os seguidores de Cristo possuem um conjunto de ensinamentos que lhes foi transmitido e que se comprometem a observá-los, como expressão de sua fé.

O slogan “Sigo a Jesus, e não doutrinas” parece sugerir que Jesus não transmitiu ensinamentos a seus discípulos!

Existem duas espécies de doutrinas: as que ensinam os conteúdos da fé (em quê os cristãos crêem) e as que ensinam a vivência da fé (como os cristãos devem viver). O cristianismo se preocupa tanto com a ortodoxia (crença correta) quanto com a ortopraxia (prática correta). 

Veja dois exemplos:
  • "Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem." (1Co 15.20 - ensino da ortodoxia)
  • "Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor." (1Co 15.58 - ensino da ortopraxia)

As doutrinas também podem ser divididas entre si em mais dois grupos:

  • Doutrinas fundamentais da fé cristã: pontos essenciais da mensagem cristã, claramente explicitados pelo ensino das Escrituras, cuja negação consiste em rompimento com a fé cristã ortodoxa. Exemplos:
    • A inspiração e autoridade divina das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento;
    • A Trindade;
    • A realidade do pecado e a necessidade de redenção do homem;
    • A encarnação, morte salvadora e ressurreição de Jesus Cristo;
    • A salvação pela graça mediante a fé;
    • A Segunda Vinda de Cristo;
    • A ressurreição;
    • A vida eterna e o juízo eterno.
  • Doutrinas secundárias da fé cristã: pontos da mensagem cristã que não são abordados de maneira direta no ensino das Escrituras, dando margem a interpretações variadas, sendo assim considerados não-essenciais. Negar uma determinada interpretação de uma doutrina secundária não constitui rompimento com a fé cristã ortodoxa, mas rompimento com uma determinada linha teológica. Exemplos:
    • Formas diferentes de ministrar o batismo: aspersão, imersão, ablução;
    • Formas diferentes de compreender a constituição do homem: corpo + alma, corpo + espírito, corpo + alma + espírito;
    • Diferentes formas de compreender a ordem dos eventos finais.


Existem questões também que a Bíblia não fala de forma direta, havendo margem para debate e contextualização (questões de ordem litúrgica, por exemplo).

2. POR QUE ALGUNS SE OPÕEM A DOUTRINAS?

  • Questões culturais: a mentalidade pós-moderna é avessa à ideia de definir, preferindo relativizar a verdade;
  • Questões pessoais: pessoas que sofreram processo de doutrinação traumático, por parte de obreiros que não manejaram corretamente a Palavra de Deus (2Tm 2.15);
  • Questões teológicas: aqueles que creem, de fato, que o aspecto doutrinário do cristianismo é inexistente ou secundário.
3. AFINAL, DOUTRINAS SÃO IMPORTANTES? 

SIM!!

a. A fé está fundamentada na doutrina (1Co 15.3-11; Cl 1.23)
b. A ética depende da doutrina (Sl 119.1)
c. A igreja é chamada a preservar a doutrina (1Tm 3.15; 2Tm 2.2; Jd 3)
d. Não é possível evangelizar sem doutrina (Mt 28.18-20)

Você consegue imaginar as consequências de um "Cristianismo sem doutrina"?

Deus nos livre!

domingo, 10 de agosto de 2014

OLHAR PARA O TEMPLO OU OLHAR PARA A CRUZ?


"E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo"... (Mateus 27.50-51a)


Ao morrer na cruz, o Senhor Jesus completou a obra da redenção (Mc 10.45; Jo 19.30), trazendo consigo uma nova era de salvação para a humanidade.


O raiar desta nova era acarretou a obsolescência da antiga, que agora encontra seu cumprimento na cruz, o que é demonstrado com o rasgar do véu rasgado após a morte vicária de Cristo: o caminho para Deus estava aberto; não através da antiga liturgia da promessa, mas através da esperança cumprida na cruz.

Deus dera um passo adiante em Seu plano redentor na história, convidando a humanidade a acertar o passo com Ele, olhando para a cruz.


Acabava a era do templo; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que Deus faria de homens os Seus templos (Jo 14,23; 1Co 6.19).



Acabava a era de evocar a memória de Salomão; chegava o tempo de olhar para a cruz e contemplar Aquele que é maior que Salomão (Mt 12.42).

Acabava a era dos sacerdotes e do sumo-sacerdote; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que o Grande Sumo Sacerdote universalizaria o sacerdócio (Hb 4.14; 7.28; 1Pe 2.9).

Acabava a era dos levitas; chegava o tempo de olhar para a cruz e descobrir que todos os fiéis receberiam dons e seriam capacitados para o serviço (Ef 4.7-8).

Acabava a era da antiga liturgia; chegava o tempo de olhar para a cruz e contemplar o sentido e cumprimento dos antigos ritos, junto com a chegada da nova liturgia, em espírito e em verdade (Cl 2.16-17; Jo 4.20-23).

Acabava a era do local geográfico da adoração; chegava o tempo de olhar para a cruz e compreender que o Crucificado estaria entre dois ou três que invocassem Seu nome, em qualquer parte da Terra (Mt 18.20; Jo 4.20-23).

Acabava a era da adoração mediada por homens; chegava o tempo de olhar para a cruz e através dela relacionar-se diretamente com Deus (1Tm 2.5).

Acabava a era da antiga teocracia; chegava o tempo de olhar para a cruz e ver a realização do plano de Deus através de todas as etnias, desvinculado a qualquer estrutura de Estado (Gl 2.28).

Acabava a era dos sacrifícios, chegava o tempo olhar para a cruz e nela ver o verdadeiro sumo-sacerdote, o verdadeiro sacrifício, o verdadeiro Cordeiro e, assim, ter os pecados removidos (Jo 1.29; Hb 7.20-28). 

Acabava a era da Arca da Aliança (que já havia se perdido há muito); chegava o tempo olhar para a cruz e a ver nela a perfeita propiciação, onde Deus Se reconcilia com os homens (1Co 5.18-21; 1Jo 2.1-2).

Acabava a era da atuação restrita do Espírito Santo; chegava o tempo olhar para a cruz e receber o dom ilimitado do Espírito Santo (At 2.38-39; Ef 1.13).

Acabava a era da Antiga Aliança, chegava o tempo de olhar para a cruz e ver a Nova Aliança.

E você, está olhando para a cruz ou olhando para o templo?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

SOBRE AS CARICATURAS TEOLÓGICAS

Dentro do cristianismo evangélico, existe um grande consenso acerca das doutrinas centrais (ou basilares) da fé.

Outras doutrinas periféricas (ou secundárias) não apresentam o mesmo nível de acordo - uma das razões pelas quais existem tantas denominações evangélicas: suas interpretações diferenciadas das doutrinas secundárias do cristianismo.

 Desta forma a igreja está dividida entre calvinistas e arminianos, pentecostais e não-pentecostais; cessacionistas e não-cessacionistas; congregacionais e episcopais; tricotomistas, dicotomistas e monistas; amilenistas, pré-milenistas e pós-milenistas; pré-tribulacionistas, pós-tribulacionistas e mid-tribulacionistas, etc.

Por que surgem tais diferenças? Bem, porque cada uma destas controvérsias teológicas dentro do cristianismo têm evidências bíblicas para sustentá-las, sendo necessário que  cada intérprete (e cada um de nós) pese bem as evidências em favor de cada hipótese e, dentro de um exercício de interpretação sadio da Escrituras, decida pela posição A ou B (não é possível sustentar o argumento relativista de que todas as posições estão certas - ainda que se tratem de assuntos periféricos, alguém chegou a uma interpretação mais adequada de determinado tema à luz das Escrituras, de forma que sua interpretação deva ser preferida diante de outras).

O diálogo entre os proponentes de cada posição não costuma ser muito proveitoso, especialmente no que tange a proporcionar uma visão clara do pensamento teológico do outro grupo: geralmente, a pessoa conhece uma visão distorcida da teologia de seu irmão, uma caricatura teológica. 

Todo posicionamento teológico possui sua razão de ser, sua lógica interna - da mesma forma cada um destes posicionamentos teológicos pode ser tão mal-compreendido (inclusive por aqueles que os defendem) que venha a possuir também sua própria caricatura, tanto no que diz respeito à sua lógica interna, quanto à sua aplicação prática.

E geralmente, dentro da igreja, não se conhece a teologia do outro, mas apenas sua caricatura. 

O exercício de análise teológica acaba sendo o de refutar caricaturas - que não existem.

Calvinistas não são fatalistas e nem libertinos em decorrência de sua crença na perseverança dos santos - quem assim pensa demonstra que não conhece a teologia calvinista.

Arminianos não negam a soberania de Deus, mas a explicam de outra forma - quem acha que os arminianos assim pensam demonstra desconhecimento da teologia remonstrante.

Pentecostais não são místicos irracionais - quem assim pensa demonstra desconhecer os pressupostos teológicos da paracletologia pentecostal, tirando suas conclusões a partir da observação de grupos isolados. 

Cristãos cessacionistas não são "frios" - tal comentário demonstra desconhecimento do alto apreço que este grupo possui pela suficiência das Escrituras.

Pedobatistas não são romanistas - pensa assim quem desconhece o pressuposto teológico destes irmãos, de que toda a Igreja (inclusive as crianças) são o povo da aliança do Senhor.

E por aí vai, existindo muitos outros exemplos de caricaturas teológicas.

Como eu já disse, não estou defendendo a ideia de que todas as posições teológicas estão certas (isto seria ilógico até, visto que, em muitos casos, A exclui B).

Mas creio que faz parte do aprimoramento teológico e humano do cristão conhecer bem a teologia - tanto a que ele defende quanto a que ele refuta, a fim de que sua fé e seu exercício de pensar a fé não esteja fundamentado em preconceitos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

E POR FALAR NO DIA DO SEXO...


"Eis que és formosa, amiga minha, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas entre as tuas tranças, o teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gileade. Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas. Os teus lábios são como um fio de escarlata, e o teu falar é doce; a tua fronte é qual pedaço de romã entre {ou atrás do teu véu} as tuas tranças. O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para pendurar armas; mil escudos pendem dela, todos broquéis de valorosos. Os teus dois peitos são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios" (Cântico dos Cânticos 4.1-5).


O prazer sempre foi um tema problemático para a cristandade, devido a um histórico milenar de zelo sem entendimento.

Um dos exemplos mais clássicos disto é a alegorização (metaforização “espiritualizada”) que os teólogos (judeus e cristãos) aplicavam ao Cântico dos Cânticos, devido à sua dificuldade de aceitar a presença de um texto bíblico que exaltava o amor sexual – logo, o livro não deveria ser entendido literalmente, mas como uma metáfora do amor entre Deus e Israel ou e/ntre Cristo e a Igreja.

Os teólogos foram engenhosos para elaborar argumentos que justificassem a rejeição do sentido óbvio do texto. A Bíblia de Estudo Defesa da Fé apresenta alguns exemplos destas “pérolas” que foram utilizadas no passado para interpretação de Ct 4.5:

“O Targum (a tradição e a explicação em aramaico do Antigo Testamento)correlacionou dois peitos com dois Messias, ou com Moisés e Arão. Historicamente, os intérpretes cristãos ofereceram uma variedade de explicações. Alguns afirmaram que os dois seios se referiam aos dois Testamentos, alimentando espiritualmente a Igreja. Outra perspectiva correlacionou os seios com os mandamentos de amar a Deus e de amar uns aos outros. Uma terceira interpretação acreditava que os seios representavam o monte Ebal e o monte Gerizim (Dt 27.11-13), ao norte de Jerusalém, de onde as tribos israelitas proclamavam as maldições ou sanções do concerto”.

Ridículo.

O que me chamou mais a atenção, porém, é que mesmo o comentarista contemporâneo (Sheri L. Klouda) temeu o conteúdo sexual do texto sagrado e ofereceu uma interpretação tangenciada:

“É improvável que a menção aos seios tivesse o propósito especial de sugerir o apelo sexual da esposa ao homem, ainda que em uma interpretação literal: eles foram listados aqui justamente com outras características da esposa que impressionam igualmente o poeta (4.1-7). Somente nos tempos modernos os seios das mulheres têm uma conotação ‘sugestiva’ na cultura ocidental. Nos tempos antigos e medievais, eles eram símbolos de sua função: fornecer alimento”.

Ah, tá.

Quero ver como sustentar uma interpretação destas diante de textos como Ct 7.1-8 (e o versículo 6 deixa claro que Salomão enfatiza o aspecto estético/sensual) ou Pv 5.18-20 (comprove por você mesmo, leitor!).

A Biblia não tem os grilos dos teólogos!

A doutrina cristã compreende o amor sexual como uma dádiva generosa de Deus para o bem da espécie humana, a ser usufruído exclusivamente no matrimônio, de forma monogâmica: ou seja, dentro de uma aliança de amor e fidelidade, assumida diante de Deus e dos homens – que é a salvaguarda para evitar a “coisificação” do ser e da sexualidade. Por isso, a doutrina cristã repudia severamente a libertinagem (que, temo, seja o sentido da comemoração popular de 06 de setembro).

Todavia, é igualmente cristão e necessário afirmar, que a doutrina cristã repudia o recalque, mesmo que ele seja utilizado equivocada e amplamente por muitos cristãos como ferramenta para a promoção da santidade: sempre será uma ferramenta ineficaz.

Afinal, o recalque é incapaz tanto de promover a glória ao Criador de todas as coisas (inclusive do sexo) quanto a felicidade e consagração de Seus filhos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

MINHA HOMENAGEM A JOHN STOTT

Faleceu hoje, aos 90 anos um dos maiores teólogos cristãos em atividade: o anglicano John Stott.

Conheci suas obras no início da década, quando cursava o seminário.

A cruz de Cristo, Crer também é pensar, os comentários bíblicos, Ouça o Espírito, ouça o mundo... são muitas obras valiosíssimas que ele deixa como legado - isto sem mencionar sua participação no Pacto de Lausanne, em 1974.

Como posso descrever sua influência e relevância?

O farei de duas formas:

1. Stott é um autor que sabe, como poucos (à semelhança de Russel Shedd no Brasil), combinar a erudição e a piedade em seus escritos, de forma que consegue tratar de temas teológicos profundos com rigor acadêmico e devocional, proporcionando uma leitura instigante e desafiadora.

2. Meu testemunho pessoal: 

depois da Bíblia, "O Perfil do Pregador" foi o livro que mais me marcou. Ainda tremo diante da solene análise que Stott faz da figura e do dever do pregador! Sem dúvida, esta leitura ampliou meu entendimento e reverência quanto ao ministério da pregação. Os frutos de meu ministério estão diretamente ligados ao ministério de John Stott.

De forma que minha homenagem a John Stott ficará registrada na forma de um clamor:

Ministros do Evangelho, leiam John Stott!

Teólogos do Brasil, leiam John Stott!

Jovens pregadores, leiam John Stott!

Pois como afirma a Palavra de Deus: "Quem anda com os sábios será sábio, mas quem anda com os tolos acabará mal." (Provérbios 13.20 - Nova Tradução na Linguagem de Hoje).
______
PS: Quero fazer também manifesto meu agradecimento aos ,eus professores do Seminário Teológico Batista do Sudeste do Brasil (em especial, o Pr. Sérgio Wesley), que me apresentaram este grande homem de Deus, através de seus livros.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SOU FUNDAMENTALISTA? SIM E NÃO

Considero-me um cristão fundamentalista porque creio que o cristianismo possui princípios e crenças fundamentais, ou seja, cuja negação teria como conseqüência a adulteração do próprio cristianismo.

Como fundamentos da fé cristã posso mencionar a existência triúna (Pai, Filho e Espírito Santo) do Deus Onipotente, Onipresente, Onisciente e Onibenevolente, criador do universo e de toda a vida; Sua auto-revelação proposicional e histórica de através de Sua Palavra inspirada e inerrante; a pecaminosidade do gênero humano, fruto da Queda histórica dos progenitores da humanidade; a obra salvadora de Cristo (iniciada no tempo, consumada na eternidade), efetuada através da Encarnação (nascimento virginal), morte expiatória, ressurreição, ascensão, concessão do Espírito Santo aos que crêem, Ascenção e Segunda Vinda; a salvação pela graça mediante a fé; a realidade da Igreja como comunidade de pecadores redimidos em missão; a existência de seres espirituais hostis a Deus e à humanidade.

Historicamente, a expressão “fundamentalista” se deriva do início do século XX, onde teólogos da Igreja decidiram reafirmar os fundamentos da fé cristã em oposição ao avanço da teologia liberal/secularizada nas igrejas e seminários.

Em contrapartida, não me considero um cristão fundamentalista por não me identificar com o chamado movimento fundamentalista, desenvolvido posteriormente.

O movimento fundamentalista elenca algumas ênfases doutrinárias particulares (geralmente relacionadas a temas teológicos que permitem um leque de discussão/interpretação mais amplo) e as eleva ao mesmo nível dos fundamentos citados acima, recriminando os que não crêem da mesma forma.

Neste sentido, não sou fundamentalista por vários motivos:

Não sou fundamentalista porque discordo da teologia dispensacionalista.

Não sou fundamentalista porque creio na contemporaneidade de todos os dons espirituais.

Não sou fundamentalista porque não considero que a Bíblia Almeida na versão Revista e Corrigida Fiel (ou a Bíblia King James em inglês) seja a única tradução da Bíblia legítima.

Não sou fundamentalista porque consigo contemplar alguém entoando cânticos de louvor que firam meu gosto musical em particular e ainda assim considerá-lo meu irmão.

Não sou fundamentalista porque creio que, usando discernimento, posso aprender até com aqueles de quem discordo.

Não sou fundamentalista porque não creio que Deus se materializou em alguma ideologia política específica – de direita ou de esquerda.

Não sou fundamentalista porque discordo da práxis social desenvolvida pelas igrejas fundamentalistas (quando falo isto, penso na segregação produzida pelas igrejas dos Estados Unidos).
 
Não sou fundamentalista porque não creio que a verborragia raivosa dos manifestos fundamentalistas seja um instrumento eficaz de evangelização.
 
Não sou fundamentalista porque admito que não tenho todas as respostas a todos os mistérios da fé – sabendo que Deus, em sua sabedoria, optou por não nos revelar tudo, mas somente o que é fundamental. É com base nestes fundamentos que caminho na fé e discirno os membros da família de Cristo.
 
E, finalmente, não sou fundamentalista porque sei que não posso limitar o Corpo de Cristo à minha concepção particular do cristianismo – pois isto implicaria em considerar como irmão apenas aquele que é igual a mim.

sábado, 23 de abril de 2011

PENSE NISSO: "A VISÃO CLÍNICA DA CRUCIFICAÇÃO", POR HERMES C. FERNANDES



"Jesus entrou em agonia no Getsemani e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra". O único evangelista que relata o fato é um médico, Lucas. E o faz com a precisão de um clínico.

O suar sangue, ou "hematidrose", é um fenômeno raríssimo. É produzido em condições excepcionais: para provocá-lo é necessário uma fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo.

O terror, o susto, a angústia terrível de sentir-se carregando todos os pecados dos homens devem ter esmagado Jesus. Tal tensão extrema produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele, e então escorre por todo o corpo até a terra.

Conhecemos a farsa do processo preparado pelo Sinédrio hebraico, o envio de Jesus a Pilatos e o desempate entre o procurador romano e Herodes. Pilatos cede, e então ordena a flagelação de Jesus. Os soldados despojam Jesus e o prendem pelo pulso a uma coluna do pátio. A flagelação se efetua com tiras de couro múltiplas sobre as quais são fixadas bolinhas de chumbo e de pequenos ossos.

Os carrascos devem ter sido dois, um de cada lado, e de diferentes estaturas. Golpeiam com chibatadas a pele, já alterada por milhões de microscópicas hemorragias do suor de sangue.

A cada golpe Jesus reage tendo um sobressalto de dor

A pele se dilacera e se rompe; o sangue espirra. A cada golpe Jesus reage em um sobressalto de dor. As forças se esvaem; um suor frio lhe impregna a fronte, a cabeça gira em uma vertigem de náusea, calafrios lhe correm ao longo das costas. Se não estivesse preso no alto pelos pulsos, cairia em uma poça de sangue. Depois vem o escárnio da coroação. Com longos espinhos, mais duros que os de acácia, os algozes entrelaçam uma espécie de capacete e o aplicam sobre a cabeça. Os espinhos penetram no couro cabeludo fazendo-o sangrar (os cirurgiões sabem o quanto sangra o couro cabeludo). Pilatos, depois de ter mostrado aquele homem dilacerado à multidão feroz, o entrega para ser crucificado. Colocam sobre os ombros de Jesus o grande braço horizontal da cruz; pesa uns cinqüenta quilos.

A estaca vertical já está plantada sobre o calvário. Jesus caminha com os pés descalços pelas ruas de terreno irregular, cheias de pedregulhos. Os soldados o puxam com as cordas. O percurso, é de cerca de 600 metros. Jesus, fatigado, arrasta um pé após o outro, freqüentemente cai sobre os joelhos. E os ombros de Jesus estão cobertos de chagas. Quando ele cai por terra, a viga lhe escapa, escorrega, e lhe esfola o dorso. Sobre o Calvário tem início a crucificação. Os carrascos despojam o condenado, mas a sua túnica está colada nas chagas e tirá-la produz dor atroz. Quem já tirou uma atadura de gaze de uma grande ferida percebe do que se trata.

O fio de tecido adere à carne viva

Cada fio de tecido adere à carne viva: ao arrancarem a túnica, se laceram as terminações nervosas postas em descoberto pelas chagas. Os carrascos dão um puxão violento. Há um risco de toda aquela dor provocar uma síncope, mas ainda não é o fim. O sangue começa a escorrer.

Quando é deitado de costas, as suas chagas se incrustam de pedras e pedregulhos. Depositam-no sobre o braço horizontal da cruz. Os algozes tomam as medidas. Com uma broca, é feito um furo na madeira para facilitar a penetração dos pregos. Os carrascos pegam um prego (um longo prego pontudo e quadrado), apoiam-no sobre o pulso de Jesus, com um golpe certeiro de martelo o plantam e o rebatem sobre a madeira. Jesus deve ter contraído o rosto assustadoramente. O nervo mediano foi lesado.

Pode-se imaginar aquilo que Jesus deve ter provado; uma dor lancinante, agudíssima, que se difundiu pelos dedos, e espalhou-se pelos ombros, atingindo o cérebro. A dor mais insuportável que um homem pode provar, ou seja, aquela produzida pela lesão dos grandes troncos nervosos: provoca uma síncope e faz perder a consciência. Em Jesus não. O nervo é destruído só em parte: a lesão do tronco nervoso permanece em contato com o prego: quando o corpo for suspenso na cruz, o nervo se esticará fortemente como uma corda de violino esticada sobre a cravelha. A cada solavanco, a cada movimento, vibrará despertando dores dilacerantes. Um suplício que durará três horas. O carrasco e seu ajudante empunham a extremidade da trava; elevam Jesus, colocando-o primeiro sentado e depois em pé; conseqüentemente fazendo-o tombar para trás, o encostam na estaca vertical. Depois rapidamente encaixam o braço horizontal da cruz sobre a estaca vertical. Os ombros da vítima esfregam dolorosamente sobre a madeira áspera. As pontas cortantes da grande coroa de espinhos penetram o crânio. A cabeça de Jesus inclina-se para a frente, uma vez que o diâmetro da coroa o impede de apoiar-se na madeira. Cada vez que o mártir levanta a cabeça, recomeçam pontadas agudas de dor. Pregam-lhe os pés. Ao meio-dia Jesus tem sede. Não bebe desde a tarde anterior. Seu corpo é uma máscara de sangue. A boca está semi-aberta e o lábio inferior começa a pender. A garganta, seca, lhe queima, mas ele não pode engolir. Tem sede.

Tudo aquilo é uma tortura atroz

Um soldado lhe estende sobre a ponta de uma vara, uma esponja embebida em bebida ácida, em uso entre os militares. Ele não bebe. Tudo aquilo é uma tortura atroz. Um estranho fenômeno se produz no corpo de Jesus. Os músculos dos braços se enrijecem em uma contração que vai se acentuando: os deltóides, os bíceps esticados e levantados, os dedos, se curvam. É como acontece a alguém ferido de tétano. A isto que os médicos chamam tetania, quando os sintomas se generalizam: os músculos do abdomen se enrijecem em ondas imóveis, em seguida aqueles entre as costelas, os do pescoço, e os respiratórios. A respiração se faz, pouco a pouco mais curta. O ar entra com um sibilo, mas não consegue mais sair. Jesus respira com o ápice dos pulmões. Tem sede de ar: como um asmático em plena crise, seu rosto pálido pouco a pouco se torna vermelho, depois se transforma num violeta purpúreo e enfim em cianítico. Jesus é envolvido pela asfixia.

Os pulmões cheios de ar não podem mais esvaziar-se. A fronte está impregnada de suor, os olhos saem fora de órbita.

Mas o que acontece? Lentamente com um esforço sobre-humano, Jesus toma um ponto de apoio sobre o prego dos pés. Esforça-se a pequenos golpes, se eleva aliviando a tração dos braços. Os músculos do tórax se distendem. A respiração torna-se mais ampla e profunda, os pulmões se esvaziam e o rosto recupera a palidez inicial.

Por que este esforço? Porque Jesus quer falar: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

Logo em seguida o corpo começa a afrouxar-se de novo, e a asfixia recomeça. Foram transmitidas sete frases pronunciadas por ele na cruz: cada vez que quer falar, deverá elevar-se tendo como apoio o prego dos pés. Inimaginável!

Atraídas pelo sangue que ainda escorre e pelo coagulado, enxames de moscas zunem ao redor do seu corpo, mas ele não pode enxotá-las. Pouco depois o céu escurece, o sol se esconde: de repente a temperatura diminui. Logo serão três da tarde, depois de uma tortura que dura três horas. Todas as suas dores, a sede, as câibras, a asfixia, o latejar dos nervos medianos, lhe arrancam um lamento: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?". Jesus grita: "Tudo está consumado!". Em seguida num grande brado diz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". E morre. Em meu lugar e no seu".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SOBRE O SEXO DOS ANJOS - E DOS DEMÔNIOS

Em sua grande maioria , os teólogos cristãos ao longo dos séculos têm considerado os anjos como seres assexuados (baseados principalmente na declaração de Jesus em Mateus 22.30), com raras exceções apenas entre aqueles que interpretam como anjos os "filhos de Deus" que desejaram as mulheres da Terra mencionados em Gênesis 6.
 
É interessante ver, porém, que a mesma lógica não foi aplicada pelos teólogos para falar acerca dos anjos caídos: os demônios.

Aplicando o mesmo princípio lógico por extensão, os demônios também são seres assexuados. 

Todavia, os demônios não foram compreendidos assim nem no imaginário popular (que apresenta as figuras do incúbo e do súcubo, demônios responsáveis por seduzir mulheres e homens respectivamente, por exemplo) e nem pelos teólogos: durante o período de caça às bruxas, uma das acusações mais comuns impostas àquelas mulheres era a de manter relações sexuais com demônios.

Muitas realmente "confessavam" terem praticado o ato, sob tortura atroz.

Ou seja, para tais teólogos, anjo não transa; mas demônio, sim.

Como isto seria possível à luz da própria teologia que estes homens sustentavam, pergunto eu?

Temo que esta incoerência não se deu apenas porque eles não leram as palavras de Jesus em Mateus 22.30.

Temo que  os teólogos assim pensavam por associarem, inconscientemente, a sexualidade à Queda.

Os anjos caídos teriam se tornarado seres sexuados como consequência da perca de seu estado original de graça após terem se rebelado contra Deus.

Ou seja, sexualidade e graça se excluem.
Mais um testemunho triste e lamentável de como a cristandade tem tido dificuldades de lidar com sua própria sexualidade. 

O Evangelho não deve ser responsabilizado por esta forma de pensar - não há nada  na doutrina cristã que sugira tal forma de pensar.

A responsabilidade cabe aos cristãos que abordaram o assunto de forma não-cristã.

Cabe à geração contemporânea corrigir este e outros erros históricos da Igreja, através de uma teologia pautada na Palavra de Deus, e não em especulações humanas. 

Com muita urgência, a fim de que não seja tolhida a vivência plena das bênçãos prometidas pelo Salvador que prometeu que Sua palavra  traria vida - e não a dos homens.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A LONGA DISTÂNCIA QUE SEPARA PROMETEU DE SATANÁS

O mito de Prometeu nos conta acerca de um titã que, compadecido da humanidade que criara, resolve conceder a ela o fogo, furtando-o dos deuses do Olimpo, que até então o reservavam apenas para si.

O castigo imposto pelos deuses por tal sacrilégio foi terrível: Prometeu seria acorrentado ao monte Cáucaso por 30000 anos e diariamente teria seu fígado devorado por uma ave de rapina e recomposto após o suplício, para sua repetição no dia seguinte.

Esta história atravessou as gerações e fez com que Prometeu fosse considerado o perfeito exemplo de um legítimo de filantropo, devido ao seu empenho em promover o bem-estar geral da humanidade.

Algumas pessoas tentam traçar um paralelo entre Prometeu e Satanás.

Apontam para o relato da tentação em Gênesis 3 e questionam: seria o argumento utilizado  por Satã ("Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal", Gênesis 3.5) uma prova de amizade para com a humanidade? Não estaria Satanás interessado em democratizar o acesso a um poder que a divindade restringia egoisticamente para Si mesma?

A idealização de Satanás como um símbolo libertário e emancipatório para o homem constitui-se na base de boa parte daquilo que tem se chamado "satanismo" hoje.

Ou seja, o diabo se tornou "cool".

É pena que aqueles que assim pensam não percebam a grande falha de seu raciocínio: é impossível traçar um paralelo entre Prometeu e Satanás porque o Deus contra o qual Satanás se rebelou não pode ser comparado às divindades lendárias do Olimpo.

Os deuses da mitologia grega são seres imorais e caprichosos em seu trato com a humanidade. Eu odiaria os deuses do Olimpo.

O Deus contra o qual Satanás se rebelou é santo e perfeito em seu caráter. Além de ser Todo-Sapiente, Todo-Presente e Todo-poderoso, é Todo-Amoroso.

O ato da tentação demonstra justamente a má-fé de Satanás para com os homens,  ao afastá-los de seu Bem Supremo - principalmente no que diz respeito a seu argumento utilizado, que foi mentiroso.
Ou alguém aí sente-se um deus?

E colhemos até hoje todos os prejuízos causados pela ação de Satanás contra a humanidade...

Belo filantropo...

Creio que o que leva alguém a fazer uma leitura “filantrópica” da pessoa de Satanás seja o velho preconceito que considera o Evangelho sinônimo de repressão – um argumento que cairia por terra se seus proponentes conhecessem o Evangelho e sua obra de libertação e emancipação humana!

Comprovam a veracidade do que estou dizendo qualquer pessoa que já teve uma experiência de transitar do Reino e obra das trevas para o Reino de Deus. 

Elas podem, sim, afirmar, onde foi que encontraram o verdadeiro Filantropo - que as amou e lhes fez bem - pois comprovaram a diferença!  

sábado, 25 de dezembro de 2010

RENATO RUSSO TINHA RAZÃO - Uma reflexão de Natal

Com esta afirmação, não me refiro a todas as canções que ele escreveu, seja com a Legião Urbana ou em sua carreira solo.

Obviamente, não me refiro também ao estilo de vida que ele levou.

Sequer penso em uma canção completa.

Refiro-me apenas a uma frase, um dos versos de “Há Tempos”.

“Nem os santos têm ao certo a medida da maldade”.

Sempre achei que esta frase era perfeitamente aplicável ao contexto da Igreja.

A princípio, ao acompanhar  o processo de revisão de usos e costumes dentro da denominação a que pertenço (um processo necessário, para o bem da integridade teológica e intelectual da denominação - e qualquer um que já tenha presenciado a esterilidade de uma discussão sobre usos e costumes travada entre evangélicos sabe que não estou exagerando!), relacionei-a ao argumento dos tradicionalistas: parecia que os santos estavam perdendo os paradigmas da maldade, ao abrir mão das regras pré-estabelecidas acerca de santidade.

Todavia, diante da complexidade do problema do pecado enquanto realidade humana, corrompendo tudo aquilo que o homem faz e é, descobri que a frase tinha um poder e uma profundidade ainda maior - posto que verdadeira.

Qualquer um que tenha se quedado atônito diante da própria pecaminosidade sabe do que estou falando.

A pecaminosidade humana é um problema tão profundo (ou melhor, nos torna um problema tão profundo) que não pode ser tratado de maneira banal, como uma simples mensuração - e é esta a estratégia dos fariseus: acreditar que a problemática humana pode ser resolvida através de regras e ritos.

E a história da Igreja atesta que os homens mais piedosos e consagrados a Deus eram sempre os mais sensíveis e cônscios de sua própria pecaminosidade, uma percepção que aumentava na mesma medida em que cresciam na fé.

Neste sentido, os santos nunca conseguirão ter ao certo a medida da maldade - pois sabem estar diante de um inimigo terrível!

Só podem orar como Davi:

“Quem pode entender os próprios erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” (Salmo 19.12).

É somente com a percepção da própria decadência que podemos compreender e apreciar a obra salvadora de Cristo, da manjedoura até a cruz, de maneira apropriada.

Sim, pois em caso contrário, “Salvação” torna-se um termo vazio!

É esta a percepção do Natal feita pelos autojustificados...

Isto é o Natal: para grandes pecadores, fez-se NECESSÁRIO o nascimento de um grande Salvador!

E assim, com gratidão pela provisão que o Natal significa, propiciada pela posse de seu significado, podemos celebrá-lo de forma realmente feliz.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

BÍBLIA COMPARATIVA, A MINHA BÍBLIA


Como é característico de um país que goza de liberdade religiosa, é fácil ter acesso à Bíblia no Brasil – e o mercado encontra-se saturado delas, em diferentes versões e encadernações, além da “Bíblias de Estudo”, que trazem recursos variados junto ao texto (em geral, mapas, tabelas, gráficos, e, principalmente, comentários dos textos bíblicos em rodapé, que expressam diferentes ênfases e matizes teológicas). Algumas delas são excelentes, outras aparentam ser apenas jogada de marketing.

Gostaria de falar da Bíblia que eu uso, a Bíblia Comparativa.

Por que estou recomendando esta Bíblia, que aparentemente não passa de uma "colagem" de duas versões (Almeida Revista e Corrigida e Nova Versão Internacional) lado a lado?

Porque traduzir a Bíblia não é tarefa fácil.

Engana-se aquele que pensa que basta fazer uma transposição direta palavra por palavra do idioma dos originais para a língua portuguesa – é impossível.

Para transmitir a fluência do texto bíblico original para o idioma traduzido se faz necessário que o tradutor leve em conta aspectos lingüísticos, vocabulares, históricos, gramaticais e contextuais.

Isto sem mencionar a questão textual (ou seja, o texto original adotado: as famílias de manuscritos se dividem em orientais e ocidentais), que na melhor das hipóteses, é especulativa – a expressão “tradução baseada nos melhores manuscritos originais” reflete simplesmente a opinião do tradutor sobre os manuscritos utilizados, já que não temos critérios totalmente objetivos para avaliá-los.

Para quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre a história da Bíblia, recomendo os livros Introdução Bíblica: como Bíblia chegou até nós, de Norman Geisler e William Nix (ed. Vida) e Versões da Bíblia – porque tantas diferenças?, de Elizabeth Muriel Ekdahl (ed. Vida Nova).

Felizmente temos boas traduções no Brasil, mas todas elas têm pontos positivos e negativos.

Como já foi mencionado, a Bíblia Comparativa traz a versão Almeida Revista e Corrigida, a tradução mais utilizada (e amada) no Brasil (e, por consequencia, a mais conhecida, memorizada e utilizada publicamente na igreja) lado a lado com a nova Versão Internacional (uma tradução que se preocupa com a fluência do texto na língua contemporânea, mas evita parafraseá-lo).

Cada versão tem suas dificuldades: se, por um lado, a Almeida Revista e Corrigida é muito literalista em sua tradução (embora haja vários textos que eu discorde da escolha vocabular e gramatical), seu vocabulário e gramática arcaicos também fazem com que o leitor se confunda e não compreenda muitas de suas passagens. A maior vantagem da Nova Versão Internacional é que sua linguagem assegura melhor compreensão do texto (muitas vezes, até esclarecendo o que a Almeida quis dizer em algumas passagens), embora eu ache que algumas passagens apresentaram um certo excesso de liberdade em relação ao texto original, para tentar torná-lo mais fluente. Além disso, já vi exemplares com erros de impressão (erros de gráfica).

Mas a publicação desta Bíblia prestou um excelente serviço à comunidade falante de língua portuguesa. É justamente o contraste entre as duas versões que contribuem para uma leitura mais atenta e aprofundada do texto e a tornam uma ferramenta poderosa - por isto ela é minha Bíblia.

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PS: Não há nenhum interesse comercial por este post, nem estou recebendo nenhum subsídio  financeiro da editora. Recomendo o produto apenas porque acho que se é bom para mim, será também para outros.