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segunda-feira, 12 de março de 2018

A IGREJA NÃO PODE VIRAR WAKANDA



Se você ainda não assistiu Pantera Negra, aconselho você retornar a este texto após ver o novo filme da Marvel Studios, sucesso de crítica e público, a fim de evitar possíveis spoilers. 

T'Challa é um super-herói incomum: antes de ser um guerreiro, é o rei de Wakanda, país africano fictício do universo Marvel, reserva mundial de Vibranium, metal fictício precioso e poderoso, que possibilitou o desenvolvimento tecnológico e social sem par desta nação e que por isso mesmo vive isolada de outras nações, preservando seu estilo de vida em sigilo. 

O Pantera Negra incorpora as funções de estadista, guerreiro e representante das crenças ancestrais de seu povo, o que o faz dele um personagem muito interessante, testemunho da genialidade de seus criadores, Stan Lee e Jack Kirby e de como desde o início da formação de seu universo de super-heróis a Marvel soube trabalhar bem questões sociais e de representatividade.

O filme apresenta a coroação de T'Challa (seu pai, o antigo rei, fora assassinado em Capitão América: Guerra Civil) e o enfrentamento de um antagonista que pretende assumir o trono, Killmonger.

Uma fraqueza comumente apontada  nos filmes da Marvel é a superficialidade de seus vilões. Para boa parte da crítica e do público, Killmonger se torna uma exceção, pois seu argumento para enfrentar o herói é plausível: Wakanda se isolou do restante do mundo em sua riqueza e ignorou o sofrimento histórico da população negra. Wakanda era culpada de omissão e reformas eram necessárias. Infelizmente, Killmonger busca implementar sua visão através de crimes de ódio, o que torna sua reprovável sua conduta. O Pantera Negra vence seu antagonista e implementa uma política de cooperação internacional.

Não posso deixar de fazer uma comparação entre Wakanda e muitas igrejas de nossos dias: possuem a riqueza do Evangelho, mas estão fechadas em si mesmas, alheias a todo sofrimento e necessidade a seu redor. Tal tipo de omissão é imoral, assim como a da fictícia Wakanda.

Não temos vibranium, mas aquilo que temos, somos chamados a dar (At 3.6), diminuindo, em nome de Jesus, a dor de quem nos cerca. 

O Evangelho para sempre!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

COMO CONCILIAR O SALMO 34 COM O CAPÍTULO 5 DE TIAGO?



Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores. (Tiago 5.13)

Louvarei ao SENHOR em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca. (Salmo 34.1)

Estes dois textos, colocados lado a lado, parecem contraditórios. Um deles parece sugerir (e exortar a) um estado de constante alegria e efusão religiosa; o outro parece reconhecer os altos e baixos da vida e a atitude adequada para cada momento.

Não se trata de contradição, mas de complementação – cada texto atende a um importante propósito.

Tiago 5.13 é a denúncia e a crítica da espiritualidade ufanista, movida por bravatas (tão característica de nosso evangelicalismo!). O apóstolo sabe que a aflição é uma realidade para os fiéis. Não os condena por seu abatimento, nem faz falsas promessas, apenas os exorta a compartilhar com Deus seu fardo.

Tiago sabia que a alegria simulada não traz vitória sobre a aflição (pelo contrário, traz frustração): o aflito precisa da restauração de sua alegria, através do contato com o Todo-Poderoso em oração.

Logo, Tiago 5.13 é um chamado à sobriedade.

Todavia, o Salmo 34 nos lembra que o abatimento não pode ser o estilo de vida do cristão: louvar ao Senhor em todo o tempo, de forma contínua, não é a descrição de uma atitude ufanista e alienada, mas nos indica uma vida de constante vitória contra a aflição.

Assim como Ana, que não mais se sentiu triste após orar (1Sm 1.18), o cristão possui recursos contra a aflição que não pode ser negligente em empregar.

O Salmo 34.1 é um chamado à manutenção da alegria.

A Palavra de Deus possui harmonia e respostas a todas as necessidades da vida. 

É por isto que nos foram dados estes dois textos. É por isso que precisamos de ambos.

Para que a vida seja encarada com realismo e alegria.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A PASSAGEM MAIS DIFÍCIL DA BÍBLIA



"E, descendo ele do monte, seguiu-o uma grande multidão. E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra" (Mateus 8.1-3).

 
Considero este um dos mais difíceis e enigmáticos textos da Bíblia.

Por quê?

Em ouras palavras, eis o que diz o texto:

LEPROSO: "Para que eu seja curado, basta o Senhor querer".

JESUS: "Ok, eu quero".

E o milagre aconteceu.

Simples assim – e complicado assim.

Considero este um dos mais difíceis textos da Bíblia porque é um exemplo claríssimo de sintonia da vontade humana com a vontade divina.

Acontece que nem sempre temos evidência de que a vontade divina está de acordo com a nossa.

Sabemos que basta o Senhor querer para que aconteça – se não aconteceu, é porque Ele não quis.

Mas a situação se torna angustiosa quando parece que nossa vontade é muito razoável, não havendo razões óbvias para a vontade divina não aceder a ela.

Afinal, que desejo mais natural a um leproso do que ser curado?

E como soa natural a resposta de Jesus “Quero, sê limpo”!

Por que nem sempre é tão simples assim?

Aqui caímos no terreno da oração não respondida.


(Quando digo "oração não-respondida", refiro-me à oração não-respondida de acordo com a intenção original de quem ora: "não-respondido" não significa "ignorado").

Mas o próprio Jesus soluciona este mistério ao ser também, de forma paradoxal, um paradigma da oração não respondida.

"Então, chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então, lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres". (Mateus 26.36-39)

Todos sabemos que o cálice não foi afastado de Cristo.

Mas Ele aceitou não priorizar Sua vontade, acatando a do Pai Celeste – e assim Ele nos instrui não somente acerca da oração respondida (em Mateus 8), mas também da oração não-respondida (em Mateus 26).
Se Deus não quer o mesmo que nós, é porque o que nós queremos não é tão bom quanto o que Ele quer!

Mesmo que às vezes não nos pareça razoável – mas a fé que nos leva a considerar o caráter de Deus em Seu perfeito amor e sabedoria, nos convence a abrir mão de nossa “razão” e confiar em Sua vontade.

A salvação da humanidade estava implícita no “não” de Deus a Cristo. O que não poderá estar implícito no “não” que Ele dirige a nós?

Continue confiando!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

UMA EXEGESE INADEQUADA


Exegese é o processo de extrair informações do texto bíblico, enquanto a hermenêutica consiste na interpretação destas informações.

Podemos dizer que a exegese está para o ato de garimpar, enquanto a hermenêutica seria a análise do minério.

E a Teologia, enquanto construção de conhecimento sobre Deus, seria o produto final, a jóia obtida, dentro do raciocínio da ilustração empregada, por ser resultado direto da exegese e hermenêutica utilizadas no trato com o texto bíblico.

Uma das mais populares leituras de 2 Reis 4.23-26 é a que interpreta as palavras da sunamita, que acabara de perder seu filho, como uma grande expressão de fé.

«Vai tudo bem», disse ela a seu esposo e a Geazi, após a tragédia.

Por conta disso concluiu-se que, para um homem ou mulher de fé, sempre "está tudo bem", independente dos infortúnios que possa estar sofrendo. E não poucas vezes ouvi eloquentes exortações no sentido de que assim deveriam se portar os fiéis.

(Desconfio, inclusive, que tal interpretação teria sido a base do hino 52 da Harpa Cristã.)

Os fatos narrados na própria passagem, contudo, não apóiam tal interpretação.

Aquela mulher se expressara desta forma porque não podia compartilhar o que sentia com seu marido (talvez para não preocupá-lo), nem com Geazi (que não era confiável).

Reação totalmente diferente ela teve diante de Eliseu, homem de Deus: ela lançou-se sob seus pés e deu vazão à sua dor.

"Chegando ela, pois, ao homem de Deus, ao monte, abraçou-lhe os pés. Então, se chegou Geazi para arrancá-la; mas o homem de Deus lhe disse: Deixa-a, porque a sua alma está em amargura, e o SENHOR mo encobriu e não mo manifestou". (2º Reis 4.27)

Ou seja, “vai tudo bem” nem sempre é sinônimo de grande fé, mas de grande solidão.

Não ignoro que, no sentido geral, todas nossas dificuldades devem ser colocadas diante da cruz (Paulo ensinou isto em 2 Coríntios 4.16-18) – e realmente elas tornam-se pequenas diante dela e da certeza do amor eterno de Deus (como certo irmão expressou, de forma comovente, em oração “Senhor, somente a salvação já estaria bom demais para nós”, mas acrescentou “... mas ainda assim, venho a Ti buscar uma vitória, porque estou necessitado”).

Ou seja, Deus sabe de nossas carências. Não precisamos fingir que não dói. Ele sabe.

Bancar o “Superman” religioso contribui apenas para minar a intimidade do relacionamento com Deus - e também com os outros.

Sim, pois a Igreja é uma comunidade que deve prestar apoio mútuo (Gálatas 6.2), e isto se torna impossível em um ambiente onde não haja a transparência necessária para expressar o que se passa no coração – seja por uma impostura teológica errônea, ou pela falta de credibilidade dos cristãos.

Este é o principal problema com esta má interpretação do episódio da sunamita:Transforma a fé em bravata, artificializando relacionamentos.

A maneira sábia como Eliseu acolheu aquela mulher pode nos orientar sobre como ajudar a ficar bem aqueles que não estão: 
 
  1. Ele se mostrou acessível, permitindo que ela abraçasse seus pés;
  2. Ele não recriminou a sunamita por vê-la naquele estado (não falou coisas como "que é isso, mulher, isso não é coisa de crente!" - e chavões do gênero); 
  3. Ele a protegeu, não permitindo que o incompreensivo Geazi a perturbasse; 
  4. Não menosprezou sua dor; 
  5. Não mistificou desnecessariamente a situação ("a sua alma está em amargura, e o SENHOR mo encobriu e não mo manifestou");
  6. Prestou ajuda prática (como veremos nos versículos 28 a 37)

Certamente isto é mais eficaz, por ser bíblico, que proferir e ensinar a proferir bravatas.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

UM CÂNTICO MAL-EDUCADO

Meu inglês não é fluente – mas ainda assim creio que não seria honesto de minha parte escrever um artigo sobre o famosíssimo hino Sossegai desconsiderando a composição original. Sendo assim, com o intuito de descobrir nuances na poesia de Mary Ann Baker que poderiam ter se perdido na adaptação para o português, atrevi-me a traduzi-lo, mesmo reconhecendo que cometeria inevitáveis tosquices lingüísticas. Mas, por favor, tenha paciência e siga comigo nesta reflexão.

CALM
CALMA

Master, the tempest is raging! The billows are tossing high!
Mestre, a tempestade está furiosa! As ondas estão se agitando às alturas!

The sky is o’er shadowed with blackness, No shelter or help is nigh;
O céu está sombreado com trevas, não há abrigo ou ajuda por perto

Carest Thou not that we perish? How canst Thou lie asleep,
Tu não te preocupas que estamos em perigo? Como podes tu ficar adormecido

When each moment so madly is threatening, A grave in the angry deep?
Quando a cada momento tão loucamente é prenunciado um túmulo nas profundezas furiosas?
 
Chorus
Coro
 
The winds and the waves shall obey My will,
Os ventos e as ondas deverão obedecer Minha vontade

Peace (Peace, be still!), be still (Peace be still!)!
Paz, fique calmo!

Whether the wrath of the storm tossed sea,
Seja a ira da do mar agitado pela tempestade

Or demons, or men, or whatever it be,
Ou demônios, ou homens, ou o que quer que seja,

No water can swallow the ship where lies,
Nenhuma água pode tragar o barco onde jaz

The Master of ocean and earth and skies;
O mestre do oceano, da terra e dos céus,

They all shall sweetly obey My will;
Todos eles deverão docemente obedecer minha vontade

Peace be still! Peace be still!
Paz, fique calmo! Paz, fique calmo!

They all shall sweetly obey My will,
Todos eles deverão docemente obedecer minha vontade

Peace, peace, be still!
Paz, fique calmo! Paz, fique calmo!

2. Master, with anguish of spirit I bow in my grief today;
2. Mestre, com angústia de espírito arqueei-me em meu pesar hoje

The depths of my sad heart are troubled; O waken and save, I pray!
As profundezas de meu triste coração estão perturbadas; oh, acorda e salva, eu oro!

Torrents of sin and of anguish Sweep o’er my sinking soul!
Torrentes de pecado e angústia varrem minha alma desmoronada

And I perish! I perish, dear Master; O hasten, and take control!
E eu pereço! Eu pereço, querido Mestre; oh, se apresse e tome o controle!

3. Master, the terror is over, The elements sweetly rest;
3. Mestre, o terror acabou, os elementos descansam docemente

Earth’s sun in the calm lake is mirrored, And Heaven’s with my breast.
O sol da Terra está espelhado no calmo lago e o do céu no meu peito

Linger, O blessed Redeemer, Leave me alone no more;
Demore, Ó abençoado Redentor, não me deixe mais só

And with joy I shall make the blest harbor, And rest on the blissful shore
E com alegria eu farei o bendito porto e descansarei na bem-aventurada costa

 
Mary Ann-Baker (1831-1881) passou pela dor de perder seus pais em tenra idade e seu piedoso irmão, um referencial para ela na fé, ainda na adolescência.

"Sossegai" é o registro da experiência de superação de sua dor.

"Embora nosso choro não fosse 'como outros que não têm esperança' e embora tivesse crido em Cristo desde menina e desejasse sempre viver uma vida consagrada e obediente, tornei-me terrivelmente rebelde a esse desígnio da divina providência. Disse no meu coração que Deus não me amava, nem aos meus. Mas a própria voz do meu Mestre veio acalmar a tempestade no meu coração rebelde e me trouxe a calma de uma fé mais profunda e uma confiança mais perfeita."
 
Tendo escrito a letra para uma aula da Escola Bíblica Dominical sobre a passagem bíblica em que Cristo apazigua a Tempestade (“Esta lição expressou tão vividamente a minha experiência, que este hino foi o resultado”), a autora surpreendeu-se com o sucesso que o hino alcançou, obtendo várias traduções e sendo amado por imensa parte da cristandade.

"Me surpreende muito que este humilde hino tenha atravessado os mares e tenha sido cantado em terras bem distantes para a honra do nome do meu Salvador", afirmou Mary Ann.
 
Como explicar tamanho sucesso, principalmente à luz de versos como “Não se te dá que morramos” (pior no inglês origial, “Carest Thou not that we perish?”, ou seja, “Tu não te preocupas que estamos em perigo?”)?

A razão que explica o sucesso de Sossegai é a mesma razão que explica o sucesso dos Salmos.
 
São textos que relatam a experiência profunda de expor sem reservas ao Senhor o conteúdo do coração – não importa qual seja ele.
 
Expõe-se ao Senhor o conteúdo do coração porque só Ele é capaz de consertá-lo.

Enquanto o cerimonialismo religioso busca se especializar em desenvolver as técnicas rituais adequadas para aproximar o homem convenientemente (e artificialmente) de Deus, Sossegai segue na direção oposta.
 
Isto faz com que os Salmos e cânticos como Sossegai sejam imbatíveis enquanto literatura devocional: eles expressam o profundo anseio humano por Alguém que os ouça e, em triunfo, descobrem que Deus os aceita.
 
A falta de etiqueta de um coração contrito é resultado da não-domesticação do mesmo pelo cerimonialismo religioso.

E enquanto o evangelicalismo contemporâneo tenta negar a realidade da experiência do sofrimento humano e apresentando o retrato de um falso Deus que se interessa pelo dinheiro e cabriolas dos fiéis, a subversão devocional revelada nos Salmos e em Sossegai será necessária, para a salutar adoração e para resguardar a dignidade de Deus, apresentando-O como o pai amoroso que é.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DECIDINDO ENTRE SOFRER OU FAZER SOFRER

O sofrimento do justo é um problema que há séculos têm deixado muitas pessoas intrigadas.

Aqueles que, como Asafe, compreenderam a perspectiva escatológica da História, com o triunfo final da justiça divina, já tranquilizaram seus corações (Salmo 73).

Há, porém, um aspecto desta questão que merece consideração atenta, por tocar no aspecto ontológico do problema do sofrimento do justo: o fato de que o estilo de vida de um justo, por si só, promove sofrimento.

Pautar a vida em valores como amor, mansidão, benignidade, honestidade e misericórdia vulnerabiliza o indivíduo. Sim, pois o estilo de vida de um justo é construído sobre decidir entre sofrer ou fazer sofrer. Fazer a primeira escolha significa estar sujeito aos abusos e à crueldade da parcela da humanidade que tomou a decisão diferente da sua.

A crueldade encontra espaço diante daqueles que não representam ameaça nem tampouco retaliação.

Richard Wurmbrand, mártir vivo do século XX declarou  que “uma flor, se você feri-la sob seus pés, recompensa você te dando seu perfume”.

Não devemos, porém, encarar esta questão dentro de uma perspectiva escatológica limitada, que se consola apenas em uma futura inversão de papéis no porvir, onde os justos receberão sua recompensa pelos males que sofreram para sustentar seu estilo de vida e os injustos receberão a punição que sua injustiça merece.

A maior recompensa ou punição de um determinado estilo de vida está na vivência do mesmo.

Logo, aquele que faz sofrer, assassinou todas as suas possibilidades de felicidade mediante seu próprio estilo de vida – assim, fazer sofrer é escolher trilhar um caminho de sofrimento para si mesmo.

Da mesma forma o justo se regozija na felicidade e realização que seu estilo de vida lhe proporciona (moral, espiritual e pessoal) ainda na vivência histórica, mesmo enfrentando sofrimento.

O porvir é apenas uma continuação e confirmação das escolhas já feitas por indivíduos na história...

E assim, o caminho de vida de um justo é melhor trilhado por aqueles que compreendem que a virtude em si é a maior recompensa pela prática da mesma.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

IMPEDINDO QUE A DÚVIDA SE TRANSFORME EM BLASFÊMIA




Muitos estão familiarizados com a história do patriarca Jó. Sabem de como Satanás questionou a sinceridade de sua fé e de como Deus confiou na integridade de seu servo, sabendo que ele não O negaria, mesmo diante de duras aflições.

Jó perdeu seus filhos, suas posses e sua saúde. O consolo oferecido por seus amigos foi pífio. Mesmo assim, não blasfemou contra o Senhor.

Uma das passagens memoráveis do livro é a declaração em 1.21, quando o patriarca é notificado das tragédias que se abateram contra sua casa: "Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!"

Ao final, a fé de Jó triunfa, vencendo as adversidades que puseram-no à prova.

Todos estes detalhes serviram para alçar Jó à categoria de campeão da fé e exemplo de paciência. Aliás, temos até a expressão "paciência de Jó", inspirada em sua trajetória.

É justo que tenhamos tal respeito por este personagem bíblico - mas comete um grave erro quem acredita que o patriarca passou por seu período de dificuldades de forma apática e impassível, sem sentir o impacto da crise em que viveu. Algumas das próprias declarações de Jó durante seu sofrimento nos mostram algumas das perturbações de seu coração:

Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse: Foi concebido um homem! (3.3)

Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? (3.11)

Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim cravadas, e o meu espírito sorve o veneno delas; os terrores de Deus se arregimentam contra mim. (6.4)

Quem dera que se cumprisse o meu pedido, e que Deus me concedesse o que anelo! Que fosse do agrado de Deus esmagar-me, que soltasse a sua mão e acabasse comigo! Isto ainda seria a minha consolação, e saltaria de contente na minha dor, que ele não poupa; porque não tenho negado as palavras do Santo. (6.8-10)

Ainda que o chamasse, e ele me respondesse, nem por isso creria eu que desse ouvidos à minha voz. Porque me esmaga com uma tempestade e multiplica as minhas chagas sem causa. Não me permite respirar; antes, me farta de amarguras. (9.16-18)


Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo. Parece-te bem que me oprimas, que rejeites a obra das tuas mãos e favoreças o conselho dos perversos? Tens tu olhos de carne? Acaso, vês tu como vê o homem? São os teus dias como os dias do mortal? Ou são os teus anos como os anos de um homem, para te informares da minha iniqüidade e averiguares o meu pecado? Bem sabes tu que eu não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão. As tuas mãos me plasmaram e me aperfeiçoaram, porém, agora, queres devorar-me. (10.2-8)

Por que escondes o rosto e me tens por teu inimigo? (13.24)

Em paz eu vivia, porém ele me quebrantou; pegou-me pelo pescoço e me despedaçou; pôs-me por seu alvo. Cercam-me as suas flechas, atravessa-me os rins, e não me poupa, e o meu fel derrama na terra. Fere-me com ferimento sobre ferimento, arremete contra mim como um guerreiro. (16.12-14)

A experiência de fé de Jó não se caracterizou apenas pela paciência e declarações confiantes, mas também pela perplexidade e pela dúvida.

Às vezes, parece até que Jó blasfema, fracassando assim no teste de sua fé, tal como Satanás esperava.

Todavia, ao revelar-se para Jó, no clímax final da história (caps. 38-42), Deus rejeita os conceitos simplistas e artificiais que os amigos de Jó teceram a fim de “consolá-lo”, declarando que eles não haviam falado o que era reto sobre Ele, ao contrário de Seu servo Jó (42.7).

Como explicar isso?

Como entender a postura divina diante das dúvidas do patriarca?

O segredo da fé de Jó não é que ela foi uma fé isenta de conflitos, mas o fato de constantemente apresentar a Deus estes conflitos. Ao ver seu mundo ruir e tudo perder o sentido, o patriarca venceu por compreender resolutamente que somente Deus poderia trazer sentido a tudo, e pela fé, assim Jó não desistiu de buscar este sentido na pessoa de Deus – Jó sabia que somente Deus possui a chave que desvenda os enigmas da vida, inclusive o importante fato que somente Deus pode resolver o enigma sobre Deus.

As dúvidas de Jó faziam parte de um processo de amadurecimento na fé. A fé não nega a dúvida, mas é fortalecida ao enfrentá-las com honestidade. As “soluções” que os amigos de Jó lhe ofereciam eram apenas uma maneira simplista de compreender a experiência humana, fugindo da complexidade da vida e da experiência com Deus, apresentando um Deus “reinterpretado”, reduzido à imagem de seus conceitos medíocres – a fé de Jó não pôde aceitar tal ofensa ao ser de Deus, e este concordou com o patriarca.

A fé aceita não compreender e continuar buscando em Deus respostas. A fé sabe que somente Ele as tem! A fé aceita não camuflar seus conflitos e sentimentos. A fé sabe que somente Ele pode compreender! A fé aceita vivenciar em Deus conflitos e vitórias, ao passo que a incredulidade que “reinterpreta” de forma enganosa a Deus, se aproxima mais da blasfêmia do que as pungentes declarações do patriarca em meio ao sofrimento.

E, por esta fé, Satanás foi derrotado. O livro de Jó nos ensina que é possível vencê-lo, mesmo através das crises.

domingo, 10 de janeiro de 2010

COMO DEUS PODE USAR SEU SOFRIMENTO

Não me recordo se foi em Memórias Póstumas de Brás Cubas ou em Quincas Borba que Machado de Assis narrou o caso de um escravo que, obtendo alforria, logo tratou de comprar um escravo para si para poder também espancá-lo.

Toda experiência de sofrimento é dolorosa não pode ser menosprezada. Gera cicatrizes, quer no corpo ou na alma. Todavia, é essencial aprender a lidar com o sofrimento de forma a não permitir que ele transtorne nosso caráter. O que sofremos é menos importante que a maneira como reagimos ao que sofremos.

A Bíblia ensina que Deus pode gerar resultados positivos das más experiências que temos na vida:

1) Diversas virtudes como empatia, compaixão, misericórdia, humildade e auto-crítica podem ser desenvolvidas durante períodos de aflição de uma forma que não seria possível em outras circunstâncias – ou seja, a dor pode ser um instrumento utilizado por Deus para nos tornar homens e mulheres melhores, nos conduzindo ao amadurecimento (Salmo 119.67; 2.ª aos Coríntios 12.1-10).

2) Passar por situações difíceis nos capacita a ajudar pessoas que estejam passando por estas mesmas circunstâncias. Ou seja, temos experiência para lhes transmitir consolação (2.ª aos Coríntios 1.4).

3) Toda experiência de sofrimento é tanto um convite de Deus para o amadurecimento quanto uma oportunidade que Satanás utiliza para tentar nos corromper (no grego original, a mesma palavra, peirasmos, significa tanto “provação” quanto “tentação”). Sendo assim, a vitória sobre o sofrimento nos leva ao aperfeiçoamento de nossas defesas espirituais (1.ª de Pedro 5.8-9).

4) Além disso, nossas experiências com o sofrimento também exercem impacto sobre aqueles que nos cercam, sendo um testemunho vivo e ao mesmo tempo didático sobre o poder de Deus (Salmo 40.1-3).

5) Nossa fé no Senhor é aperfeiçoada (Romanos 5.3-5; 1.ª de Pedro 1.6-7).

Talvez você não tenha concordado com a abordagem que realizei, ou não acredite que ela se aplique na circunstância em que você se encontra.

Sendo assim, faço apenas esta colocação:

Se simplesmente o teu sofrimento não te corromper de tal forma a levar você a fazer parte dos algozes (tal como no exemplo extraído da obra de Machado de Assis), a humanidade já agradece.

Já será um grande passo.

As demais coisas Cristo esclarecerá em seu coração.

domingo, 3 de janeiro de 2010

PENSE NISTO - Uma palavra de Billy Graham


"À medida que o crente, Bíblia à mão, analisa o cenário mundial, ele sabe que não adoramos um Deus ausente. Sabe que Deus está nas sombras da história e tem um plano. O crente não deve se perturbar com o caos, a violência, a contenda, o derramamento de sangue e as ameaças de guerra que enchem diariamente as páginas dos nossos jonais. Sabemos que estas coisas são conseqüência do pecado e da cobiça. Todos os dias, vemos milhares de evidências do cumprimento das profecias bíblicas. Todos os dias, ao ler o meu jornal, digo: 'A Bíblia é a verdade'.
Não importa qual seja o presságio para o futuro, o cristianismo conhece o final da história. Estamos nos dirigindo a um clímax glorioso. Todos os escritores do Novo Testamento crêem que o 'melhor ainda está por vir'.
Como disse John Baillie: 'A Bíblia mostra que o futuro está nas mãos de Deus. Se estivesse em nossas mãos, faríamos dele uma grande confusão. O futuro não está nas mãos do Diabo, porque assim ele nos levaria à destruição. O futuro não está à mercê de nenhum determinismo histórico, nos fazendo avançar às cegas, porque assim a vida não teria sentido. O futuro está, sim, nas mãos daquEle que está preparando algo melhor do que os olhos já viram ou que os ouvidos já ouviram, ou que já tenha passado pelo coração do homem, fazendo-o imaginar.'"

sábado, 12 de dezembro de 2009

LIÇÕES DO SALMO DA DESESPERANÇA


1 SENHOR, Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite.
2 Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor.
3 Porque a minha alma está cheia de angústias, e a minha vida se aproxima da sepultura.
4 Já estou contado com os que descem à cova; estou como um homem sem forças,
5 posto entre os mortos; como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais; antes, os exclui a tua mão.
6 Puseste-me no mais profundo do abismo, em trevas e nas profundezas.
7 Sobre mim pesa a tua cólera; tu me abateste com todas as tuas ondas. (Selá)
8 Alongaste de mim os meus conhecidos e fizeste-me em extremo abominável para eles; estou fechado e não posso sair.
9 A minha vista desmaia por causa da aflição. SENHOR, tenho clamado a ti todo o dia, tenho estendido para ti as minhas mãos.
10 Mostrarás tu maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão? (Selá)
11 Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição?
12 Saber-se-ão as tuas maravilhas nas trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento?
13 Eu, porém, SENHOR, clamo a ti, e de madrugada te envio a minha oração.
14 SENHOR, por que rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face?
15 Estou aflito e prestes a morrer, desde a minha mocidade; quando sofro os teus terrores, fico perturbado.
16 A tua ardente indignação sobre mim vai passando; os teus terrores fazem-me perecer.
17 Como águas me rodeiam todo o dia; cercam-me todos juntos.
18 Afastaste para longe de mim amigos e companheiros; os meus íntimos amigos agora são trevas.


Mesmo antes de ser evangélico já sabia que o Salmo 88 era um dos textos mais tristes da Bíblia.

O Salmo 88 é a súplica de um homem profundamente atribulado.

Pouco se sabe de Hemã, seu autor. Provavelmente era um dos levitas que serviam no templo de Jerusalém, durante o reinado de Davi. Se for o mesmo homem mencionado no 1.º livro das Crônicas, capítulo 25.4, tratava-se de um importante profeta e ministro de louvor.

Infelizmente, nada disto torna alguém imune à aflição.

Hemã não deixa claro o que está causando seu sofrimento, nem sua duração (de acordo com o versículo 15, não parece tratar-se de uma crise momentânea). Prefere se concentrar nas consequências que suas tribulações podem acarretar (a morte) e na grande solidão que sente.

Não importa.

O que importa é que Hemã enfatizou a tentativa de compreender teologicamente seu sofrimento. E a conclusão que chegou, a partir de sua perspectiva, era que Deus o abandonara.

Aí, foi demais para ele. Hemã surtou.

Hemã entrou em parafuso.

Hemã questionou a bondade de Deus.

Compreendendo que nada acontece fora da permissão divina, julgou que estava vivendo sob Seu desfavor.

Afinal, como não responsabilizar um Deus que se sabe soberano sobre todo o universo?

Nenhuma nota de esperança conclui o Salmo. Apenas a certeza da solidão do salmista.

Que lições podemos tirar deste cântico desesperado?

LIÇÃO N.º1: A oração do salmista é uma lamentação e desabafo indignado, mas não se constitui apenas nisto. Ele ora ao “SENHOR, Deus da minha SALVAÇÃO”. O que leva Hemã a orar? O que o leva a se mover em direção a seu Deus? Apesar de não compreender Deus, de virtualmente discordar de Deus, Hemã não desiste de Deus – sabe que Ele é confiável – e encontra coragem para, expor tudo que há em seu coração. Somente aquele que crê em Deus apresenta para Ele sua dúvida acerca dEle. O Salmo 88 é um lamento fundamentado na esperança que o caráter de Deus fornece.
LIÇÃO N.º2: Este cântico foi ouvido – no sentido mais pleno possível. A inclusão do Salmo 88 na Bíblia demonstra que Deus não exclui a súplica dos desesperados. Deus não condenou Hemã a um ostracismo na história, antes preservou o registro de sua luta e forneceu a homens e mulheres de todas as gerações um modelo que confere a certeza de que os ouvidos de Deus estão atentos aos aflitos.

Você não precisa desistir de sua sinceridade para caminhar com Deus. Aliás, é no exercício dela, tanto nos bons como maus momentos, que você começará a compreender melhor quem é Deus e o que significa ter um relacionamento pessoal com Ele.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

QUE BOM QUE ÀS VEZES DEUS NÃO NOS LEVA A SÉRIO!

O livro de Rute tem como uma de seus protagonistas Noemi, retirante da fome que assolou Belém e a levou a se estabelecer em Moabe com sua família.

Após ter sido vitimada pela perca do marido e dos filhos, e com a perspectiva de um regresso doloroso à sua pátria, Noemi toma uma decisão fatídica: não mais queria ser chamada pelo seu nome (cujo significado é "minha delícia"), preferindo ser tratada por Mara ("amargura").

Por consider que a tragédia havia obtido poder para definir sua vida, Noemi abriu mão de sua identidade.

Felizmente, Deus não concordou.

O autor bíblico (provavelmente Samuel) jamais utiliza o termo "Mara" para falar de Noemi (veja Rute 1.22; 2.1-2, 6, 20, 22; 3.1, 18; 4.3, 5, 9, 14, 16-17).

Deus não abriu mão da identidade de Noemi e desrespeitou sumariamente a nova maneira pela qual ela concebia a si mesma e a vida, fazendo-a ver que as coisas não são como ela pensava, e que era possível ainda conhecer a felicidade.

Deus não desistiu de Noemi, apesar de ela ter desistido de Si.


Deus não desiste de nós em nossas precipitações.
Deus não anula o futuro que tem para nós quando tomamos como verdade nossas próprias perspectivas enganosas.

Deus não nos trata na mesma medida de nossas iniquidades e nem tampouco nos recompensa com base em nossa limitada fidelidade.

Deus ainda nos enxerga como somos, apesar dos pseudônimos que adotamos.

E ele jamais irá aceitar as decisões que tomamos acerca de nós mesmos que impliquem em um projeto de vida que não concretize o melhor que Ele tem para nós: assim como ele não aceitou tratar Noemi como Mara, Ele não aceitará abrir mão do homem e da mulher que Ele quer formar em nós, concordando com as alcunhas que assumimos e apelidamos de "vida", "identidade" e "perspectivas".

Que bom para nós!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

DE QUÊ VOCÊ PRECISA PARA CRER EM DEUS?


O filósofo Sam Harris, citado na edição de outubro da revista Galileu, sugere que 1 bilhão de cristãos se unam em oração em prol de uma única pessoa amputada, pedindo a Deus que faça crescer novamente o membro perdido.

Harris considera pífia a possibilidade de que este milagre ocorra.

De acordo com sua lógica, esta é uma prova cabal de que crer em Deus é tolice.

Afinal, se um Deus que, teoricamente, é todo-poderoso e todo-bondoso, ignora voluntariamente a súplica fervorosa de 1 bilhão de fiéis, traz motivos para duvidar ou de sua bondade ou de sua existência.

Argumento impressionante, não?

Não para Jesus.

Jesus teve de lidar com este argumento e não se curvou à sua lógica.

Em todas ocasiões em que foi desafiado a realizar milagres para provar algo sobre Si, respondeu com o silêncio (Mateus 12.38-42; lucas 23.8-9), ao passo que curou pessoas que mal sabiam Seu nome.

Deus não age sob pressão.

Pediram uma demonstração espetacular para Jesus enquanto ele estava na cruz (Mateus 27.41-42).

Prometeram-lhe "conversão em massa", caso Ele os atendesse.

"Desça da cruz e creremos"!


Nada.

Jesus não desceu da cruz.

Ele não desceu porque a cruz é a resposta de Jesus para todos aqueles que buscam a Deus (Romanos 5.8).

Quem não encontrar na cruz de Jesus razões suficientes para crer em Deus não as encontrará de nenhuma outra forma!


Agora a proposta de uma pergunta diferente para Sam Harris:

Será que 1 bilhão de ateus reunidos poderiam fazer o bem que Jesus me proporcionou?

Estou certo que não.

***


PS: Harris parece abertamente ignorar diversos relatos historicos de curas divinas documentados pela Igreja, mas ainda assim podemos lhe dar uma colher de chá e perguntar honestamente:


Por que não temos relatos de curas de amputados?


Não sei!


Deus o sabe!


Mas pela cruz posso saber de um futuro em que toda mutilação, do corpo e do coração, será curada.

domingo, 5 de julho de 2009

SÚPLICA CEARENSE



Oh! Deus, perdoe este pobre coitado


Que de joelhos rezou um bocado


Pedindo pra chuva cair sem parar





Oh! Deus, será que o Senhor se zangou


E só por isso o sol se arretirou


Fazendo cair toda chuva que há





Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho


Pedi pra chover, mas chover de mansinho


Pra ver se nascia uma planta no chão





Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,


Eu acho que a culpa foi


Desse pobre que nem sabe fazer oração





Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água


E ter-lhe pedido cheinho de mágoa


Pro sol inclemente se arretirar





Desculpe eu pedi a toda hora pra chegar o inverno


Desculpe eu pedir para acabar com o inferno


Que sempre queimou o meu Ceará

Esta canção, composta por “Gordurinha“ e Nelinho e interpretada por Luiz Gonzaga aborda o drama do nordestino flagelado pela seca. Mais que isso, porém, a música apresenta diversos conceitos sobre Deus (especialmente no que diz respeito á relação entre Deus e o sofrimento) que merecem nossa análise:

1. Deus é apresentado como um ser distante e que não se relaciona com os fatos desta vida, sendo para ele um incômodo ter de fazê-lo (por isso o autor diversas pede perdão por fazer-lhe uma petição) - ou, quando o faz, sempre age de maneira punitiva (Oh! Deus, será que o Senhor se zangou/E só por isso o sol se arretirou).

2. Não existe qualquer elemento de pessoalidade ou intimidade na maneira de buscar a Deus. O autor sequer manifesta a esperança de que seja atendido. A Súplica Cearense mais parece um pedido de aumento de salário a um patrão egoísta do que a apresentação de uma necessidade a um pai amoroso.

3. A causa da súplica não-atendida é sempre devido à inadequação do homem às exigências caprichosas de Deus, por não saber buscá-lo com a devida cerimônia ou por não dispor dos conhecimentos necessários para fazer da religiosidade um meio de extorsão para relacionar-se com Deus (Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe/Eu acho que a culpa foi/Desse pobre que nem sabe fazer oração).

O sofrimento histórico do povo nordestino com a seca não deve ser subestimado nem minimizado.

É mais difícil, porém, superar o sofrimento quando temos um conceito errado sobre Deus. Aliás, isto de torna um sofrimento adicional – pois somente a verdade sobre Deus possui caráter libertador.

A Bíblia apresenta um Deus amoroso, misericordioso e compassivo, que se interessa pelos dramas da humanidade. Um Deus que acolhe as súplicas de quem O busca, a ponto de o autor aos Hebreus exortar: Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno (Hebreus 4.16).

Um Deus realista, que reconhece que este mundo não corresponde ao ideal de Sua mente, mas que em Cristo Jesus, já está operando a construção de um mundo novo: esta presente realidade (com todas suas mazelas, que sempre vale a pena lembrar, não fizeram parte da intenção original de Deus, mas são conseqüências da queda da espécie humana) não é a palavra final de Deus à História. E o caráter transitório desta era, dado como certo diante da promessa trazida pelo Evangelho, de novos céus e nova terra, é Sua resposta a todo aquele que “geme” diante das agruras da atual realidade (Romanos 8.19-23), constituindo-se em um convite à marcha, à peregrinação corajosa, dentro desta história, rumo ao futuro prometido por Deus.
Qualquer bênção ou livramento experimentados nesta realidade não são comparáveis à futura consumação plena da promessa de restauração de Deus, nem podem ser a base de nossa fé.
A promessa e revelação de Deus em Cristo é a resposta à Súplica Cearense.
O filósofo judeu Emmanuel Lévinas (1906-1995) perguntava-se, após os horrores da 2.ª Guerra Mundial: como falar de Deus depois do horror de Auschwitz?
O teólogo alemão Jürgen Moltmann (1926) apresenta um outro ponto de vista totalmente diferente: como não falar de Deus após Auschwitz?